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Candonga da luz tem dias contados

Alexa Sonhi|

"O meu sofrimento diminuiu muito e acredito que o de muita gente também, depois que a EDEL começou a fazer a gestão dos postos de transformação privados (PT) que estavam sob tutela de alguns moradores do bairro".
"Antes, a energia que tínhamos era muito fraquinha, que só nos permitia ligar o televisor com ajuda de um estabilizador, porque a corrente estava sempre a oscilar. As arcas não arrancavam e tínhamos que comprar carne e peixe todos os dias por não conseguirmos conservar em casa".

Empresa distribuidora de electricidade está a levar os seus serviços a um número cada vez maior de habitantes de Luanda e arredores
Fotografia: Eduardo Pedro

"O meu sofrimento diminuiu muito e acredito que o de muita gente também, depois que a EDEL começou a fazer a gestão dos postos de transformação privados (PT) que estavam sob tutela de alguns moradores do bairro".
"Antes, a energia que tínhamos era muito fraquinha, que só nos permitia ligar o televisor com ajuda de um estabilizador, porque a corrente estava sempre a oscilar. As arcas não arrancavam e tínhamos que comprar carne e peixe todos os dias por não conseguirmos conservar em casa".
Evarista António, que contou a sua história à nossa reportagem, é uma das primeiras moradoras do bairro "Fubú", proximidades de Talatona, a beneficiar com isso. Ela disse que chegou a pagar mais de 1.500 dólares só para fazer o contrato de energia com o proprietário do posto de transformação.
"Porque o dinheiro para compra dos materiais e o pagamento dos homens que fazem as ligações dos fios do PT até às residências dos consumidores deve ser à parte, muitos de nós, dependendo da distância, tivemos que gastar dois mil dólares ou mais para termos energia eléctrica em casa, mas em péssimas condições". 
Vitória Vilhena, moradora do bairro Nova Urbanização, município do Cacuaco, disse que para beneficiar da energia do PT privado pagou 1.300 dólares.
No bairro Nova Urbanização, a realidade é diferente da do bairro Fubú, porque ali, a quem vive próximo do PT privado, a energia permite ligar todos os electrodomésticos sem ajuda de estabilizador e não oscila.
Quanto àqueles que vivem distante, a história é diferente porque quanto maior a distância, menor a qualidade da corrente eléctrica. A ajuda de estabilizador para os electrodomésticos é sempre necessária.
Evarista e Vitória, apesar de viverem em bairros diferentes, pagam a mesma mensalidade, 50 dólares, seja ou não a energia de boa qualidade.
Para as duas senhoras, a privatização dos postes de transformação em bairros novos até certo ponto ajuda muito a população a sair da escuridão nocturna e a diminuir o índice de delinquência. A qualidade da energia e o preço do contrato não agradam a ninguém e por isso as moradoras apelam à EDEL a eliminar o sistema de privatização dos PT com fins comerciais, melhorando assim a qualidade e o fornecimento de energia eléctrica às populações.

Impostas regras

A EDEL impõe uma condição a quem pretenda ser detentor de um posto de transformação privado, ou seja, a potência instalada do PT tem de ser superior à que a EDEL por norma fornece a partir de um posto de transformação público.
A potência deve ser superior a 49 KVA, caso contrário acarreta consequências negativas aos demais clientes.
O chefe do gabinete de Comunicação e Imagem da EDEL, Carlos Gil, disse à nossa reportagem que o facto de a EDEL licenciar ou autorizar pessoas colectivas ou singulares a terem o seu próprio PT para consumo, não lhes permite comercializar energia em baixa tensão para as populações.
"Quem assim proceder está a fazê-lo de forma ilegal", disse.
Carlos Gil afirmou que toda essa situação tem a sua história, porque durante muitos anos a EDEL teve dificuldades em expandir a rede nas zonas periféricas e os populares, aproveitando-se de várias instalações eléctricas, de fábricas e outros, acabaram por causar a proliferação da comercialização da energia eléctrica.
"Temos de reconhecer que embora a comercialização de energia por parte dos PT privados seja ilegal, serviu e ainda serve para resolver os problemas de energia eléctrica ali onde a EDEL ainda não conseguiu chegar."
O porta-voz da EDEL prosseguiu dizendo que é preciso fazer um aproveitamento racional destes sistemas já montados, porque é pouco inteligente a EDEL não aproveitar bem estas estruturas para daí melhorar as condições e dar continuidade ao serviço de fornecimento de energia às populações, que antes já usufruíam dela de forma ilegal.
"Estamos a envidar esforços para instalarmos estruturas eléctricas de base nas áreas periféricas onde a comercialização de energia por parte dos PT privados se faz sentir muito, porque nós, EDEL, somos a única entidade distribuidora em Luanda autorizada para o efeito."
Carlos Gil afirmou que, "embora o sector energético seja muito caro, principalmente naqueles bairros onde as casas foram construídas de forma anárquica, vamos continuar a trabalhar para que a comercialização ilegal de energia termine".

