Dossier

Jovens com vontade férrea de vencer na vida

Manuel Albano| Catete

O Centro Cultural Agostinho Neto, localizado no município de Catete, formou, de 1 de Abril a 15 de Julho, 17 jovens no primeiro Curso Básico de Serigrafia, de um total de 90 inscritos. O curso foi organizado pela Fundação António Agostinho Neto.
O Centro Cultural Agostinho Neto tem como objectivo formar jovens nas áreas da dança, teatro, informática e das línguas inglesa e francesa.

Professores e alunos que concluíram com êxito o curso de serigrafia em Catete
Fotografia: José Soares

O Centro Cultural Agostinho Neto, localizado no município de Catete, formou, de 1 de Abril a 15 de Julho, 17 jovens no primeiro Curso Básico de Serigrafia, de um total de 90 inscritos. O curso foi organizado pela Fundação António Agostinho Neto.
O Centro Cultural Agostinho Neto tem como objectivo formar jovens nas áreas da dança, teatro, informática e das línguas inglesa e francesa. O centro conta com professores nacionais, que fazem parte do quadro da instituição que dá formação aos que pretendam aprender uma arte.
O Centro Cultural Agostinho Neto é uma instituição de utilidade pública inaugurada no dia 4 de Fevereiro 2009 pelo Presidente da República. Com três andares, o centro funciona com serviços integrados: uma área administrativa, sala de exposições, restaurante, área multifuncional, cybercafé, sala de formação e informática, museu, biblioteca, um anfiteatro com 270 lugares e campos desportivos.
No acto oficial de encerramento do primeiro Curso Básico de Serigrafia, o director interino do Centro Cultural Agostinho Neto, José Manuel Lando Gime, afirmou que o Curso Básico de Serigrafia ajuda os jovens a aumentar os conhecimentos e adquirir um trabalho rentável.
"Os jovens precisam de formação nos mais variados domínios e dotá-los de conhecimentos históricos, culturais e científicos deve ser uma preocupação de todos, para que eles possam ganhar a vida com o seu trabalho", diz o director do Centro Cultural.
Os jovens agora formados podem contar com o apoio da instituição para continuarem os seus trabalhos de pesquisa sobre o curso de serigrafia. "O centro cria condições para que os jovens formados dêem seguimento à sua actividade", garante José Gime.
O director do Centro Cultural Agostinho Neto garantiu aos 17 jovens formados em serigrafia um espaço no centro para desenvolverem os seus projectos e criarem uma cooperativa. "Temos o compromisso de não deixar morrer este maravilhoso projecto. Oferecemos um quiosque onde podem aplicar aquilo que aprenderam ao longo da formação".
O administrador não executivo da Fundação António Agostinho Neto, Afonso Williams Malheiro, diz que os critérios adoptados pela Fundação têm como principal objectivo ajudar a formar os jovens mais carenciados. Afonso Malheiro explica que o propósito da Fundação é também experimentar novos modelos de formação para a juventude e diversificar as escolhas no mercado do micro-negócio. "Cabe aos jovens da província a responsabilidade maior de mostrarem à sociedade que são a principal força impulsionadora para o desenvolvimento do Bengo", sublinha o administrador.
Os 17 jovens formados têm agora uma ferramenta que os pode ajudar a resolver as dificuldades do primeiro emprego. "É preciso que os instruendos tenham consciência de que o mais difícil é começar, mas é a persistência que nos faz vencer", acentua Afonso Malheiro.

Companheirismo

O professor e artista plástico João Maurício recorda que havia 90 jovens inscritos para o Curso Básico de Serigrafia e que 40 foram seleccionados. Ao final chegaram, apenas, 17 alunos, que tiveram aulas teóricas e práticas.
Ao longo do curso os alunos aprenderam a trabalhar sobre madeira, papel, plástico, vidro, adesivo, tecido, tela, serigrafia, raclete, espátula, tinta e tiveram aulas de reprodução, técnicas de desenho artístico, teoria da cor, técnica básica de gestão e impressão.
Agora, garante o professor Maurício, os alunos estão em condições de fazer cartões-de-visita e de natal, impressão em camisolas e folhetos de propaganda. O professor considera positivo o primeiro curso e diz que os jovens mostraram capacidade para se afirmarem no mercado de trabalho e no mundo artístico. "Com esta formação básica, os jovens estão preparados para criarem o seu próprio negócio."
Os jovens ficaram com todas as ferramentas utilizadas no curso para que, se quiserem, abram uma cooperativa e tirem rendimento do que aprenderam. "É importante que este primeiro grupo consiga manter o espírito de companheirismo. A principal ferramenta que deixamos para os jovens é a imaginação, a criatividade e o processo da técnica de serigrafia. É necessário que se mantenham unidos e explorem tudo o que aprenderam".

