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Centenas de casas dão nova imagem a Caxicane

Cristina da Silva |Caxicane

Caxicane é a aldeia que viu nascer, no dia 17 de Setembro de 1922, António Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola e Herói Nacional.  

A aldeia tem novas casas sociais que fazem parte de um projecto do Programa do Executivo de combate à pobreza no meio rural
Fotografia: João Gomes

Caxicane é a aldeia que viu nascer, no dia 17 de Setembro de 1922, António Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola e Herói Nacional. Zona de agricultores humildes, Caxicane viveu sempre sob a ameaça das inundações do rio Kwanza, que destruíam casas e tudo o que encontravam pelo caminho e obrigavam a população a procurar refúgio nas terras altas da Quissama.  Hoje nasceu uma nova Caxicane, com centenas de casas sociais, para alojar as populações ribeirinhas.
 A aldeia tem 300 novas casas sociais, que fazem parte de um projecto de 600, construídas no âmbito do Programa de Combate à Pobreza, coordenado pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural.
As novas habitações servem as populações das aldeias de Caxicane, Passos Diogo, Ginganga, Luís Miguel, Kubaza, Banza Bombo, Kindemba e Uango.
De Catete a Caxicane, andámos nove quilómetros em estrada asfaltada. Durante o percurso passámos pela aldeia de Sonda, uma comunidade que pertence à zona onde nasceu Agostinho Neto. À entrada, uma placa mostra a “Nova Caxicane”. No interior do bairro, encontrámos o soba de Caxicane, Andrade João Mendes, e os beneficiários das novas casas a fazerem limpeza dentro e à volta das casas. 
A água para consumo não é tratada. É retirada directamente do rio Kwanza. A rede de distribuição de energia não existe. O coordenador de Caxicane disse que todo esse mar de problemas tem sido desgastante para os seus habitantes.
A agricultura que se fazia em grande escala, hoje reduziu drasticamente. “Caxicane produzia quase tudo, mas devido às cheias não temos conseguido colher o que produzimos”, lamentou o coordenador.
 

O memorial


Em Caxicane há dois bustos de António Agostinho Neto. Um em frente à Igreja Metodista, com uma placa a referenciar o sítio como histórico e cultural e outro no local da casa onde nasceu e cresceu Agostinho Neto, com informações referentes à sua vida e obra.
A igreja Metodista de Caxicane foi a primeira escola de Agostinho Neto e onde seu pai, Agostinho Pedro Neto, foi pastor durante anos.
De paredes brancas e janelas e portas azuis, o espaço, em homenagem ao reverendo Agostinho Pedro Neto, continua a realizar cultos aos domingos. A conservação da igreja, de acordo com Cândido João Gomes, só foi possível com o apoio dos habitantes da região. “Se não nos tivéssemos juntado e reabilitado a igreja, não sei o que ia ser da alma deste povo de Caxicane”, disse, acrescentando que por três vezes a igreja beneficiou de obras, sob responsabilidade dos seus habitantes.
A casa onde nasceu Manguxi, como é tratado pelos seus coetâneos, desapareceu com as cheias do rio Kwanza.
 Eva Diogo, 72 anos, disse que a casa do primeiro Presidente da República ficava em frente à Igreja e próxima do rio, mas já há muito que desabou: “no local onde estava a casa da família de Agostinho Neto já nada existe, só água”, explicou. Próximo do local, o MPLA, para imortalizar o fundador da Nação, colocou um busto de Agostinho Neto. 
 

Os poderes mágicos

/>Andrade João Mendes, 76 anos, aplaude a presença de jornalistas em Caxicane. De cabelo branco, corpo franzino e trajado com a indumentária das autoridades tradicionais, contou à nossa reportagem: “eu ando sempre atrás da chuva e nunca à frente, graças a esta bengala”, disse sorrindo, mostrando o seu bastão que também o ajuda a andar.
Mas os poderes da sua “bengala mágica” não conseguiram parar as cheias do rio Kwanza. Sobre o assunto, Velho Andrade preferiu não se pronunciar, alegando que “isto é conversa dos mais velhos”. 
O soba Andrade tem uma gindamba, instrumento utilizado para chamar a chuva para as lavras, curar enfermidades e pedir paz para a aldeia de Caxicane. Disse ter também o makulu, uma pequena capela onde são feitos os pedidos.
 

Povo de Neto
 

António Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, nasceu no dia 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Caxicane, região de Icolo e Bengo. Passaram-se 89 anos desde o seu nascimento e 32 desde a sua morte no dia 10 de Setembro de 1979. Apesar do tempo, Neto continua bem vivo na memória do povo de Caxicane e de todos os angolanos. Aos que o conheceram e viveram a sua presença em Caxicane, o sentimento é de “um grande orgulho”.
Avó Eva lembra Agostinho Neto ainda na igreja: “ele era um jovem exemplar e um bom amigo”. Quando voltou, já como líder dos angolanos, Neto incentivava os jovens e adultos a estudar e a cultivarem a terra para não faltar comida na aldeia. Tal como hoje, avó Eva sempre trabalhou no campo. Na altura, conta, o algodão era um dos maiores rendimentos dos agricultores da região de Icolo e Bengo, mas hoje já não existem os campos brancos de algodão. “Parece que tudo parou em Caxicane depois da morte de Neto”, disse.
“Antigamente os camponeses conseguiam dinheiro com o cultivo do algodão mas hoje só trabalhamos  para comer”, disse.
O soba de Caxicane fica muito orgulhoso sempre que se fala de Agostinho Neto “porque além de ser o nosso líder e o pai da Independência Nacional era um homem muito inteligente e culto”. Lembrou que o seu avô foi colega de Neto e contou-lhe muitasa histórias sobre a sua infância: “pelo meu avô eu soube que na escola de Caxicane ele era um estudante exemplar”.
Velho Andrade recorda que “antigamente eram poucos os que estudavam até à quarta classe. Mas Neto deixou o povo de Icolo e Bengo de orgulho por ter feito a quarta classe e chegado a médico”. O soba foi investido como autoridade tradicional pelo próprio Presidente Neto.
Jorge Manuel da Silva nasceu na Quissama e conheceu Agostinho Neto em Caxicane. Há mais de 50 anos no bairro da Sonda, o velho Jorge, hoje com 71 anos, disse que viu Neto de perto durante um comício popular, em 1975: “era muito difícil ver Neto nos comícios, o povo era tanto que ele desaparecia no meio das multidões, só conseguíamos ouvir a sua voz”, contou.
Velho Jorge diz que o que mais o marcou foi a forma extraordinária como o Presidente Neto lidava com o povo: “sempre gostou de trabalho e tinha muito amor ao próximo. Era isso o que ele mais ensinava aos angolanos”, disse a concluir.

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