Dossier

As misteriosas pedras da Kabala

Alexa Sonhi | Negage

Situada no município do Negage, na província do Uíge, a aldeia de Kabala é famosa por possuir na sua mata de Kassady uma pedra muito especial, na qual estão inscritos vários dizeres e desenhos que ninguém consegue descodificar.

 

Vista da Pedra da Kabala com a placa de betão mandada colocar pelo então governador-geral da província de Angola Rebocho Vaz
Fotografia: Eunice Suzana | Uíge

Situada no município do Negage, na província do Uíge, a aldeia de Kabala é famosa por possuir na sua mata de Kassady uma pedra muito especial, na qual estão inscritos vários dizeres e desenhos que ninguém consegue descodificar. Além disso, para se chegar às Pedras da Kabala há regras que se cumprem há mais de meio século, tal como explicou à reportagem do Jornal de Angola o soba Dinis Carlota.
Em jeito de advertência, o soba explica que não é fácil um turista chegar ao lugar mais fascinante da aldeia, as Pedras da Kabala, sem cumprir primeiro todos os rituais, que consistem em espalhar no chão malavo, uma bebida tradicional extraída das palmeiras e bordão, cerveja, vinho e comida da terra.
Cumprida esta etapa, o soba, ou um membro do Conselho da Aldeia da Kabala com mais de 45 anos, deve proferir algumas palavras: “Aqui não é qualquer lugar. Aqui, primeiro, devemos pedir permissão à sereia e aos espíritos que protegem a Pedra. É tradição aqui e devemos todos cumprir, para ter êxito durante a visita e fazer fotografias”.
Sorridente e revelando mesmo alguma alegria com a nossa presença, depois de espalhar as bebidas e as comidas pelo chão, Dinis Carlota bebeu um gole do malavo, encostou a palma da mão direita ao peito, olhou para o céu e disse: “Os nossos visitantes vieram de coração aberto para conhecer as Pedras escritas da Kabala, por isso peço à sereia e aos espíritos para lhes tomar conta, enquanto estiverem aqui”.
Foi cumprindo estas regras que a equipa de reportagem do Jornal de Angola conseguiu chegar às tão especiais e extraordinárias pinturas rupestres das Pedras da Kabala. Para o nosso soba cicerone, “a complexa história relativamente à origem das pinturas no alto da pedra merece uma investigação minuciosa do Ministério da Cultura, para que seja possível passar a ter o título de património cultural e histórico e não apenas um local para os turistas conhecerem”.

Arquivo histórico

Uma agenda do soba, que data de 1968 e é cor de vinho, atesta que no mesmo ano, apesar de não saber o real significado das pinturas, mas entendendo a sua importância para a história e cultura do país, o então governador-geral da província de Angola, o português Rebocho Vaz, mandou, a partir de Luanda, fazer uma placa de betão para ser colocada por cima das Pedras da Kabala.
O objectivo foi o de proteger as pinturas rupestres da chuva, poeira, ventos fortes e demais fenómenos naturais, que punham em perigo a nitidez a olho nu das pinturas.
Foi a partir dessa altura, mais precisamente quando o próprio Rebocho Vaz efectuou a primeira visita ao local, a 17 de Julho de 1968, para constar in loco a dimensão da beleza das pinturas e o deslumbrante modelo arquitectónico das Pedras da mata de Kassady, que este local passou a ser considerado um ponto de interesse turístico. Desde então, são frequentes as visitas àquele local.

O ritual da circuncisão

Dinis Carlota conta que as pinturas rupestres das Pedras da Kabala foram, também, testemunhas da circuncisão de muitos jovens. “Ainda antes da chegada dos portugueses, tanto meninos como meninas eram circuncidados aqui e aquilo que era retirado com a circuncisão tinha de ser enterrado também aqui. No final de tudo, realizava-se uma grande festa, como sinal de masculinidade e feminilidade de todos aqueles que tinham sido circuncidados”, lembrou. />A realização deste ritual nas Pedras da Kabala, realçou o soba, era uma demonstração de respeito para com a sereia e os espíritos dos antepassados, que já usavam este lugar para resolverem os seus problemas. Era, também, uma indicação de que tanto os rapazes como as raparigas estavam aptos para constituírem as suas próprias famílias.
Hoje, bem longe dos rituais da circuncisão dos jovens, ainda se sente, logo à entrada, o harmonioso ar natural que não tem estação, e muito menos hora, para presentear os turistas com a sua brisa fresca mas acolhedora, deixando boquiabertos todos os turistas que por ali passam.   
O soba afirma que muitos deles já tentaram raspar as pinturas que estão grafadas nas Pedras, com o objectivo de verificarem a sua veracidade, mas, apesar disso, elas mantêm-se simplesmente intactas. “Os nossos antepassados já encontraram aqui estas pinturas e ninguém sabe como elas surgiram, nem o que elas realmente significam”, acrescentou a autoridade tradicional.
Do mais velho Dinis Carlota ficámos ainda a saber que o engenheiro português, que sob orientação do governador-geral da província de Angola colocou a placa sobre a Pedra da Kabala, acabou por morrer assim que a terminou.

Orientação para novas construções

Antes do final da visita que ali efectuou em 1968, Rebocho Vaz deu ordem ao então governador do distrito do Uíge para que mandasse asfaltar o caminho que liga o município do Negage às Pedras da Kabala, e que construísse, bem próximo das mesmas, casas de passagem para que os visitantes tivessem onde se hospedar. Ordenou ainda que ali chegasse água canalizada, fossem construídos centros de saúde e outros serviços básicos, para dignificar a região onde as Pedras se encontram, dada a importância das mesmas. 
No entanto, primeiro devido à luta pela independência nacional e depois ao conflito armado, tudo foi sendo adiado até aos dias de hoje. Ou seja, nada foi feito no sentido de valorizar o local.
“A mata Kassady está a ficar cada fez mais fechada. Não temos água canalizada, nem energia eléctrica e muito menos uma casa próxima para permitir aos turistas repousarem”, lamentou o soba Dinis Carlota.
Mesmo assim, as Pedras das Kabala recebem anualmente muitos turistas, tanto nacionais como estrangeiros. Sempre que sabem da chegada de um grupo de visitantes, são os próprios aldeões que se preocupam em podar árvores e alargar o caminho que atravessa a mata, para que possam passar sem temer os muitos bichos que ali vivem. Devido às circunstâncias históricas que Angola foi vivendo, a actividade turística esteve paralisada durante décadas, conservando um paraíso natural de pedras no meio da fauna e flora.  Uma extraordinária beleza natural. É por esse motivo, e reconhecendo o valor das pinturas rupestres das Pedras da Kabala, que o soba pede ao Executivo para prestar mais atenção a este local turístico.
Apesar do desconhecido significado daquilo que lá está escrito, as Pedras da Kabala,um sítio sem igual em qualquer outra província de Angola, deve merecer uma atenção especial e a avaliação profunda por parte do Ministério da Cultura. É que, além de lugar turístico, as suas características geológicas e as pinturas rupetres carregam consigo um valiosíssimo património histórico de toda a humanidade.

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