Dossier

Os tortuosos caminhos que levam à prostituição

Domingos dos Santos |

São duas da manhã e o largo Rio de Janeiro, no bairro Mártires de Kifangondo, regista a presença de dezenas de pessoas, com idades compreendidas entre os 20 e os 40 anos, em busca de diversão.

Migração para as cidades de jovens do campo sem qualquer preparação profissional é uma das causas que leva à prostituição
Fotografia: Francisco Bernardo

São duas da manhã e o largo Rio de Janeiro, no bairro Mártires de Kifangondo, regista a presença de dezenas de pessoas, com idades compreendidas entre os 20 e os 40 anos, em busca de diversão. Umas são prostitutas, que oferecem todo o tipo de serviço, e outros são clientes que, perante a grande oferta, só têm de escolher. Aqui, a realidade da prostituição está à mostra, mas o quotidiano destas trabalhadoras do sexo é cruel e geralmente duro de enfrentar.
A maioria caiu na prostituição por razões económicas. Mas no largo Rio de Janeiro encontramos algumas jovens com bom nível académico e intelectual, que dizem “estar na vida” porque precisavam de dinheiro, por estarem sem trabalho.
Estudiosos do assunto apontam factores socio-económicos e psicológicos. Falta de emprego, migração para os grandes centros urbanos de jovens do campo sem qualquer preparação profissional, mães solteiras com dificuldade em manterem o filho ou os filhos, também são apontadas como razões que levam à prostituição.
Por factores psicológicos entende-se as carências afectivas e traumas que marcam a infância e a adolescência das pessoas.No entanto, o Jornal de Angola fez uma incursão ao mundo da prostituição em Luanda e constatou que nem sempre são os factores socio-económicos e psicológicos que estão na origem deste fenómeno.
Pelas ruas da capital angolana encontrámos estudantes do ensino médio e superior, jovens de família com boa educação e até mesmo algumas mulheres que são ou já foram casadas e que enveredaram por esta vida apenas para experimentarem uma fantasia e depois acabaram por ficar.


Razões apontadas


As raparigas de saltos altos e roupas exíguas oferecem sexo atrás de sexo. Entre elas destaca-se Maria, 26 anos, uma jovem que nasceu em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RDC). A instabilidade político-militar na RDC levou Maria, como é tratada entre os amigos, a imigrar, em 2008, para Angola, em busca de segurança e de melhores condições de vida.
Chegou a Angola através da província da Lunda-Norte e posteriormente a Luanda, em busca de trabalho, entusiasmada pelas belas histórias de Angola ser um “el-dorado”. No terreno, a realidade que lhe surgiu foi bem diferente. Perante as dificuldades em arranjar emprego e incentivada pelas suas compatriotas que há muito viviam em Luanda, acabou a prostituir-se.
A nossa reportagem encontrou-a em companhia de duas colegas de profissão, no largo Rio de Janeiro, que ao cair da noite é invadido por dezenas de mulheres, na sua maioria da RDC, que oferecem sexo para todos os gostos e bolsos. Maria e as colegas, com idades entre os 20 e os 47 anos, vestidas com calções curtos, mini-saias e tops, exibem o que têm de melhor para atrair quem quer e pode pagar os prazeres da carne.
Chegar à conversa com estas mulheres não é difícil, porque para elas todos são clientes. Para as congolesas democráticas, nem mesmo o factor língua dificulta a comunicação com um potencial cliente. “Por dia posso ter dois ou três clientes, depende muito da procura”, conta Maria, enquanto acena para um carro que vai a passar.
 O potencial cliente, a partir do seu carro, observa as prostitutas como quem quer escolher aquela que satisfaça mais os seus apetites.
 “O negócio é rentável. Para pagar bem depende do trabalho que faço ao cliente. Mas é muito difícil encontrar um que pague o preço justo”, explicou, acrescentando que cobra por uma hora o equivalente a 100 dólares. Maria justifica que esta foi a forma que encontrou para evitar meter-se no mundo da droga e organizar a sua vida.
“A minha vida sempre foi difícil na RDC, por isso tive que fugir para Angola. Mas como não tenho emprego, prostituo-me”, justificou, acrescentando que “o dinheiro é bom, maravilhoso, mas se uma pessoa se envolver com drogas, acaba com a sua vida, por isso prostituo-me, apesar de reconhecer que também aqui corro o risco de contrair uma doença sexualmente transmissível”, disse.


