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Militares em acção nas praias da Ilha

Cristina da Silva|

Ficaram para trás as matas, as armas e a guerra. Mas a missão de garantir a Ordem, Defesa, Segurança e a Integridade continua patente nas missões dos efectivos das Forças Armadas Angolana (FAA). Imbuídos desse espírito e em tempo de paz, as acções sociais também jogam nas tarefas a desenvolver por estes homens que durante muitos anos lutaram para manter a tranquilidade que hoje Angola vive.

Efectivos das Forças Armadas Angolanas trabalham para manter a limpeza das praias e ruas da Ilha do Cabo
Fotografia: JA

Ficaram para trás as matas, as armas e a guerra. Mas a missão de garantir a Ordem, Defesa, Segurança e a Integridade continua patente nas missões dos efectivos das Forças Armadas Angolana (FAA). Imbuídos desse espírito e em tempo de paz, as acções sociais também jogam nas tarefas a desenvolver por estes homens que durante muitos anos lutaram para manter a tranquilidade que hoje Angola vive.
Na avenida Murtala Mohamed encontrámos Daniel Fernandes, das Forças Armadas Angolanas, incorporado na Brigada 101 de Tanques na Funda.
Daniel faz parte de um grupo de 308 militares em missão para a limpeza e manutenção da Ilha do Cabo. Naquela manhã cinzenta, embora estivéssemos a viver o princípio do Verão, o frio ainda se fazia sentir. Ele e mais dez colegas recolhiam o lixo colocado fora dos contentores pelos moradores da zona.
Daniel vestia camisa branca, calça e bota militar. Na rua em que nos encontrávamos, muitos paravam para certificar se eram realmente militares que limpavam a área. "Muitos ainda se admiram em nos ver limpar a rua. Faz parte de muitas tarefas sociais que temos desenvolvido ao longo dos anos."
Perto estava outro grupo, que recolhia o lixo espalhado pela areia da praia. Uns usavam camisa branca e outros verde-escuro.
Em Abril, altura em que o grupo começou a trabalhar, havia muito  lixo. Hoje, conta, em muitos pontos são os próprios moradores que procuram organizar os resíduos sólidos para os militares recolherem.
Para além dos resíduos, os militares recolhem também a areia à beira da estrada. "Mais de 30 sacos de areia são recolhidos diariamente."
O comandante do Batalhão de Limpeza da Ilha do Cabo disse que a tarefa dos militares abrange toda a extensão da zona, da nova ponte do Mausoléu até ao Ponto Final.

Tarefa de orgulho

O 2º sargento Paulino Félix está orgulhoso de fazer parte da equipa de manutenção do saneamento básico e limpeza da Ilha do Cabo.
Félix faz parte da Brigada 70 do Vale do Paraíso do Bengo. O seu grupo é composto por 200 homens e encontra-se no local há três semanas. Antes da missão de limpeza, Félix nunca tinha estado na Ilha de Luanda. Já tinha ouvido falar, "mas nunca tinha estado aqui e sinto-me orgulhoso por esta nova missão". Para além de ter participado na limpeza, Paulino Félix já esteve em campanhas de vacinação e de doação de sangue.
Samuel Janja considera a tarefa uma das muitas missões do serviço militar. Antes de fazer parte das FAA tinha a ideia de que o trabalho do militar era apenas nas matas. "Mas durante a formação fui aprendendo que podia vir a cumprir várias missões. Hoje estamos aqui, mas conscientes de que podemos ser transferidos para outros campos".
Quem também está orgulhoso pelo êxito da missão é o 1º sargento Dionelo, mais conhecido por Trocado. Desde que o grupo se instalou na Floresta da Ilha de Luanda muita coisa mudou, disse, principalmente a segurança da zona. Referiu que há também mais higiene.
"Com a nossa presença aqui, já sentimos maior organização por parte dos moradores, assim como segurança, uma vez que a área era utilizada para fins menos dignos."

Ambiente de ajuda

O primeiro grupo de militares a chegar ao local foi a Brigada 70 do Vale do Paraíso do Bengo, composto por 200 homens. Uma semana depois juntou-se a Brigada 101 da comuna da Funda, com 108 militares.
Mário Fernando Yango, comandante da brigada 101 da Funda, disse que apesar de estarem no local efectivos de áreas diferentes e desconhecidos uns dos outros, o que prevalece é que a missão seja cumprida em coesão. "Somos estranhos uns dos outros, mas temos uma missão a cumprir que só é efectiva se todos participarem."
O chefe Yango, como é chamado pela tropa, disse que tanto os efectivos de um batalhão como do outro trabalham juntos. "Se um grupo de 30 fica a trabalhar na estrada, o outro coopera na praia."
Daniel Fernandes disse que não conhecia muitos dos colegas, mas quando vão à rua o relacionamento torna-se mais efectivo devido às necessidades que um ou outro passar. "Quando falta uma vassoura ou um saco de lixo é o colega que está na rua que me ajuda a solucionar o problema."

Disciplina

A disciplina constitui uma das normas na efectivação de qualquer missão. E nas missões militares as regras são mais ríigidas. Todos têm um horário para entrar na base e para acordar. "Aqui, apesar de não se tratar de uma missão de guerra, as regras devem ser cumpridas à risca e com disciplina", disse o comandante do Batalhão de Limpeza da Ilha do Cabo, Artur Manico.
O também responsável pela Brigada 70 do Vale do Paraíso do Bengo diz que os efectivos acordam às cinco da manhã. Às seis horas têm o banho, às sete há a formatura de controlo do pessoal e às 7h30 a distribuição do pessoal nas áreas de trabalho. "Todos estes horários são cumpridos rigorosamente."
Na rua, os efectivos têm quatro horas de trabalho e fazem-no de segunda a sábado. Às 13 horas têm o almoço, que é confeccionado na base por especialistas militares e o período da tarde é reservado para o relaxe. Nesta altura, prosseguiu, uns preferem passear pela zona, enquanto outros jogam xadrez ou ainda se reúnem para conversar.
Os que saem da base têm horário para entrar. Caso o horário seja violado, o infractor é sancionado com medidas disciplinares internas. Os que não comparecem à formatura, de acordo com as regras militares, têm a situação agravada.
"Consta das medidas como escavação de buracos para aterros sanitários, recolha de lixo nos arredores da floresta, entre outras. Já os que saem para recreio, até às 20h00 devem estar dentro do posto do comando, depois já ninguém é autorizado a entrar. O nosso pessoal de segurança é quem faz a ronda e controla todos os elementos na calada da noite", disse o comandante Artur Manico.

A base do batalhão

A base do Batalhão de Limpeza da Ilha do Cabo está localizada na Floresta da Ilha. No local foram montados 67 tendas para 308 efectivos. Possui ainda dois geradores para iluminação da área, latrinas de campanha e dois tanques de água que de dois em dois dias são abastecidos por cisternas da Epal.
Para casos de doença, a base conta com um posto de atendimento de primeiros socorros e os casos graves são transferidos para o Hospital Militar Central.
Artur Manico, comandante da base, lembrou que a missão das Forças Armadas Angolanas  não é apenas trabalhar nas matas, pois que, "como homens fomos formados para estar em todas as missões" e deixar a Ilha limpa é agora a nova tarefa da tropa.

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