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Crianças alegres com a palhaçada

Cristina da Silva |

Nas mãos transporta uma mala de médica. De lá de dentro, para grande alegria dos mais pequenos, em vez de seringas, estetoscópios, espátula para ver a garganta, ou qualquer outro utensílio médico, vão saindo um chocalho, um leque, um apito e balões.

Na sala de reanimação houve quem depois de muitos dias internado conseguisse praticar as técnicas da palhaça Reut Tsoref
Fotografia: Elad Strohmayer

Nas mãos transporta uma mala de médica que diz servir para conservar chocolate, uma vez que se transforma numa fonte de alegrias. De lá de dentro, para grande alegria dos mais pequenos, em vez de seringas, estetoscópios, espátula para ver a garganta, ou qualquer outro utensílio médico, vão saindo um chocalho, um leque, um apito, balões, instrumentos musicais. O seu ar é cómico e não deixa dúvidas a nenhuma das crianças que se encontram no Hospital Pediátrico de Luanda: ela é uma palhaça.
É a primeira vez que aquele estabelecimento de saúde recebe a visita de alguém assim, que ali se deslocou expressamente para ver rasgarem-se sorrisos nos meninos que ali se encontram. Israelita, Reut Tsoref pertence a um grupo de 80 palhaços que se dedica a visitar crianças hospitalizadas, e veio ao nosso país através de uma parceria entre a Embaixada de Israel em Angola e a Fundação Artes e Cultura.
Ao chegar ao hospital, não foram apenas as crianças que ficaram surpreendidas com a artista. Foi um momento emocionante. Antónia André, enfermeira do corpo clínico do hospital, foi uma delas. “Já tivemos muitas visitas mas esta é especial, pela sua forma de interagir com os pais e doentes”, explicou, frisando que cada movimento da palhaça, além de despertar o doente, é um antídoto motivador para os pais dos doentes ali internados.
“A cada sala que foi, ofereceu um sorriso”, contou Antónia André visivelmente satisfeita.
Jackson da Cruz, de nove anos, está internado nos cuidados intermédios. Apesar da idade, o seu corpo está francamente debilitado devido à doença que o apoquenta. Jackson está internado há duas semanas com problemas pulmonares e desde que ali chegou ainda não tinha pronunciado uma só palavra. Mas a palhaça mudou tudo, a começar por ter soltado a língua ao petiz. A partir do nome dele, Reut Tsoref ligou-o ao falecido músico americano Michael Jackson, cantando e dançando as suas músicas. Daí em diante, tudo se tornou muito mais fácil.
Dona Maria das Dores, a mãe de Jackson, ficou feliz pela disposição que o filho apresentou no momento e, por isso, sugeriu que houvesse mais visitas do género aos hospitais. “Desde que aqui entrámos o meu filho deixou de falar. Foi só a palhaça brincar com ele para começar a comunicar”, explicou, visivelmente satisfeita.

Sorriso nas enfermarias

A directora de enfermagem do Hospital Pediátrico de Luanda, Guilhermina Braúlio, considerou a presença da palhaça importante para a saúde das crianças, uma vez que, com as suas técnicas, levou as crianças acamadas a terem um motivo para viver e sorrir.
Na visita de aproximadamente três horas, Reut Tsoref passou pela pediatria especial, sala de recreação, cuidados intensivos, cirurgia e oftalmologia. Na sala de recreação, por exemplo, estavam muitas crianças à espera da “médica” palhaça, que fez a demonstração de algumas técnicas que podem despertar o sorriso de uma criança.
“Estão aqui muitas que, durante o seu internamento, não têm possibilidades de brincar e, neste momento, é muito salutar para elas a presença da palhaça”, explicou Guilhermina Braúlio, acrescentando que esta “é uma boa iniciativa que, se conseguirmos trazer para o nosso país, seria de louvar”.

Formação de palhaços

A embaixadora de Israel em Angola, Irit Sauvon Waidergorn, disse que a formação de palhaços “médicos” no país está dependente de uma parceria futura a ser estabelecida entre as autoridades governamentais de Angola e de Israel.
A diplomata israelita explicou que Reut Tsoref faz parte de um grupo de profissionais de teatro que trabalham em psicologia médica. “A ideia deles, dentro do hospital, é levar alegria e trabalhar com a equipa médica para facilitar a estadia e a cura da criança”, explicou.
Para a sua concretização em Angola, é necessário seguir uma estratégia, uma vez que se trata de uma profissão que se aprende na universidade e ajuda ao desenvolvimento social dos mais necessitados. “Queremos, não só fazer trabalho político mas também social, e é nesta conformidade que trouxemos a palhaça para interagir com as crianças de lares e hospitais”.
Irit Waidergorn anunciou, para dia 22 de Outubro, a realização, em Israel, da primeira Conferência Mundial de Palhaços “Médicos”, em que estarão presentes profissionais de todo o mundo.

Animação dá força e vida

Em Angola pela primeira vez, Reut Tsoref nunca imaginou que visitaria um hospital pediátrico. “Fiquei feliz por trabalhar num hospital especial para crianças. Com salas específicas para atendimento de várias patologias, isso mostra que há uma atenção especial do Executivo para com as crianças angolanas”, frisou.
Reut Tsoref trabalha como palhaça há três anos e faz parte de grupo “Dream Doctors”, que em português significa “sonho de médicos”, que levam a alegria às crianças que padecem de várias doenças.
“Quando vejo uma criança acamada, penso que ela se esforça por se levantar para poder interagir. Em Israel, trabalho três dias por semana. Estamos no mundo da animação para ajudar e dar força à vida”, salientou.
Em três anos de experiência profissional, Reut Tsoref só pensa em alargar a actividade a todo o mundo onde haja crianças doentes e com outras necessidades, para transmitir um sorriso. “O nosso trabalho é com a equipa médica e dar força aos pais a serem positivos e acreditarem na cura”, disse, acrescentando que, apesar de não se sentir uma criança, “é importante que durante a minha actuação elas se sintam crianças e felizes. A mala do médico serve para armazenar chocolate, pois as crianças em vez de encontrarem lá dentro materiais médicos, encontram coisas que elas utilizam nas suas brincadeiras”, explicou.
Reut Tsoref convidou os artistas angolanos, entre actores com experiência em teatro, dança e música, e psicólogos, a desenvolverem a técnica nos hospitais, pois isso ajuda pacientes e famílias que vivem dramas de enfermidade. 
Com a participação de vários actores sociais, disse, muitas crianças veriam os seus dias nos hospitais mais amenizados, sem aqueles receios  de quem está doente.

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