Dossier

Preparar o futuro com aulas feitas de sonhos

Víctor Mayala| Mbanza Congo

O programa "cidadania e emprego", lançado, em 2006, pelo Executivo,  permite a formação profissional de muitos jovens desempregados no Zaire.
A província tem cinco unidades móveis de artes e ofícios, além de dois pavilhões, nos municípios do Nzeto e Kuimba, e um centro integrado de emprego e de formação profissional, no Soyo.

O programa "cidadania e emprego", lançado, em 2006, pelo Executivo,  permite a formação profissional de muitos jovens desempregados no Zaire.
A província tem cinco unidades móveis de artes e ofícios, além de dois pavilhões, nos municípios do Nzeto e Kuimba, e um centro integrado de emprego e de formação profissional, no Soyo.
Em Mbanza Congo, 266 jovens, 82 dos quais do sexo feminino, recebem formação nas áreas de electricidade, canalização, carpintaria, alvenaria, serralharia, corte e costura, decoração e pastelaria.
Os cursos, com a duração de nove meses, decorrem nas unidades móveis de artes e ofícios do Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP), instaladas no bairro Álvaro Buta, nos arredores de Mbanza Congo.
O responsável da secção de formação e reabilitação profissional do INEFOP no Zaire, Kiniangisa João, afirmou, à equipa de reportagem do Jornal de Angola, que, desde o início do programa, em 2006, foram realizados, na província, sete ciclos formativos, que permitiram a formação de mais de meio milhar de jovens desempregados dos municípios de Mbanza Congo, Soyo, Nzeto, Tomboco e Kuimba.

Estágio profissional

Kiniangisa Kibantu disse que, no final de cada ciclo, os formandos têm estágios em empresas locais que carecem de mão-de-obra, onde muitos, que terminam o período experimental com êxito, acabam por ficar como trabalhadores efectivos.
"No município do Soyo, 85 por cento dos jovens formados no centro integrado de emprego e formação profissional conseguiu o primeiro emprego no projecto de  construção da fábrica de gás natural liquefeito, Angola LNG", revelou, sublinhando que àqueles que não sucedeu isso, o INEFOP distribui kits de trabalho para poderem criar o seu próprio negócio.
Os cursos que decorrem nas unidades móveis em Mbanza Congo, referiu, são assegurados por 16 formadores, que trabalham em dois turnos, de manhã e à tarde.
Kiniangisa Kibantu afirmou ser positivo o empenho dos formandos, não existirem, na região, dificuldades em termos de materiais consumíveis e que são recebidos regularmente apoios do Executivo, por intermédio do Ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social (MAPESS).
O único problema que o sector tem, frisou, prende-se com a falta de terreno próprio, para a instalação das unidades móveis de artes e ofícios.
O responsável provincial da secção de formação e reabilitação profissional do INEFOP disse que o local em que funcionam foi cedido temporariamente pela Igreja Evangélica Baptista de Angola (IEBA) e que, por isso, em qualquer altura podem ser desalojados.
Kiniangisa Kibantu salientou a necessidade de ser construído um centro de formação profissional em Mbanza Congo para as unidades móveis poderem servir as comunas, cujos jovens têm dificuldades em frequentar os cursos devido às distâncias que os separam da capital da província.

A voz dos formandos

Rosalina Paulo, 17 anos, que frequenta, há quatro meses, o curso de decoração e pastelaria nas unidades móveis de artes e ofícios em Mbanza Congo, declarou, ao Jornal de Angola, que já consegue fazer, entre vasos e flores, "muitos e lindos objectos decorativos".
"A minha aprendizagem está a ser boa porque os formadores são pacientes e sabem transmitir os conhecimentos durante as aulas", afirmou sorridente, revelando que escolheu a especialidade de decoração e pastelaria para, futuramente, poder contribuir no desenvolvimento do sector hoteleiro e turístico da região.
A jovem, de estatura média e magra, afiançou que depois de concluir a acção formativa, em Novembro, pretende ser formadora para transmitir os conhecimentos adquiridos a outros jovens.
"Gostava, quando era miúda, de ver o meu avô a costurar e ganhei também o gosto pela profissão", revelou com timidez, ao Jornal de Angola, Carlota Domingos, de 15 anos, que frequenta o curso de corte e costura. O sonho que acalenta é o de “vir ter uma alfaiataria onde possa ensinar outras pessoas a arte de coser".
Ao contrário de Carlota, André Júnior, 19 anos, quer ser electricista. Ao desejo somou as habilidades em física e inscreveu-se na especialidade de electricidade. É nesta área, declarou, que quer contribuir para o desenvolvimento da província e do país. E não perde tempo. Depois das aulas, põe em prática os conhecimentos que vai adquirindo.
"Já faço instalações em casas, fruto das aulas práticas", confidenciou, vaidoso, no seu fato-macaco.
A construção de sonhos, principalmente quando se tem 19 anos, não conhece barreiras e porque o saber não ocupa lugar, André, além de electricista, quer ser canalizador. Por isso, já traçou a meta imediata. Mal acabe a formação que frequenta, inscreve-se noutra, mesmo que a procura de um emprego fixo faça também parte do leque de certezas que tem.  
André Júnior exortou os jovens da região que se entretêm com vandalismo a seguirem-lhe os passos e a procurarem ser socialmente úteis, aprendendo uma profissão, deixando a lamúria do Governo nada fazer por eles. O futuro electricista não o disse, mas, provavelmente, pensava no velho provérbio chinês, que aconselha a ensinar a pescar em vez de oferecer peixe.
"É preciso que os jovens façam alguma coisa para o Governo lhes poder dar emprego", alvitrou, com a autoridade de quem sabe do que fala.

Empenho dos formandos

Isabel David, 29 anos, formadora do curso de decoração e pastelaria, regozija-se por as formandas aprenderem com facilidade.
Por enquanto, disse, ao Jornal de Angola, os produtos feitos nas aulas práticas são consumidos por alunos e professores, mas pensamos, proximamente, começar comercializá-los.        
Isabel, que aprendeu o que ensina, em Luanda, num dos centros de formação profissional da Petrangol, afirmou sentir-se orgulhosa poder participar na formação de outros jovens.
Mãe de três filhos, no final da entrevista, convidou-nos a saborear algumas fatias do bolo cremoso confeccionado pelas formandas, revelando que o que ganha "tem servido para garantir o pão dos rebentos".
Domingos Mayfuila, 29 anos, é outro formador, mas de carpintaria. É o único formado nas unidades móveis de artes e ofícios. Exerce a actividade há três anos.
Também se sente orgulhoso com o que faz, pois, entre as centenas de jovens a quem ensinou o ofício, muitos estão empregados.

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