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Calai quer diminuir dependência do Rundu

Carlos Paulino | Calai

As assimetrias entre a sede municipal do Calai, em Angola, e a localidade do Rundu, na Namíbia, separadas pelo rio Kubango, diminuem cada vez mais, mercê do surgimento de novas infra-estruturas sociais que estão a dar nova imagem à parte angolana, que desde os primórdios da independência ficou privada dos investimentos do Estado devido à guerra.

Novas infra-estruturas sociais permitem a prestação de serviços em Calai que antes só eram conseguidos na vizinha Namíbia
Fotografia: Carlos Paulino | Calai

As assimetrias entre a sede municipal do Calai, em Angola, e a localidade do Rundu, na Namíbia, separadas pelo rio Kubango, diminuem cada vez mais, mercê do surgimento de novas infra-estruturas sociais que estão a dar nova imagem à parte angolana, que desde os primórdios da independência ficou privada dos investimentos do Estado devido à guerra.
 A equipa de reportagem do Jornal de Angola, que visitou a localidade, viu que o Executivo e o Governo Provincial, com a construção de escolas, postos de saúde, estabelecimentos comerciais, edifícios públicos e outros de iniciativa privada, estão a promover uma nova imagem da vila do Calai.
O administrador, Francisco Manjolo, disse à nossa reportagem que o município foi contemplado no primeiro trimestre de 2011 com 214 milhões de kwanzas, dos quais 111 milhões foram investidos na construção de duas escolas de quatro salas cada, dois postos médicos na comuna do Mavengue e Mawé, outro na sede do município e na aldeia do Sofe.
A administração comprou também uma viatura, que tem servido para apoiar campanhas de vacinação, transporte de medicamentos e inputes agrícolas para as comunas de Mawé e Mavengue.
 Actualmente estão em curso obras de construção de um centro médico e uma escola de 12 salas na sede do Calai e em cada uma das comunas (Mavengue e Mawé) o governo está a construir uma escola de duas salas e a reabilitar o edifício da administração e a residência do administrador comunal de Mavengue.

Projectos em carteira

 A administração tem igualmente em carteira, no presente exercício, a construção de mais quatro escolas, três postos médicos e a aquisição de duas ambulâncias, no âmbito da municipalização dos serviços de saúde, para a evacuação dos pacientes do interior para a sede municipal.
Francisco Manjolo mostrou-se optimista quanto ao desfecho dos programas em curso, que doravante vão proporcionar excelentes condições sociais e económicas à população do município do Calai e diminuir cada vez mais a avalanche populacional que diariamente é obrigada a saltar para o lado namibiano para ter acesso aos serviços de saúde e comerciais.

Número de habitantes

Disse que o município tem uma população estimada em cerca de 21 mil habitantes que, devido à escassez de serviços, principalmente nos sectores da saúde e venda de bens alimentares, todos os dias centenas de cidadãos fazem a travessia para o lado namibiano, situação que tem vindo a aumentar a fuga de capitais para o país vizinho.
O mesmo já não se verifica no domínio das telecomunicações, pois desde a instalação da telefonia móvel da Unitel, as pessoas deixaram de utilizar as operadoras namibianas (Cell one e a MTC) e já é visível a redução dos gastos nas comunicações.
A instalação de um balcão do Banco de Poupança e Crédito (BPC) veio igualmente encurtar as distâncias das pessoas que tinham que percorrer mais de 500 quilómetros até Menongue para poderem levantar os salários, situação que deixava durante dias as instituições públicas do município praticamente encerradas.

Obras paralisadas

As obras de construção do hospital municipal estão paralisadas há três anos. O administrador já comunicou a situação ao Gabinete provincial de Estudos, Planeamento e Estatística (GEPE) para levar o empreiteiro a tribunal, por já ter recebido a quase totalidade do custo da empreitada.
Também estão paralisadas as obras de construção do posto da Polícia de Guarda- Fronteira por igual período de tempo e o empreiteiro, questionado, alegou não existirem condições financeiras para prosseguir os trabalhos.
O administrador municipal disse que o hospital vai ter uma capacidade de internamento para 70 camas, com equipamentos de primeira linha e com serviços de cirurgia, ginecologia, laboratórios, farmácia, entre outros.
 Afirmou que a paralisação das obras está a criar grandes embaraços na assistência, que obriga nos casos mais graves a procurar serviços de saúde da Namíbia, onde se gasta muito dinheiro na assistência médica. As doenças mais frequentes e que continuam a provocar muitas mortes são as diarreicas e respiratórias agudas, malária e infecções de transmissão sexual, particularmente o VIH/Sida.

 Falta de água potável

Apesar da sede municipal do Calai situar-se junto às margens do rio Kubango, a população não tem água potável, pela ausência de investimentos no sector. A água para consumo precisa de ser fervida.
Nas comunas de Mavengue e Mawé, o cenário é igual e há relatos de ataques de jacarés e de hipopótamos em algumas aldeias quando as pessoas vão ao rio para as actividades domésticas.
 Para fazer face à situação, Francisco Manjolo direccionou a sua atenção no Programa Municipal Integrado de Desenvolvimento Rural e de Combate à Fome e à Pobreza, onde deve retirar uma verba para abertura, numa primeira fase, de cinco furos e permitir que a população tenha acesso à água potável.
“A água tirada directamente do rio é imprópria para consumo, porque o rio Kubango tem vários afluentes, passa por várias zonas habitadas e as pessoas ainda não fazem o uso correcto dos diferentes cursos de água e atiram para os rios uma diversidade de lixo que tem provocado poluição.”  Por essa razão, o governo local tem já um programa para construir sistemas de captação e distribuição de água potável para a sede municipal e as duas comunas, no quadro do programa “Água para todos”, mas enquanto as obras não começarem, a administração achou por bem avançar com o processo de abertura de furos para minorar as dificuldades.
 
Crédito de campanha agrícola
 
O município do Calai possui terras aráveis e pode tornar-se em pouco tempo auto-suficiente, mas a falta de incentivos ao sector agrícola faz com que os camponeses pratiquem uma agricultura apenas para o seu consumo e, como resultado, a região regista escassez de bens alimentares, razão pela qual a maior parte das pessoas faz recurso ao mercado namibiano para adquirir bens de primeira necessidade.
Francisco Manjolo disse que a administração municipal tem registado um pouco mais de mil camponeses associados em cooperativas e está a desenvolver esforços junto do Banco de Poupança e Crédito (BPC) para ter acesso ao crédito agrícola que esta instituição bancária tem vindo a atribuir nas diferentes regiões do país.
As negociações estão bem encaminhadas e aguarda-se a todo o instante por uma equipa técnica do Banco de Poupança e Crédito no Calai para avaliar os vários processos dos camponeses que solicitaram crédito.
 “Nos últimos tempos, as chuvas têm estado a cair com regularidade e ainda que se verifique algum período de estiagem, também não constitui preocupação, porque o município do Calai é banhado por vários rios e podemos partir para uma agricultura de rega para o cultivo de tomate, cebola, repolho, couve, cenoura, batata-doce e rena, mandioca, milho, alface, entre outros produtos”, disse o administrador

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