Dossier

Kupapatas conquistam Ndalatando

Manuel Fontoura e Kátia Ramos|Ndalatando

Há três anos, as motorizadas na cidade de Ndalatando, capital do Kwanza-Norte, eram utilizadas como meio de transporte individual. Hoje, este meio de transporte passou a ser um meio de rendimento, estando massificado em todas as ruas da cidade e arredores, sobretudo agora que Ndalatando cresce a olhos vistos, mas nem sempre acompanhado das estruturas físicas e rodoviárias que as grandes e modernas cidades oferecem. É aqui que as moto-táxis, vulgo Kupapatas, entram, cobrindo o espaço deixado vago pelos transportes públicos de passageiros. 

Os kupapatas desempenham um papel importante na transportação de pessoas e mercadorias na cidade de Ndalatando e arredores
Fotografia: Nilo Mateus

Há três anos, as motorizadas na cidade de Ndalatando, capital do Kwanza-Norte, eram utilizadas como meio de transporte individual. Hoje, este meio de transporte passou a ser um meio de rendimento, estando massificado em todas as ruas da cidade e arredores, sobretudo agora que Ndalatando cresce a olhos vistos, mas nem sempre acompanhado das estruturas físicas e rodoviárias que as grandes e modernas cidades oferecem. É aqui que as moto-táxis, vulgo kupapatas, entram, cobrindo o espaço deixado vago pelos transportes públicos de passageiros.
Porque não há serviços de táxi na verdadeira acepção do termo, os kupapatas desempenham um papel importante na transportação de pessoas e mercadorias. Chegam a todos os lugares, sobretudo às ruas em péssimas condições, que impedem a chegada dos transportes de quatro rodas.
A reportagem do Jornal de Angola constatou no centro da cidade de Ndalatando e em alguns bairros periféricos que o negócio é lucrativo e ganha corpo. Em cada esquina ou ruela é notória a presença de várias motorizadas. Muitas pessoas encontram neste negócio a única fonte de rendimento e sustento. Não vivem no luxo, mas não passam fome, disse um kupapata.


Negócio prospera

O negócio é relativamente novo em Ndalatando, comparado com cidades como Luanda, Huambo ou Benguela, onde os kupapatas são já aos milhares e existem estruturas associativas em formação. Em Ndalatando, os kupapatas são hoje o meio de transporte mais utilizado pelos cidadãos, para o serviço, escola, mercados e outros lugares.
Sem paragens para carregar e descarregar os passageiros, os moto-taxistas circulam de um lado para o outro à procura de passageiros e não complicam. Logo que tenham a possibilidade de levar um, levam-no até ao seu destino sem queixumes.
Em cada corrida na cidade cobram 100 kwanzas. Para os arredores é mais caro. Mas não se pense que em Ndalatando há apenas moto-táxis de duas rodas, há também de três rodas com carroçaria, muito utilizados nos países asiáticos como Índia, China e Tailândia. Estes têm a vantagem de levar mercadoria diversa e também passageiros, cobrando 50 kwanzas pelo passageiro e 100 pela carga, na cidade. Quanto mais longe fora da cidade, os preços da corrida sobem, mas são sempre discutidos antes da viagem. 


Soba Kiucamba

De 62 anos, o soba do bairro Camundai, Daniel Kiucamba Kamzele, pai de oito filhos, é igualmente um moto-taxista. Apesar da idade e dos perigos que a estrada representa, ele não teme acidentes ou outros perigos. Diz que é cauteloso na estrada e que até agora não tem razões de queixa. Quanto à incompatibilidade de ser, ao mesmo tempo, soba e kupapata, ou moto-taxista, Daniel Kamzele disse que é apenas um simples soba com uma família numerosa para sustentar.  
“Sou apenas um simples soba, ganho mensalmente dez mil kwanzas e penso que este dinheiro não satisfaz as minhas despesas caseiras e, por isso, além do trabalho do campo e do sobado, dedico-me a esta actividade para ganhar algum dinheiro para sustentar a família. Antes, quando era jovem, dedicava-me à camionagem e por isso acho-me em condições de conduzir uma motorizada sem problemas.”
Para ele, a facilidade na aquisição das peças sobressalentes encoraja-o a continuar na profissão, porque a moto nunca pára e no fim do dia leva sempre para casa “algum dinheiro que dá para as compras”.
José Barradas, de 23 anos, disse estar no negócio há mais de um ano. Conta que o seu ganha-pão começa com uma pequena manutenção na moto às cinco da manhã e às seis começa a actividade, que só termina às 19 horas.
“Este ano não tive possibilidade de ingressar no Instituto Normal de Educação (INE). Fiz o teste de admissão, mas infelizmente não passei, por isso encontrei nisso a melhor forma de estar na vida sem cair em actos ilícitos, mas tudo vou fazer para no próximo ano conseguir uma vaga e continuar os estudos”, disse.
José Barradas conta que faz todos os dias trajectos diferentes. Confidenciou-nos que é um negócio que “dá para aguentar a cozinha”. Por dia chega a facturar cinco a seis mil kwanzas e por mês 150 mil kwanzas. Revelou ainda que antes trabalhava com uma moto alheia, o que o obrigava a entregar diariamente dois mil kwanzas ao proprietário, além de manter, é claro, a moto sempre em condições de trabalhar, sendo que a manutenção também dependia dele. “Agora, que consegui comprar a minha própria moto, trabalho sem pressão e faço o meu dinheiro sem problemas”, disse.


