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Agricultores estimulados a consumir legumes

Cristina da Silva|

A formação decorre no Centro Profissional do Instituto de Desenvolvimento Agrário, em Catete, e reúne agricultores, associações, cooperativas e técnicos agrários. O objectivo é levar as comunidades rurais a incluírem na dieta alimentar frutas e hortaliças.

Formandos receberam explicações sobre o facto de as fontes de contaminação dos alimentos serem as mãos e as unhas
Fotografia: Adérito Cortez

A formação decorre no Centro Profissional do Instituto de Desenvolvimento Agrário, em Catete, e reúne agricultores, associações, cooperativas e técnicos agrários. O objectivo é levar as comunidades rurais a incluírem na dieta alimentar frutas e hortaliças. Além de melhorarem os índices de saúde, os consumidores contribuem para a redução da deterioração dos produtos do campo.
Stella Monteiro, assistente de programa da FAO, explica aos formandos que as fontes de contaminação dos alimentos são as mãos, as unhas, por armazenarem lixo, a pele, a saliva e o cabelo: “sempre que vamos para a cozinha confeccionar os alimentos, é importante que ao manusearmos os produtos, utilizemos máscara, luvas, avental e uma protecção para os cabelos”, explica a doutora.
O local da formação em Catete tem uma sala de transformação dos produtos em alimentos. Estão presentes 27 agricultores divididos em quatro mesas de preparação dos alimentos. Homens e mulheres, vindos de várias localidades, estão a ser formados na transformação dos produtos do campo. Apesar de já saberem a teoria, a prática é importante para começarem a fazer compotas e conservas.
Os produtos são produzidos nas lavras e nas quintas da região. Se as comunidades rurais começarem a incluir nas suas refeições legumes e frutas, ganham de duas formas: melhoram os índices de saúde e não se estragam os produtos que não têm escoamento para os mercados. Os especialistas dizem que 40 por cento dos produtos cultivados nos campos da região, acabam por se estragar por não existirem técnicas de transformação ou conservação dos produtos.
A formação que decorre em Catete é uma iniciativa do Governo Provincial de Luanda e do Fundo Alimentar (FAO). Participam agricultores de Muzondo, organizados em associações e cooperativas.

Compotas e conservas

Ester Cakinda estava encostada a uma mesa da cozinha onde decorre a formação. Equipada com máscara, luvas e touca, partilhava a mesa com outros quatro colegas. Descascavam batata-doce para fazer conservas e compotas. A agricultora de Muzondo, na Funda, município do Cacuaco, quer aumentar os seus conhecimentos, por isso, Ester está na formação e aprende técnicas simples para transformar os produtos do campo.
Antes de frequentar o curso, não lhe passava pela cabeça que os produtos que se estragavam na sua lavra podiam ser transformados quase sem custos adicionais: “aprendi que posso fazer alimentos simples e assim evitar que se estraguem na lavra por falta de clientes ou de escoamento”.  Para além da compota de batata-doce, aprendeu a fazer sumos de tomate e ananás, marmelada de mamão, picles de beringela ou tomate pelado. “Foi uma formação que valeu” referiu.
Depois da formação, Ester Cakinda, pretende transmitir os conhecimentos adquiridos à sua comunidade e abrir um negócio de conservas de produtos do campo: “O que aprendi é importante para mim e para os outros agricultores. Daí o meu compromisso com a organização desta formação em passar a minha experiência a outros agricultores”.
A agricultora vai pedir um financiamento e abrir uma pequena indústria de sumos e compotas. “É difícil conservar os produtos do campo por longos períodos. Com as técnicas que aprendi penso abrir um negócio de compotas e sumos que depois vou vender no mercado nacional ”, disse o agricultora.
De fato-macaco e um balde de tomate na mão, Evaristo Adão demonstrava grande agilidade na aula prática. O grupo a que pertence tinha de provar que os métodos utilizados para a transformação do tomate eram os mais correctos e que o produto final é bom para o consumo humano. Ao lado está o professor Danilo Mejía, técnico da FAO.
Reformado há cinco anos, Evaristo Adão aprende a transformar produtos do campo em alimentos de conserva: “é uma técnica nova para mim, que vai ajudar a melhorar a minha vida”.
Com o tomate aprendeu a fazer sumo, tomate pelado, tomate seco e concentrado de tomate. Aprendeu também as técnicas para secar banana, cebola e pimento.
“Esta é uma iniciativa de louvar que só terá sucesso se tivermos meios e principalmente embalagens para manter os produtos transformados”, acrescentou.
Sebastião Quissanga trabalha na agricultura desde que deixou a vida militar. Vive em Calumbo, e antes da formação secava o bombô e a batata-doce. Mas tomate, ananás e banana que não conseguia vender no mercado, acabavam por se estragar na lavra ou dava esses produtos aos porcos.
Em dez dias de formação, o agricultor aprendeu a secar produtos e a fazer compotas e conservas: “aprendi a fazer tomate pelado, doce de batata-doce, marmelada de mamão e sumo de ananás”. Membro da Cooperativa Kiandala, Sebastião Quissanga, diz que é preciso criar condições nas cooperativas para desenvolver acções a nível das comunidades para que parte dos produtos que não chegam ao mercado sejam transformados.
Julião Katemba é presidente da cooperativa “Coop Cam”, do Cacuaco. Há 20 anos a trabalhar no campo, pela primeira vez beneficia de uma formação do género onde aprendeu a avaliar a qualidade dos produtos e a sua pesagem: “é uma formação que deve estender-se a todo o país, uma vez que Angola é na sua maioria rural”.

