Dossier

Cucumbi refaz a vida longe do brilho dos diamantes

Adão Diogo* | Cucumbi

A instalação de serviços sociais, após a conquista da paz, que relançam o ensino, assistência sanitária e outras acções de impacto social junto das populações da comuna de Cucumbi remete para a história a efémera imagem de zona exclusiva de garimpo de diamantes.

A aposta das autoridades da comuna de Cucumbi é envolver as pessoas na reconstrução do que foi destruído durante a guerra
Fotografia: Flávia Massua | Saurimo

A instalação de serviços sociais, após a conquista da paz, que relançam o ensino, assistência sanitária e outras acções de impacto social junto das populações da comuna de Cucumbi remete para a história a efémera imagem de zona exclusiva de garimpo de diamantes.
A aposta das autoridades locais é envolver as pessoas na reconstrução do que foi destruído durante a guerra e devolver a confiança de um futuro melhor aos cerca de sete mil habitantes da comuna.
Apesar de existirem várias insuficiências, o caminho está a ser desbravado de forma segura e a população procura refazer as vidas fora do brilho dos diamantes, cujo garimpo também envolvia crianças. 
Avô Txindji, apesar do nome, tem 4 anos. Caminha firme pelos 30 metros que restam de um percurso íngreme, com mais de 200 metros, que o trouxe do rio, em companhia da mãe. O riso no rosto e a ausência de qualquer sinal de cansaço transmite a certeza de que faz com frequência o itinerário que dá acesso à fonte de água para a população.
A vila, erguida na zona plana de uma montanha, embora tenha ganho, em nove anos de paz, as infra-estruturas sociais básicas, no quadro de investimentos públicos, que alentou, na população, a crença num futuro promissor, com a instalação de uma escola, centro de saúde, sede administrativa, duas casas geminadas e uma mini central térmica, ainda não dispõe de água, que tem de ser transportada do rio.
As obras da estação de captação de água, junto do rio que dá o nome à vila, estão prontas, mas ainda não entrou em funcionamento porque a infra-estrutura aguarda pela instalação de um gerador de energia para accionar as bombas, que hão-de garantir o abastecimento dos chafarizes.

Circulação rodoviária

Obstáculos de toda a sorte cobrem o percurso de cerca de 45 quilómetros que separa a comuna da sede municipal de Cacolo. A circulação é apenas possível em viaturas de tracção às quatro rodas e exige perícia, atenção redobrada e força de vontade dos condutores. Para atenuar a carência em transportes, que quase não existem, na antiga via de acesso a Malanje os proprietários de motorizadas prestam serviço de táxi, os famosos kupapatas, cobrando a cada passageiro dois mil kwanzas pela viagem. O péssimo estado da picada, porque de estrada quase ou nada lhe resta, proporciona a ocorrência de acidentes, sobretudo aos poucos carros com excesso de carga, manutenção deficiente e condução imprudente. Mesmo os kupapatas, que transportam pessoas e carga, não escapam aos tombos aparatosos, que deixam taxista e passageiro atordoados e a mercadoria espalhada, alguma dela sem recuperação. Quando assim acontece, os prejuízos são grandes, para o taxista e para o dono dos haveres.

Permuta de mercadorias

O comércio em Cucumbi – feito, essencialmente, à base da troca de sal, peixe e óleo alimentar por bombó, produto base da alimentação da população, e a venda, em pequena escala, de carvão – incentiva apostas individuais e colectivas.
A produção do carvão para venda, embora pequena, começa a provocar vastas clareiras na floresta tropical por não haver, entre a população, o hábito de reflorestar e as autoridades, com poucos recursos, pouco ou nada podem fazer para travar isso.
Embora o garimpo de diamantes tenha diminuído e as pessoas se dediquem mais à agricultura, à caça e à pesca artesanal, a verdade é que o brilho dos diamantes continua a fascinar alguns habitantes de Cucumbi. São ainda em número razoável os que cedem à tentação de investirem no garimpo de diamantes, em zonas situadas num raio mínimo de 20 quilómetros da comuna, juntando-se aos estrangeiros que entraram no país ilegalmente, procurando, desta forma, fazer fortuna.
O comandante da Polícia Nacional na comuna, Lázaro Pedro, afirmou, ao Jornal de Angola, que as forças da ordem, com os poucos meios de que dispõem, procuram combater o fenómeno, mas admitiu que não é tarefa fácil devido à grande mobilidade dos garimpeiros que, entre si, estabelecem cumplicidades que lhes facilita a fuga rápida.

Reabilitação da estrada

A reabilitação da estrada que dá acesso à comuna faz parte das preocupações expressas pelo vice-governador António Teixeira, no termo da primeira visita de trabalho a Cucimbi, em Maio, à semelhança do projecto de água.
As acções programadas para a comuna, no quadro do programa de investimentos públicos, contemplam a construção de 25 edifícios, entre habitações e instalações administrativas para dignificarem as autoridades locais e atraírem quadros para região.
A nível da Educação, por exemplo, há apenas um professor para cem alunos do ensino primário. Na luta contra o analfabetismo, 70 adultos, maioritariamente mulheres, frequentam, este ano lectivo, aulas de alfabetização dadas por três formadores locais.
O representante da administração comunal, Domingos Lutxokwe, declarou que o desinteresse dos sobas pela formação “desmotiva os alfabetizandos”, que entendem que as autoridades tradicionais “devem ser o exemplo nas comunidades”. Os que persistem esboçam algum conhecimento de leitura e escrita, mas dificuldades de ordem financeira por parte dos formandos, para a compra de material didáctico, origina muitas desistências. A escola tem três salas com as respectivas carteiras e quadros.
No domínio da assistência sanitária, dois dos seis enfermeiros necessários asseguram o funcionamento do centro de saúde, com capacidade para internar 25 pacientes.
As doenças mais frequentes, em grande parte devido a deficiências no saneamento do meio, são as respiratórias, a malária e as diarreias.
Para o agravamento do quadro, referiu Domingos Lutxokwe, concorre a resistência aos apelos das autoridades para a necessidade de se construírem e usarem latrinas.
“Não há cultura da construção e uso de latrinas, as pessoas defecam no capim e quando chove, as águas contaminadas desaguam no rio, onde vão buscar água para beber e cozinhar”, lamentou, acrescentando: “Com isto, proliferam as doenças de origem hídrica”.  A construção e o uso de latrinas pelas comunidades, insistiu, são importantes para travar a proliferação de doenças como a cólera e outras de origem hídrica.
A resposta das comunidades ao programa de reunificação familiar proposto pelas autoridades proporcionou a fusão de sete aldeias no espaço da antiga Missão Católica do Cucumbi, fundada em 1929 e já em ruínas.  Neste processo de reinstalação, a população pede, especialmente, mais apoio do governo em chapas de zinco para poderem concluir a constituição das casas porque a transferência das áreas onde moravam para a antiga Missão Católica exige algum investimento e nem todos têm posses para isso.

Crença no feitiço

Embora várias aldeias se tenham fundido devido, essencialmente, a laços familiares, o clima no relacionamento entre as comunidades “é crispado pela crença excessiva no feitiço”, disse Domingos Lutxokwe.
Este factor tem sido muitas vezes responsável pela desagregação familiar, que “ há dias forçou a fuga de um soba, para escapar à violência de parentes que o consideravam feiticeiro”. Domingos Lutxokwe defende a realização de campanhas de sensibilização na rádio e noutros órgãos de comunicação social, com programas em línguas locais, para travar esta prática que, com frequência, provoca dramas nas famílias.

*Com Flávia Massua

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