Dossier

Paz e conforto para carecidos

Víctor Mayala | Mbanza Congo

O Centro Frei Giorgio Zulianello, instituição de caridade da Igreja Católica, em Mbanza Congo, acolhe vários jovens e adolescentes desamparados. Muitos deles acusados de feitiçaria, encontram no centro a paz e o conforto necessários para o seu desenvolvimento.

Crianças do Centro Frei Giorgio Zulianello em momentos de lazer jogam futebol num campo existente nos terrenos da instituição
Fotografia: Adolfo Dumbo | Mbanza Congo

Kinuani Pedro Costa, 18 anos, vive no Centro de Acolhimento e de Formação Profissional “Frei Giorgio Zulianello”, em Mbanza Congo, província do Zaire. O jovem revelou, com tristeza, as peripécias por que passou no seio familiar, depois da morte da mãe.
Kinuani conta que vive há cinco anos no centro e faz parte de um grupo de 53 crianças, das quais cinco meninas, acolhidas naquela instituição de caridade da Igreja Católica.
São várias as razões que levaram essas crianças ao centro, mas os casos de acusações de feitiçaria no seio familiar são em grande número naquela instituição da Igreja.
O Centro Frei Giorgio Zulianello acolhe também crianças abandonadas, vítimas de tráfico de menores e fuga à paternidade. As idades variam entre um e 18 anos.
“Cheguei ao centro em 2006, vindo de Luanda, onde vivia com os meus pais, mas a minha mãe morreu. Algum tempo mais tarde, os meus tios decidiram enviar-nos, eu e o meu irmão mais novo, a Mbanza Congo, onde alegavam estar a maior parte dos nossos parentes, o que afinal era mentira, porque quando chegámos passámos a viver em casa de uma senhora que nem sequer pertencia à família”, disse, triste.
Rapaz franzino, de olhar inteligente, Kinuani lembra, a lacrimejar, os maus momentos que viveu na casa daquela senhora, cujo nome, por razões éticas e morais, preferiu não citar. Disse que a avó materna, que vivia na República Democrática do Congo, foi a Mbanza Congo buscá-los, mas postos lá, levou-os para casa de um kimbanda, onde os dois acabaram por ser acusados da morte da própria mãe por feitiço.
“O kimbanda colocou-me no meio de velas e fez um ritual de adivinhas e no final disse à minha avó que eu era o feiticeiro que matou a mãe”, afirmou, sublinhando que a partir daquela data começou a viver momentos de tortura física e psicológica perpetrada pela própria avó. O sofrimento apenas começava, porque a avó decidiu voltar a Mbanza Congo para solicitar os serviços de um kimbanda famoso na cura de pessoas com feitiço.
Postos na casa do kimbanda, Kinuani conta que ele e o irmão menor foram submetidos a trabalhos forçados. Acarretavam grandes quantidades de água e trabalhavam nas lavras dos vizinhos para no fim do dia apresentarem o dinheiro todo ao kimbanda.
Como já não aguentava tanto sofrimento, revoltado, Kinuani decidiu, num belo dia de manhã, fugir do controlo do kimbanda e ir até à cidade procurar a direcção do Instituto Nacional da Criança (INAC), onde denunciou a barbárie a que estavam submetidos ele e o irmão.

