Dossier

Clonagem de cartões multicaixa preocupa Polícia

André da Costa|

No espaço de um ano, o Departamento de Delitos Económicos e Fiscais da Direcção Nacional de Instrução e Investigação das Actividades Económicas registou 15 casos de clonagem de cartões da rede multicaixa e de crédito. As investigações permitiram a detenção de oito presumíveis culpados, cujos prejuízos financeiros estão avaliados em cerca de vinte milhões de kwanzas. 

O Departamento de Delitos Económicos e Fiscais registou vários casos de clonagem de cartões da rede multicaixa e de crédito
Fotografia: Mota Ambrósio

No espaço de um ano, o Departamento de Delitos Económicos e Fiscais da Direcção Nacional de Instrução e Investigação das Actividades Económicas registou 15 casos de clonagem de cartões da rede multicaixa e de crédito. As investigações permitiram a detenção de oito presumíveis culpados, cujos prejuízos financeiros estão avaliados em cerca de vinte milhões de kwanzas. 
Neusa João tinha na sua conta bancária o equivalente em kwanzas a 15 mil dólares norte-americanos, resultante de um negócio de roupa. Como necessitava de dinheiro para gastos correntes foi a uma dependência bancária para levantar 40 mil kwanzas e ficou surpreendida com o saldo. Era negativo. Procurou explicações junto do responsável da dependência e a explicação não a convenceu.
A cliente estava longe de desconfiar que o seu cartão da rede multicaixa estava a ser usado por outra pessoa. Neusa João garantiu no balcão do banco que não tinha feito qualquer levantamento que colocasse o seu saldo no "vermelho", situação que a levou a enervar-se com os funcionários, que não acreditavam na sua palavra, pensando que queria enganá-los. Neusa João foi então chamada para uma conversa com a gerência do banco.
No encontro, o gerente mostrou imagens de vídeo vigilância e convidou Neusa João e a mãe, Joaquina de Fátima, a identificarem as pessoas que levantavam o dinheiro. A questão foi resolvida quando a mãe identificou o filho de 21 anos, desempregado, a levantar dinheiro do multicaixa.
O jovem, na presença da mãe e da irmã, tentou negar, mas quando lhe foi colocada a possibilidade de ser confrontado com uma câmara de vídeo, acabou por confessar o crime e dizer toda a verdade. Neusa João conta que o irmão descobriu o código do cartão na sua agenda telefónica.

Norte-americano burlado

Um norte-americano, residente nos EUA, viu o seu cartão de crédito clonado e usado em Angola por um cidadão nacional que fez aquisições de bens num determinado estabelecimento comercial. O processo consistiu em aquisições simuladas com o propósito de resgatar dinheiro do titular do cartão.
O banco correspondente fez o lançamento das operações na conta do cliente. O titular da conta reclamou no banco, explicando que a operação foi feita em Angola. Apresentada queixa à Polícia Económica, este órgão, depois de investigações, deteve quatro indivíduos, incluindo o dono do estabelecimento comercial como presumíveis autores deste crime, cuja pena vai de oito a 12 anos de prisão, segundo o Código Penal vigente em Angola. O Jornal de Angola soube que outros detalhes da operação encontram-se ainda em investigação.
O chefe do Departamento de Delitos Financeiros e Fiscais da Direcção Nacional de Inspecção e Instrução das Actividades Económicas (DNIIAE), superintendente-chefe Tomás Agostinho, afirmou que os quatro detidos realizaram três operações na ordem de quatro milhões de kwanzas.
Há já algum tempo que a D­NI­IEA tem recebido reclamações de clientes portadores de cartão de débito ou multicaixa, que depois de consultarem as suas contas verificaram movimentos estranhos.
Entre as operações não realizadas pelos titulares dos cartões multicaixa ou de débito, constavam pagamentos em determinados estabelecimentos comerciais aonde nunca se tinham dirigido e levantamento de valores monetário. Os titulares das contas, insatisfeitos, contactaram os bancos comerciais para resolver a questão.
Antes de chegar ao conhecimento da Polícia, pensava-se que os titulares, supostamente por distracção, deixavam alguma pessoa próxima subtrair-lhes o cartão e depois de usado voltavam a colocar no lugar onde o tinham subtraído.
Com recurso a imagens das câmaras de vigilância, algumas situações foram resolvidas, quando se detectaram familiares próximos a usarem os cartões da rede multicaixa.
Outras imagens revelaram que pessoas estranhas ou fora do núcleo familiar apareciam nos ecrãs a levantar dinheiro. O oficial superior da Policia afirmou que, em determinados momentos, a investigação detectou pessoas a usarem o cartão em outros locais, em Angola e fora do país.
"Se os bancos antes tinham a ideia de que pessoas próximas é que subtraíam os cartões, a corporação começou a ter sinais do uso do cartão em locais distintos quase em simultâneo, por isso foi fácil concluir que havia um segundo cartão multicaixa, o clonado", frisou.