Aproveitamento dos produtos

O presidente da cooperativa “Coop Cam” disse ainda que “ já mostrámos que somos ricos em produtos do campo. Se conseguirmos criar condições, a dieta alimentar das populações é melhorada e deixamos de atirar com os produtos para o lixo”.
Ludívina Teixeira faz parte das mulheres seleccionadas para a formação. Trabalha há quatro anos no campo e diz que está pronta para ­fazer compotas e conservas: “a­prendi a transformar batata-doce, cebola, cenoura, pimento, ananás, mamão, maracujá e goiaba. É uma formação muito boa e além de agricultores as próprias donas de casa deviam aprender a conservar os alimentos como devem ser”.

Formação contínua

Stella Monteiro, assistente de programa da FAO, disse que aos agricultores estão a ser ensinadas técnicas de conservação dos produtos da região: “queremos que eles dêem valor acrescentado aos produtos cultivados e reduzir as perdas após as colheitas. Na altura da colheita aparece muito produto nos mercados mas depois do mercado abastecido há produtos que acabam por se estragar. Muitos agricultores até preferem não fazer a colheita”.
Durante a formação, os técnicos estão a demonstrar grande motivação e “isto mostra que daqui para frente muita coisa vai mudar na vida destas pessoas”, disse Stella Monteiro.
“A desidratação permite que os produtos sejam conservados por período de aproximadamente dois anos, sem perder as suas propriedades naturais. São produtos que não sofreram contacto com produtos químicos”, explicou a técnica.
Stella Monteiro informou que é a segunda vez que a FAO faz uma formação do género em Angola. A primeira decorreu no município de Catabola, no Bié: “se chegarem convites e apoios vamos continuar com esta formação, porque ensinamos técnicas muito úteis que vão ajudar a minimizar os problemas das comunidades rurais. A intenção é motivar aos agricultores a valorizarem os seus produtos”.

Pequenas indústrias

O Governo Provincial de Luanda pretende no futuro organizar mais acções de formação que vão permitir aos camponeses fazer compotas e conservas mas também apoiar a criação de pequenas indústrias, anunciou Pascoal Manuel de Castro, membro do grupo Técnico de Combate à Pobreza na Província de Luanda. “A província de Luanda produz frutas e hortícolas em grande escala, mas parte dos produtos estragam-se por falta de escoamento. Vamos ajudar a criar pequenas indústrias de conservas para melhorar a dieta alimentar das famílias”, disse Pascoal Manuel de Castro.  A formação que está a decorrer em Catete faz parte de um protocolo assinado entre o Governo Provincial de Luanda e a FAO e está inserida no programa de combate à pobreza. Na formação participam 27 agricultores entre associados em cooperativas, camponeses e técnicos do Ministério da Agricultura. Decorre em regime de internato, num período de dez dias.
Para Pascoal de Castro, as técnicas ensinadas vão ajudar na redução das perdas dos produtos do campo.  O próximo ciclo de formação está para breve: “a próxima formação vai envolver agricultores dos municípios da Samba e do Kilamba Kiaxi”.

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