Projecto vai às províncias

João Maurício diz que o curso de serigrafia foi idealizado para aqueles que desejam aprender uma profissão ou estão interessados em abrir uma microempresa, trabalhar por conta própria ou iniciar uma nova actividade para complementar o orçamento doméstico. "É uma excelente opção para ter excelentes ganhos em pouco tempo.
É um negócio muito lucrativo e uma forma muito económica de montar o próprio negócio, porque praticamente não precisa de grandes investimentos".
O próximo passo é a criação de condições para que o curso chegue às restantes províncias. "No próximo ano queremos levar este projecto a outros jovens carenciados nas outras províncias de Angola, como forma de dar oportunidade aos jovens para criarem o seu próprio negócio", refere o professor Maurício.

Vontade de ferro

Manuela Coelho de Sá, 24 anos, de Bom Jesus, não espera pela sua presença. Às cinco horas da madrugada levanta-se para os afazeres domésticos. É estudante do Curso de Ciências Jurídicas, no Instituto Médio Kimamuenho, no Bengo.
Manuela saía de casa às seis horas para apanhar o táxi para a escola. Estudava no período da manhã. Depois das aulas, deslocava-se ao curso de serigrafia. Foi uma rotina feita com muito sacrifício. Manuela vive com o marido e dois filhos. Mas antes de começar a humilde jornada preparava a roupa de trabalho do marido e da filha de seis anos. "Tenho um marido incrível, que sempre me apoiou. Sem ele não seria possível conciliar os afazeres da casa, da escola e do curso", diz, reconhecida.
Para concluir o curso de serigrafia, Manuela contou também com o conforto da mãe, que, incansavelmente, levava a filha mais velha à escola, porque o curso não permitia que fosse Manuela a fazê-lo.
Manuela reconhece a dificuldade por que passou e diz que muitas vezes pensou em desistir, porque não era fácil conciliar a formação académica com o curso e a responsabilidade da família. “Estava muito difícil dar conta do recado. Tinha que tratar das crianças, do marido e da formação. Lembro-me de ter deixado várias vezes a casa desarrumada para dar prioridade à formação. Mas hoje não me arrependo, porque tive um grande companheiro que me apoiou nos afazeres de casa”, disse, sorridente, a jovem que tem já no seu Curriculum outros cursos: de informática, secretariado, culinária, economia pessoal e pastelaria.

Incentivo da família

A vontade de poder fazer parte do primeiro grupo de jovens a concluir o Curso Básico de Serigrafia, trabalhar e ajudar a família, fez a jovem Luzia Pedro César de Castro esquecer as dificuldades de quem é deficiente física. Ela movimenta-se com a ajuda de uma cadeira de rodas. Mas isso não foi uma barreira.
Luzia de Castro tem 24 anos e estuda a oitava classe na Escola "Gaspar de Almeida". Luzia conta que não foi difícil vencer essa barreira, porque sempre teve o incentivo da mãe e dos colegas. "Acredito que o meu sucesso esteve na minha vontade férrea de vencer as dificuldades. Os meus colegas de curso deram-me uma grande ajuda. Senti-me sempre inserida e nunca excluída".

Dar continuidade

Félix Manuel Neto, outro finalista, conta que foi a família que o incentivou a fazer a inscrição no curso de serigrafia. Tem 20 anos e estava de passagem no centro quando teve conhecimento da acção formativa. Explica que não encontrou muitas dificuldades no primeiro mês de curso.
"O maior desejo é dar continuidade ao curso para ser um profissional. A nossa região é turística e precisamos de tirar vantagem da presença dos turistas que aproveitam o fim-de-semana para conhecerem os encantos naturais e pitorescos da província".
Segundo Santos Ventura Domingos Cebola, de 19 anos, o objectivo do grupo é mesmo criar uma cooperativa e dar corpo a um micro negócio. Teresa Canhanga Martins, 19 anos, também estudante da Escola "Gaspar de Almeida", a fazer a 9ª Classe, diz que com o rendimento que a cooperativa vai produzir, pensa comprar electrodomésticos, roupas novas e material didáctico para dar continuidade à formação académica.

Traje tradicional feito para a ocasião

Vestida em traje tradicional, feito para a ocasião, Felícia Domingos David, 22 anos e estudante da 11ª Classe no Instituto Kimamuenho (também conhecido por Escola Maria da Silva Neto, em homenagem à mãe de Agostinho Neto), muito elogiada pela forma como se apresentou no momento em que recebeu o seu certificado, diz com um sorriso nos lábios: "Este é um momento especial para mim. Por isso, mandei fazer este vestido". Para Felícia, este foi o "curso da minha vida". O seu maior obstáculo foi acordar cedo para ir à escola e depois ao curso.

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