Detenções em Luanda e Huíla

As investigações da Polícia Económica culminaram com a detenção, recentemente, de quatro indivíduos por clonagem de dois cartões da rede multicaixa. Um dos cartões pertence a um cliente do Banco Africano de Investimentos (BAI) e outro do Banco BIC.
A clonagem é um processo que consiste em copiar os dados da banda magnética do cartão. Com base nesses dados e fazendo recurso a um dispositivo informático de pequena dimensão, é possível produzir um segundo cartão. A obtenção do código (PIN) permite o uso de um cartão por outra pessoa, pelo que o titular deve ter cuidado quando efectua uma operação comercial.
Os quatro detidos usaram o cartão clonado numa discoteca de Luanda, como forma de pagamento das despesas efectuadas em comes e bebes.
A Polícia Económica apela, por isso, a um maior cuidado com a utilização dos cartões da rede multicaixa, devido aos prejuízos financeiros que poderão resultar da clonagem.
No último semestre de 2010 e no primeiro semestre do presente ano, a Polícia Económica recebeu 15 reclamações de operações fraudulentas realizadas com cartões de débito e da rede multicaixa.
A maioria desses casos está relacionada com a clonagem de cartões multicaixa. Os prejuízos financeiros, segundo Tomás Faria, estão orçados em cerca de 20 milhões de kwanzas.
O oficial da Polícia Económica deu o exemplo de um burlão que fez compras equivalentes a 20 mil dólares com um cartão clonado. Outro fez aquisições no valor de 11 milhões de kwanzas com um cartão clonado, entre levantamentos de dinheiro e pagamentos de compras.
O cartão clonado permite ao marginal conhecer todos os movimentos bancários feitos pelo titular do cartão verdadeiro.  
As investigações da Polícia Económica permitiram a detenção de oito falsificadores de cartões da rede multicaixa e de crédito nas províncias de Luanda e Huila. De acordo com o artigo 215º do Código Penal, este crime pode levar a uma pena de prisão de oito a 12 anos de prisão.  
A Polícia Económica aconselha os portadores de cartões a utilizarem as caixas da rede situadas em locais vigiados, principalmente no interior de agências bancárias, porque nesses sítios os meliantes dificilmente conseguem instalar dispositivos que permitem a clonagem.
No mundo existem verdadeiras organizaçõesinternacionais que vendem cartões de crédito clonados e, em alguns casos, até cartões de créditos completamente falsificados e vendidos em lotes até com design sob medida, mas que podem funcionar e passar os controlos. Aconselha-se, por isso, atenção redobrada com cartões de design desconhecido.
É oportuno, por fim, dizer que os cartões de débito, ou cartões bancários, também podem ser clonados, com modalidade às vezes parecidas às usadas pelos cartões de crédito, mesmo se, neste caso, além de clonar o cartão é indispensável conseguir roubar a senha. Esta modalidade encontra-se em franco e rápido crescimento no Brasil.

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