Reacção do INAC

Os responsáveis do INAC levaram o caso ao Tribunal, que decidiu encaminhá-los ao Centro “Frei Giorgio Zulianello”, de modo a garantir a sua integridade física e educação.
“Estou bem aqui no centro, aprendo muitas coisas com os educadores sociais. A convivência com as outras crianças tem sido salutar”, referiu Kinuani, que neste ano lectivo está a frequentar a oitava classe.
Manuel Neves, 14 anos, outro adolescente que encontrou amor e carinho no Centro, também contou a sua história à nossa equipa de reportagem. Natural do município fronteiriço do Kuimba, que fica 65 quilómetros a nordeste da cidade de Mbanza Congo, Manuel Neves conta que está no centro há três anos e tem uma longa e arrepiante história de vida, que contrasta com a sua pouca idade.
Disse que o seu drama começou quando foi viver com os pais na República Democrática do Congo, onde uma das suas irmãs adoeceu e acabou por morrer. Os pais acusaram-no de ser ele o feiticeiro que matou a irmã.
“Sofri muita tortura e com o medo fui obrigado a confessar ser eu o causador da morte da minha irmã, mesmo sendo inocente, sem saber nada do que é isso de feitiço”, disse.
Como um mal nunca vem só, Manuel disse que a situação se agravou quando a mãe, deitada doente numa cama do hospital com o tecto degradado, na RDC, um adobe cai-lhe no peito e a partir daquela data contraiu uma doença de loucura até hoje. O facto foi suficiente para outra acusação de feitiçaria do pai contra Manuel Neves. Disse que depois de tantas contradições, os pais resolveram regressar a Angola, ao município do Kuimba, para procurar um kimbanda astuto que pudesse tirar o feitiço ao filho. Postos no Kuimba, continuou, foi levado a um kimbanda, que lhe untou de cinza todo o corpo e o obrigou a girar pelo bairro inteiro, com a alegação de que o ritual servia para afugentar os espíritos malignos que se tinham apossado da sua alma.
Passados dois anos, o pai morreu por doença. Com a sua morte, conta, a loucura da mãe piorou e Manuel Neves ficou sem ninguém, passando a viver durante muito tempo nas ruas da vila do Kuimba, de onde partiu na companhia de um amigo para a cidade de Mbanza Congo, à procura de amparo. Tinham, os dois, menos de dez anos.
Em Mbanza Congo, instalaram-se durante algum tempo no mercado paralelo, onde um transeunte os encontrou numa barraca, ao anoitecer, e ficou comovido com a sua história de vida, não hesitando em levá-los a sua casa. No dia seguinte, apresentou o caso ao INAC, tendo depois esta instituição de utilidade pública conduzido as duas crianças ao Centro “Frei Giorgio Zulianello”.
O adolescente acrescentou que no Centro, além de encontrar conforto, tem recebido conhecimentos sobre as regras de convivência social, transmitidas pelos dois educadores sociais que ali trabalham.

Madre Regina Ventura

A madre Regina Ventura, responsável adjunta do centro, que recebeu a nossa reportagem na condição de interina de Frei Danilo Grosseli, director da instituição, que cumpre licença disciplinar no seu país, Itália, disse que a convivência com as crianças não tem sido nada fácil. “São crianças traumatizadas, que sofreram muito, o que as faz serem agressivas”.
“Estamos à procura de um psicólogo para fazer o acompanhamento das crianças”, disse, anunciando o arranque, ainda este mês, do curso de informática.
Adiantou que a efectivação de outros cursos como serralharia e mecânica, seleccionados para a vertente formativa do centro, está condicionada por ausência de um alpendre para a instalação dos equipamentos destinados às aulas práticas dos formandos.
Enquanto prevalecem as dificuldades, esclareceu, as crianças são encaminhadas para as oficinas de artes e ofícios do Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP), onde são formados em áreas profissionais como electricidade, mecânica, carpintaria, serralharia e canalização.
Sublinhou que neste momento 14 crianças finalistas efectuam estágio nas especialidades de serralharia e carpintaria em algumas oficinas da cidade de Mbanza Congo. A ideia subjacente, frisou, é fazer com que os jovens tenham no futuro uma profissão que possa garantir o seu auto-sustento quando um dia deixarem o centro.
De nacionalidade moçambicana, a irmã Regina Ventura está no centro há já três anos e diz que no princípio foi difícil lidar com as crianças, tendo em conta as complexas personalidades de cada uma delas, resultantes das situações traumatizantes por elas vividas.
Aquela responsável avançou que o funcionamento do centro é assegurado por seis trabalhadores, entre os quais dois educadores sociais, duas cozinheiras, um motorista e uma lavadeira.
Encontrámo-la quando acalentava ao colo uma criança de dois anos. A menina, segundo contou ao nosso Jornal, foi retirada pelos efectivos da Polícia Nacional de uma senhora com perturbações mentais. Os agentes da Ordem Pública, prosseguiu, levaram a criança ao INAC que, por sua vez, a encaminhou ao Centro.
A instituição tem desempenhado um papel importante na formação académica, física e espiritual das crianças, segundo sublinhou o educador social Manzambi André. Disse à equipa de reportagem que o seu trabalho consiste em transmitir um conjunto de conhecimentos para que os menores tenham um comportamento digno perante a sociedade.
“Estas crianças são pessoas que viveram durante muito tempo situações traumatizantes e que precisam de apoio, atenção e de receberem formação necessária, para que possam ser no futuro indivíduos úteis à sociedade”, referiu.
O centro foi criado em 2000 pelo padre diocesano Francisco Ntanda, com a designação de “Santa”. O actual nome, Frei Giorgio Zulianello, foi atribuído em homenagem ao antigo director do Centro, o frade capuchinho italiano com mais de 40 anos de Angola, que morreu em Mbanza Congo no dia 28 de Junho de 2007, vítima de acidente de aviação.  O padre “Jorge”, como era conhecido em várias partes de Angola, encontrou a morte precisamente quando saía de Luanda para tratar o processo de uma bolsa de estudo numa universidade da Itália atribuída a um adolescente do Centro que fora ali parar sob acusação de feitiçaria.

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