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Comércio fechado na Baixa de Luanda

Cristina da Silva

Aos domingos, a Baixa de Luanda tem praticamente todos os estabelecimentos comerciais encerrados. Comer uma refeição é quase impossível. Fazer compras muito menos. A grande capital de Angola está a precisar de espaços comerciais. Os luandenses por enquanto ficam pelo “negócio fechado”. Por isso é urgente revitalizar o Centro Histórico.

Aos domingos a Baixa de Luanda tem praticamente todos os estabelecimentos comerciais encerrados e os poucos restaurante abertos registam grandes enchentes
Fotografia: Dombele Bernardo

Aos domingos, a Baixa de Luanda tem praticamente todos os estabelecimentos comerciais encerrados. Comer uma refeição é quase impossível. Fazer compras muito menos. A grande capital de Angola está a precisar de espaços comerciais. Os luandenses por enquanto ficam pelo “negócio fechado”.
A Baixa de Luanda quase encerra os seus negócios aos domingos. Restaurantes, boutiques, lojas de brindes, casas de câmbios, quiosques e livrarias ficam fechados. Os luandenses lamentam o facto e dizem que os empresários são os que mais perdem, porque quem quiser “fechar” um bom negócio recorre ao mercado informal.
Jorge Sousa, gestor de hotelaria, pegou na família e foi passear para a Baixa de Luanda, com o intuito de almoçar e fazer algumas compras. Mas encontrou tudo encerrado. Os poucos restaurantes abertos não tinham um só lugar vago e havia dezenas de clientes na lista de espera.
“A nossa cidade é linda, mas na Baixa de Luanda não há movimento aos domingos, ao contrário de outros países, onde os centros históricos das cidades têm uma grande dinâmica, sobretudo em ofertas culturais e de lazer”, referiu Jorge Sousa.
O gestor de hotelaria considera que é urgente revitalizar a Baixa. “É uma questão de hábito. Quando houver lojas, jardins, restaurantes, esplanadas, cinemas, teatros na Baixa de Luanda. As pessoas acabam por frequentar esta parte da cidade”, disse.
Laura Cristina trabalha numa das livrarias mais antigas do país. Conhece outros países e os hábitos e movimentos que Luanda regista aos domingos não têm comparação possível. Conta que a sua livraria já chegou a abrir aos sábados, mas por falta de clientes, hoje nem aos sábados funciona: “trabalhamos de segunda a sexta-feira e por falta de clientes somos forçados a fechar aos sábados e aos domingos”, disse
 “Em Luanda é impossível ao domingo fazer um programa que inclua compras. Não é só aos domingos. Mesmo a partir de sexta-feira quase já não se sente movimento aqui na Baixa de Luanda”, afirmou Laura Cristina.
Josefa Manuel gosta de “curtir” com os filhos na Baixa de Luanda. Encontramo-la a ver uma montra de roupa para crianças. Como a loja estava encerrada ficou pelo olhar, embora tivesse vontade de comprar roupa para a filha que levava ao colo. Para ela, Luanda fica com vida aos sábados e domingos nas zonas suburbanas, como Sambizanga, Rangel e Cazenga, onde se regista um movimento frenético. “Aos domingos encontramos nos Congolenses o ambiente da semana ou até melhor. Jovens a jogarem futebol ou basquetebol em campos improvisados. Salões de beleza e botequins improvisados a atenderem as clientes. É lindo ver a alegria estampada no rosto das pessoas que frequentam essas zonas”, referiu.
Laura Cristina reconheceu que os empresários fecham as casas comerciais aos domingos porque não dá lucro. “Cada qual com a sua visão comercial. É bem verdade que muitos de nós aqui não temos o hábito de almoçar aos domingos com a família num restaurante e ir ­comprar uma peça de roupa ou calçado. Mas fora do país fazemos isso”, precisou.


Zungueiras sem descanso

Se para os grandes comerciantes o domingo não é dia de vendas, para as zungueiras a realidade é diferente. Eugénia Francisco é zungueira. Ela vende todos os dias da semana excepto aos sábados, mas tem o domingo como melhor dia de vendas. Encontramo-la em frente à igreja dos Remédios a vender objectos sagrados. A jovem de 28 anos disse à nossa reportagem que é neste dia que mais factura: “eu só vendo objectos sagrados e é no domingo que maior número de pessoas aqui se desloca. Então aproveito esta enchente para despachar o meu negócio que nem sempre consigo vender nos dias normais”, explica.
Eugénia conta que desde que optou pela venda de objectos sagrados, apenas descansa aos sábados. “É normalmente aos sábados que descanso. Aproveito para lavar a roupa das crianças e tratar da minha casa, até porque os meus filhos ainda são menores”, disse.
No mesmo local, encontramos a venda de picolé, doces, ovos cozidos, fruta e chinelas. Linda Pedro é vendedora de fruta. Apesar de reconhecer o domingo como dia da família, disse que esta formalidade é posta de parte, porque precisa de manter a casa: “eu sou pai e mãe ao mesmo tempo. E se descanso aos domingos perco a oportunidade de vender os meus produtos”, disse.
Quem não tem nenhum dia para descanso é Janeth Lino.
A jovem de 16 anos, zunga todos os dias e com o bebé de quatro meses ao colo.
Vende ovos cozido e disse que optou por este negócio devido aos poucos recursos que tinha e para garantir a sua independência: “como tenho um filho, a minha família disse que tenho que vender para o sustentar”, conta a jovem.
Nos dias normais da semana, Janeth circula com três cartões de ovos cozidos. Mas nem sempre consegue vender todos. Mas aos domingos, ela zunga com quatro cartões e até às 15 horas consegue despachar tudo. “Ao domingo há as pessoas que saem da igreja e os miúdos que vão à praia. Todos me compram ovos”, conta.

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