Funcionário aliviado

O funcionário público Pedro Miranda, morador do bairro Carreira de Tiro, fez saber que adquiriu em Luanda cinco motorizadas e legalizou-as para a prática do serviço de táxi. “Desde que coloquei as motos a trabalhar, há dois meses, nunca mais passei dificuldades. Diariamente tenho dez mil kwanzas em mão e sinto-me aliviado. Com este dinheiro consigo ajudar a família nos gastos correntes e poupar uma parte, sem já as preocupações de quem espera pelo salário para resolver os problemas do dia-a-dia”, disse visivelmente satisfeito.
Como Pedro Miranda, Jovial Tecula e Trindade de Moura, também funcionários públicos, possuem duas motos cada um a prestar serviço de táxi e garantiram à nossa reportagem que, apesar dos jovens que as conduzem receberem diariamente mais de dois mil kwanzas, o dinheiro que recebem no fim de cada jornada “é razoável e dá para suportar os gastos correntes”.
 Quem mais beneficia com as moto-táxis são os munícipes espalhados pela cidade. Madalena Mazaíla disse que todos os dias, para se deslocar de casa ao trabalho e vice-versa, apanha uma motorizada.
Segundo ela, desde a entrada em funcionamento destes serviços, apesar dos constrangimentos relacionados com a falta de capacetes, licença de aluguer e de condução por parte de alguns jovens, ainda assim as motorizadas têm estado a facilitar a deslocação das pessoas.
“Só posso agradecer às pessoas que pensaram pôr em prática esta actividade nesta cidade, mas ao mesmo tempo aconselho a todos os moto-taxistas a tratarem da licença.”
Para o passageiro Andrade Kissunda, as moto-táxis têm sido muitas vezes a sua salvação. Morador do bairro Vieta e pedreiro numa obra no centro da cidade,  disse que se não fossem as moto-táxis era muito difícil cumprir o horário de trabalho, uma vez ser igualmente estudante. “Como não disponho de viatura, sou obrigado a recorrer aos préstimos das motos, que dão um grande jeito.”  
Muitos moto-taxistas contactados pela nossa reportagem consideraram rentável o exercício da actividade em Ndalatando, a julgar pela adesão cada vez maior de pessoas que solicitam os seus serviços nos últimos tempos.
Para eles, o seu trabalho está a melhorar a transportação de pessoas e bens, com viagens curtas, essencialmente para escolas, hospitais e mercados.
O moto-taxista Evaristo Sebastião, estudante da oitava classe, exerce a actividade há quase dois anos e consegue com o trabalho juntar diariamente dois mil kwanzas, dinheiro que no fim do dia entrega ao proprietário. “Durante a semana eu tenho também o meu dia. Às vezes faço mais de dois mil kwanzas, mas o contrato está estipulado para entregar apenas este valor e caso reste algo, é meu”.
João Francisco, pai de dois filhos e antes desempregado, refere que para sustentar a família a alternativa foi comprar uma motorizada. “Com este trabalho já me é possível sustentar a família e fazer mais coisas.” Revela que, apesar de ser um trabalho estafante, não o larga, até encontrar um trabalho com dignidade para o seu ganha-pão.
As moto-táxis em Ndalatando são na sua maioria com cilindrada de 50cc e grande parte dos moto-taxistas não está habilitada para conduzir, não paga taxa de circulação e não usa capacete.
O chefe de secção de viação e trânsito do Kwanza-Norte, Benedito Santana, frisou que durante o período de actividade de moto-táxis nestas paragens, a direcção emitiu mais de mil livretes, procedeu à distribuição de 339 aos respectivos donos, sendo que a maioria ainda não foi levantada pelos respectivos titulares.

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