Sexo no carro


No interior de alguns carros, estacionados em locais estratégicos, pouco visíveis, nota-se o movimento de actos sexuais. Passados dez minutos, reparamos que uma moça desce de uma viatura ajeitando uma minúscula saia, enquanto o cliente arranca com o carro a toda a velocidade, para não ser visto por alguém conhecido.
A jovem, que mais tarde ficamos a saber chamar-se Katy, tem 21 anos, 1,70 m, cabelos ondulados até à cintura fina, e seios fartos.Em conversa com a nossa reportagem, conta que numa terça-feira do ano passado, ela e uma amiga, Solange, leram um livro sobre prostituição e a outra comentou que gostaria de ser prostituta por um dia.
As duas amigas decidiram, então, que num fim-de-semana iam pôr o seu plano em prática. No dia seguinte, saíram para comprar duas saias de couro, uma vermelha e outra preta, e dois tops transparentes, que deixavam à mostra os seios.“Queríamos tanto fazer essa experiência, mas apenas uma vez só, para não nos viciarmos”, explicou Katy. Chegou o sábado, o dia combinado, e as duas amigas caíram na noite.
O local escolhido foi o largo Rio de Janeiro, onde as encontrámos a exibir a sua sensualidade para os potenciais clientes. Escolheram o local por ser distante do sítio onde residem, em Viana.“Chegámos aqui e fomo-nos juntando às outras que encontrámos. Passada uma hora, conseguimos dois clientes, que nos levaram para uma pensão na Samba”, disse Katy, acrescentando que nessa noite cobraram cada uma cinco mil kwanzas por hora.
Quase um ano depois, Katy e Solange ganharam o gosto ao dinheiro e continuam a prostituir-se pelas ruas de Luanda, contando que já têm, até, clientes fixos, que ligam para sessões de sexo em grupo.
“É a vida. Temos que fazer alguma coisa para sobreviver.Feliz ou infelizmente, escolhemos a prostituição. Mas se me aparecer uma oportunidade para deixar esta vida, eu deixo”, disse, acrescentando que enquanto a sua sorte não muda, vai continuar na prostituição, mas sempre com cuidado, usando camisinha para não contrair doenças.“Hoje, os meus clientes são de várias camadas sociais e de diferentes níveis socioeconómicos”, disse.


Bairro Futungo


Do largo Rio de Janeiro, a nossa reportagem partiu para outro ponto da cidade, mais concretamente no bairro Futungo. Informações recolhidas no local levaram-nos até um edifício moderno. Lá chegados, o prédio chamou a nossa atenção pelo movimento, um corrupio de homens a entrar e a sair.
 A fachada, comum e bem cuidada, esconde o que se passa lá dentro.No interior, homens fumam e bebem em companhia de dezenas de prostitutas.
Os clientes pagam cervejas às moças e um valor em dinheiro a troco de sexo. Elas, com vestidos decotados, circulam de um lado para o outro oferecendo os seus serviços. Tudo pode ser feito ali em quartos bem mobilados.
Margareth tem 35 anos e começou a prostituir-se para satisfazer as suas necessidades económicas. Um dia decidiu que tinha chegado o momento, vestiu-se de forma provocante e vulgar, e foi para um local frequentado por prostitutas. O plano era misturar-se entre elas e, quem sabe, conseguir um “cliente” para realizar a sua fantasia. Conseguiu. A prostituta, que um dia quis ser médica, diz que não gosta do que faz e preferia arranjar um emprego normal. Certo dia, estava no local do costume, quando apareceu um cliente.
Depois de acordarem o preço a pagar, foram para um parque de estacionamento localizado nas imediações. Chegados ao local, ela exigiu o pagamento antecipado. Enquanto aguardava que o cliente lhe entregasse o dinheiro, ele retirou uma pistola e apontou-a à cabeça dela.
“Apontou-me a pistola à cabeça e exigiu que lhe entregasse todo o dinheiro que já tinha feito. Disse que não me fazia mal, mas eu fiquei aterrorizada e entreguei-lhe todo o dinheiro que tinha comigo”, explicou, acrescentando que desde esse dia exige sempre aos clientes que paguem primeiro e deixa o dinheiro com uma amiga prostituta.

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