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Capungu combate a fome e a pobreza

Silvino Fortunato| Capungu

O programa do Executivo de Combate à Fome e à Pobreza está a atrair muitos camponeses e agricultores da região de Capungu, na comuna de Massangano, município de Cambambe, demonstrado pelo aumento da produção agrícola.
Uma equipa de reportagem do Jornal de Angola deslocou-se a Capungu, arredores da cidade do Dondo, e constatou a entrega das populações locais ao aumento da extensão de terras e à aplicação de recursos próprios para o relançamento agrícola na região.

Os produtos cultivados na região de Capungu são vendidos nos mercados das aldeias de Cassoalala e na cidade do Dondo
Fotografia: Silvino Fortunato| Capungu

O programa do Executivo de Combate à Fome e à Pobreza está a atrair muitos camponeses e agricultores da região de Capungu, na comuna de Massangano, município de Cambambe, demonstrado pelo aumento da produção agrícola.
Uma equipa de reportagem do Jornal de Angola deslocou-se a Capungu, arredores da cidade do Dondo, e constatou a entrega das populações locais ao aumento da extensão de terras e à aplicação de recursos próprios para o relançamento agrícola na região. Capungu fica a dez quilómetros do desvio da aldeia do 34, na estrada nacional 230. Moisés Francisco dedica-se à agricultura faz 19 anos, assinalados no passado dia 3 deste mês. A sua fazenda, denominada "São João", existe desde 1957 e foi herdada do pai. Conta que no período entre 1992 e 2004, a fazenda São João produzia perto de 30 toneladas de citrinos, como limão, laranja e tangerina.
Em 2007, a fazenda começa o cultivo da banana, o que fez aumentar os resultados anuais para mais de sete toneladas. "As quantidades tendem a aumentar", estimou, acrescentando que a fazenda tem produzido o suficiente e à altura dos investimentos feitos.
Apesar dos resultados, Moisés Francisco ainda quer fazer mais para atender aos propósitos que assumiu perante a sociedade, que é de produzir cada vez mais e, com isso, contribuir para a redução das importações de produtos do campo.
Moisés Francisco sublinhou que, incentivado pelo actual Programa do Executivo de Combate à Fome e à Pobreza, a fazenda está agora a preparar 2.500 hectares para a plantação, no próximo ano, de sete mil bananeiras.
Prevêem também abrir um novo campo de experimentação para o cultivo, em grande escala, de feijão, batata-doce e cebola. "Estamos a fazer estudos para determinar quais são as sementes adaptáveis aos novos solos", disse, acrescentando que os estudos abrangem também o combate às lagartas, que são potenciais destruidores do feijão.
Estima que a lavoura nos novos espaços vai conduzir a uma produção de pelo menos cinco toneladas de feijão e oito ou mais de batata-doce.

Criação de animais

A fazenda São João, segundo o seu responsável, também está apostada na criação de gado caprino. Moisés Francisco indicou possuir 50 cabeças destes animais, numa actividade que arrancou há dois anos. Referiu estar a enfrentar alguns desafios para travar as investidas dos animais e aves predadoras existentes na região. Por essa razão, interrompeu um programa que tinha de criação de aves. "Muito recentemente fomos invadidos por jibóias e outros animais que exterminaram todas as galinhas que tínhamos em capoeira."
Um outro agente agrário, João de Carvalho Mutango, considera encorajadora a produção e o engajamento dos agricultores de Capungu.
Disse que a sua fazenda produziu este ano 500 toneladas de banana, 20 de laranja e outras quantidades, em média escala, de tomate e cebola. Tem ainda por colher 15 toneladas de laranja.
Disse que os níveis de produção atingidos o deixam satisfeito, atendendo aos escassos recursos técnicos e financeiros de que dispõe. "Penso ultrapassar essa meta no próximo ano."
Deu a conhecer que cobra 500 kwanzas por cada cem laranjas pequenas e mil kwanzas pelo mesmo número de laranjas grandes, nos dias em que há muita procura.
Nos momentos em que há fartura, como agora, João Mutango realçou que a centena das laranjas grandes, aquelas em que quatro laranjas pesam um quilo, baixa a 500 kwanzas e a dos outros tamanhos a 250 kwanzas.
Referiu que tem dependido apenas das chuvas para a rega e se obtivesse financiamento bancário fazia muito mais ainda e assim contribuía melhor no aumento do abastecimento dos mercados com produtos agrícolas.
Conta que há três anos recebeu um empréstimo bancário de 100 mil kwanzas de um programa do Executivo, que não foi suficiente para atender às necessidades dos oito hectares que tem cultivados e dos seus sete trabalhadores. Diz que paga mensalmente a cada trabalhador dez mil kwanzas. O secretário-geral da União Nacional dos Camponeses de Angola (UNACA) no município de Cambambe, Manuel António, disse que a sua organização está a sensibilizar os camponeses para o aumento da produção, no âmbito do Programa do Executivo de Combate à Fome e à Pobreza. A associação tem registados na região 2.040 agentes agrários, sendo 997 mulheres, integrados em 48 associações e 18 cooperativas. 
"Testemunhámos uma produção muito elevada", disse, exemplificando que há dias visitou a associação "Sacrifício" onde encontrou muito tomate, cebola, repolho e couve.