PT privados

Carlos Gil disse que a sua instituição tem sob controlo 1.460 postes de transformação privados. A EDEL tem como objectivo melhorar o fornecimento de energia eléctrica e assim está a levar a cabo um processo de transferência e negociação das redes de 15 e 30 KVA da rede de média tensão da ENE e automaticamente dos PT privados que violam as regras para a gestão da EDEL.
"Antes de transferirmos as redes da Empresa Nacional de Electricidade para a EDEL nós tínhamos 920 PT privados. Desde que começou a transferência das redes de média tensão da ENE para a gestão da EDEL, 540 PT privados foram já agregados à EDEL como clientes e alguns destes são os que comercializam energia de forma ilegal."
Carlos Gil salientou que a sua instituição vai transferir fundamentalmente os PT que são usados para comercialização de energia. "O PT privado pode existir desde que haja razões para tal, como por exemplo, se uma pessoa colectiva ou singular necessitar de mais de 49KVA de energia.
"Se a energia para uma indústria for fornecida a partir de uma instalação pública, a população fica prejudicada. Por isso, a EDEL autoriza uma ligação à parte a uma rede de média tensão na vertente privada, mas não para fins comerciais porque é ilegal vender energia em baixa tensão às populações."
O porta-voz da EDEL admitiu que 98 por cento desses PT privados normalmente necessitam de uma intervenção profunda da EDEL para tirar do perigo as populações e tornar possível a distribuição de energia aos clientes com regularidade e qualidade.

Processo de negociação

Carlos Gil disse que o processo de negociação com os donos dos PT privados nem sempre é fácil, principalmente quando o anterior gestor tem dívidas altas para com a ENE. "Mas nós não arrancamos os PT privados aos donos."
"Antes formamos uma comissão técnica para negociar com eles e caso não seja possível a negociação, a EDEL acaba mesmo por montar um novo PT para absorver todos os clientes e monopolizar a actividade do PT privado, porque o motivo que o levou a negociar com a EDEL para ter um PT privado já não está a ser cumprido." "Se a sua indústria fechou ou a residência já não usa tanta energia, deve informar a EDEL para alterar o sistema de fornecimento ou passar mesmo o PT para a nossa gestão em vez de vender energia de forma ilegal."
O porta-voz da EDEL, para evitar litígios, fez um apelo aos proprietários de PT privados que fazem de forma ilegal a comercialização de energia, a tomarem a iniciativa de escrever à Empresa Distribuidora de Electricidade e manifestar o interesse em negociar as instalações, que são ou vão ser ressarcidas de acordo com os valores apurados pelos técnicos da EDEL.
Carlos GIL disse que o proprietário do PT privado que comercializa energia de forma ilegal acaba mesmo por pagar à EDEL os preços que estão em conformidade com a factura de média tensão que lhe foi fornecida desde o início, que não tem nada a ver com os clientes de baixa tensão a quem ele fornece energia.
Por isso, a transferência destes serviços para a gestão da EDEL é fundamental, para que toda a população da província de Luanda possa receber em suas casas energia eléctrica de forma regular e com a qualidade que todos desejam.

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