Dossier

Fazer combustíveis com óleo de palma

Isidoro Natalício | Ndalatando

O aproveitamento intensivo do dendém em Angola para a produção de alimentos e combustíveis é uma realidade nos próximos tempos.

O aproveitamento intensivo do dendém em Angola para a produção de combustíveis pode ser uma realidade nos próximos tempos
Fotografia: Pedro Miguel | Ndalatando

Laranjas, abacates, tangerinas, mamões e outros frutos estão a cair de maduros nas fazendas e plantações familiares do Kwanza-Norte. O mesmo aconteceu com a manga, goiaba e gajaja no tempo de chuva.
As frutas estragam-se porque faltam na província centros de conservação, o sistema de escoamento é pouco eficaz e porque existe saturação dos mercados locais. O gerente da fazenda “Mãos Abertas”, situada na margem sul do rio Lucala, em Massangano, disse que se vê obrigado a deixar as laranjas apodrecer nas árvores, porque alugou uma viatura e encaminhou 113 caixas para o “Mercado do 30”, nos arredores de Viana, em Luanda, e tudo se estragou.
“Apesar de permanecer uma semana no mercado, não vendi nada porque encontrei muita laranja proveniente do Centro, Sul e Norte do país e tive prejuízos acima de 226 mil Kwanzas”, afirmou Pedro Afonso Mussili.
O gerente da fazenda “Mãos Abertas” assegurou que a banana-pão dá menos prejuízos, devido à procura. Mas na generalidade dos municípios do Kwanza-Norte, o tipo mais vulgar de banana, e que se estraga facilmente, é a “dondim”, por ser de fácil cultivo e resistente às pragas. A “dondim” foi sempre mais aproveitada para o fabrico de caporroto.

Óleo de palma

Apesar da existência de fabriquetas artesanais, em particular no Ngonguembo e Golungo Alto, o dendém é dos produtos que registam maiores índices de subaproveitamento. A fazenda “Mãos Abertas” tem dois hectares de palmar quase inexplorados por falta de trepadores para limpar as palmeiras e cortar os cachos.
A palmeira também se reproduz com facilidade, por isso, encontram-se plantações espontâneas em lavras, quintais ou nas margens dos rios e nas baixas.
O aproveitamento intensivo do dendém em Angola pode ser uma realidade nos próximos tempos, impulsionado por um protocolo entre a Sonangol, a ENI, a Angola SPA e o Instituto Nacional do Café (INCA). O chefe do Departamento do Kwanza-Norte do Instituto Nacional do Café, Jeremias Tavares, esclareceu que o projecto-piloto arranca em Massangano.  Para o efeito foi efectuado um estudo do potencial da província (com excepção do município do Lucala) que resultou na contabilização de 12 mil  hectares de palmar.
As municipalidades de Ngonguembo com cinco mil hectares, Golungo Alto três mil e   Cazengo 740 hectares são as principais referências. Baseando-se na cifra convencional de 44 palmeiras por hectare, estima-se a existência de 531 mil plantas que podem produzir dez cachos por ano, mas 70 por cento das palmeiras tem 40 anos de vida.
Denominado “Alimentos e Biocombustíveis”, o protocolo contempla a investigação, formação técnica e profissional, importação da Indonésia de 200 mil plantas melhoradas, produção de variedades e o seu fornecimento aos produtores visando o aproveitamento do dendém para fabrico de óleo de palma e combustíveis.
A variedade a multiplicar é a “tenera” porque é mais económica devido ao volume da polpa do fruto, caroço de dois milímetros e produz cachos que pesam até 30 quilos, durante mais de 25 anos. O agrónomo Jeremias Tavares disse que a palmeira que predomina na região tem um caroço maior e fibras dispersas na polpa.
Os maiores palmares de Angola situam-se na região Norte, em consequência da estratégia das autoridades coloniais, que conceberam a zona para a agro-indústria.
O dendém é explorado fundamentalmente para fabrico de óleo de palma, mas a indústria valoriza também o fruto para outros fins.
Alguns componentes do óleo têm propriedades anti-oxidantes e servem para prevenir doenças cardíacas e o cancro.
Com o dendém produz-se sabão, condicionadores para o cabelo, tintas, velas e combustíveis.
Desconhecem-se os números reais do uso do dendém em Angola. Em 2008, a Indonésia era o maior produtor de dendém, com 17 milhões de toneladas. A Malásia surge em segundo lugar com 16 milhões.
Em África o primeiro lugar vai para a Nigéria com 82 mil toneladas e a Costa do Marfim com 32 mil.

Incentivos à fruticultura

A revalorização da fruticultura no Kwanza-Norte permite usar a manga, a banana, os citrinos, a goiaba e o abacate no fabrico de sumos e para melhorar a merenda escolar. A fruticultura é um sector muito eficaz no combate à fome e à pobreza, sobretudo em áreas rurais. As 71 mil famílias camponesas registadas pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal colheram na campanha agrícola passada mais de 20 mil toneladas de banana, 156 de melão, 1.690 de ananás e 7.650 toneladas de citrinos.
O abacate atingiu as 3.321 toneladas, a goiaba 48, o mamão 408 e a manga 1.984. Os camponeses do Kwanza-Norte querem entrar na fruticultura em força mas para isso precisam de facilidades e créditos. Sobretudo são necessárias pequenas indústrias movidas a energia solar que podem ser instaladas em fazendas e nas explorações familiares.
Na opinião do agrónomo António Meie, a melhoria da fruticultura passa pela elaboração de estudos técnicos sobre os terrenos. Esses estudos são muito dispendiosos e por isso é necessário que sejam suportados pelo Governo Provincial ou pelo Executivo.
O agrónomo António Meie sugere que quem produz em áreas acima de dez hectares deve beneficiar de crédito bancário para apetrechamento técnico e material.
Outros especialistas aconselham a realização de campanhas fitossanitárias para mais e melhor rendimento por planta.
Apesar da ausência de oportunidades no mercado, há quem “teime” produzir frutas, a exemplo de Cristo Proença que planta laranjeiras e mangueiras numa extensão de seis hectares em Massangano.
Outras iniciativas contemplam maracujá, no Lucala, e manga, no Mucozo, Dondo, segundo dados do Departamento Provincial de Agricultura e Pecuária.

Tempo

Multimédia