Escoamento da produção

Os produtos cultivados na região de Capungu são vendidos nos mercados das aldeias de Cassoalala, quilómetro 34 e nas cidades de Luanda e Dondo.
Para Moisés Francisco, o grande problema na comercialização dos produtos tem sido na época chuvosa, uma fase dedicada à colheita do limão. "A laranja não tem conhecido este problema, porque é colhida na época seca. As quitandeiras do 34 e Cassoalala têm vindo com os meios próprios à fazenda. Temos também alugado carrinhas para a comercialização do produto na cidade do Dondo e em Luanda. Também levamos os nossos produtos para Cassoalala e 34", referiu.
Refere que a via terciária de acesso à sua fazenda está há mais de 35 anos sem reabilitação. A circulação automóvel em cerca de dez quilómetros, contados desde o desvio da estrada nacional 230, na aldeia do 34, demora mais de 30 minutos.
"No período chuvoso só os tractores e camiões de grande porte podem circular nesta via. O tractor não pode tirar grandes quantidades de produto e comercializá-los directamente em Luanda. Há o transtorno de carregar na fazenda, fazer a descarga no 34 e buscar outros meios para a transportação da carga para mercados das grandes cidades."
O agricultor diz que o período chuvoso é o mais complicado. Na época seca e por causa das inúmeras valas, regista-se muita quebra de molas das poucas viaturas que se "atrevem" a circular naquela via.
O responsável da UNACA confirma que "as vias estão muito estragadas e os camponeses não conseguem levar todos os seus produtos aos centros de consumo. É preciso que essas estradas terciárias sejam arranjadas, para a evacuação desses produtos."
João Mutango estima que com as vias em boas condições, muita coisa no campo podia melhorar. Referiu que os poucos compradores que aparecem na fazenda exigem preços baixos, por causa das dificuldades da estrada. "Juntando os custos da produção e o pagamento dos salários dos trabalhadores, a produção vai quase toda de graça e não compensa."

Crédito agrícola

Os agricultores aguardam com ansiedade pelo início no município de Cambambe da atribuição pelos bancos comerciais do crédito agrícola de campanha. "O crédito agrícola de campanha para nós, os agricultores de Capungu, ainda não é um facto. Muitos de nós já cumpriram os requisitos necessários, mas continuamos à espera da concretização deste processo", referiu Moisés Francisco.
Informou que, se for contemplado, desejava receber pulverizadores, atomizadores e motosserras.
O agricultor pretende também que as autoridades apostem no crédito de investimento, tendo em conta a dimensão da sua fazenda e dos programas que tem em carteira. Declarou estarem a trabalhar no sentido de angariar algum financiamento para tal.
A fazenda tem 12 trabalhadores, três dos quais ligados à venda dos produtos, processamento de salários e angariação de clientes. Os demais estão na lavoura.
João Mutango lamenta receber pouca água para a rega. Precisa de adquirir uma moto-bomba e tubagem suficiente para captar água no rio Lucala, que fica a 800 metros da fazenda.
Diz que o preço da motobomba está muito elevado. Para o transporte da água é necessária uma motobomba muito potente, que actualmente custa mais de quatro mil dólares americanos, além da tubagem.
Só com os rendimentos da venda dos produtos da fazenda, disse não ser possível adquirir tais meios.
O secretário da UNACA, Manuel António, garante acompanhar o processo preparatório que vai permitir a atribuição do crédito agrícola de campanha aos camponeses, junto dos bancos.
Indicou que as tarefas do processamento dos créditos para os agricultores locais estão bem encaminhadas. "O banco já deu luz verde. Estamos à espera apenas da disponibilização dos valores."
Já foram seleccionados dois grupos de camponeses para a atribuição do crédito de campanha. Grande parte dos agricultores inscritos e seleccionados propôs receber motobombas, tubagem e motosserras.
Manuel António disse que cada requerente vai receber instrumentos correspondentes a 500 mil dólares.

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