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Receitas médicas com letra ilegível

Domingos dos Santos |

Prescrever uma receita de forma legível está entre as funções dos médicos, mas nem sempre assim acontece. Para quem trabalha atrás do balcão das farmácias decifrar o que está escrito numa receita médica é um desafio diário.

Especialista refere que a grande pressão a que estão submetidos os médicos e enfermeiros pode levar à deformação da caligrafia
Fotografia: Eduardo Pedro

Prescrever uma receita de forma legível está entre as funções dos médicos, mas nem sempre isso acontece. Para quem trabalha atrás do balcão das farmácias decifrar o que está escrito numa receita médica é um desafio diário. A dificuldade para entender a grafia de alguns médicos, às vezes, é tão grande que o vendedor se vê obrigado a desistir.
Um levantamento feito pela National Academies of Science's Institute of Medicine (IOM), nos Estados Unidos da América, revela que a má escrita dos médicos mata mais de sete mil pessoas e erros médicos causam danos a mais de 1,5 milhões de pessoas anualmente. Muitos destes erros resultam de abreviações e indicações de dosagens mal escritas e da escrita ilegível em algumas das 3,2 mil milhões de prescrições escritas anualmente nos Estados Unidos da América.
Em Angola, particularmente em Luanda, os casos de receitas médicas ilegíveis são uma constante para pacientes e farmacêuticos, que todos os dias são submetidos ao exercício de ‘adivinhar’ o remédio indicado.
Suraia dos Santos procurou um ginecologista. Depois de atendida, Suraia saiu do local com a receita e foi à farmácia, mas infelizmente não foi atendida porque ninguém entendia a letra do médico.
“Depois da consulta, fui à farmácia. O farmacêutico disse que não tinha o medicamento. Passei em mais duas, mas os funcionários não me atenderam porque não percebiam a letra do médico. Enfim, ninguém conseguiu entender”, disse Suraia.
Infelizmente, o caso de Suraia não é único. Muitos são os pacientes que vão em busca de medicamentos receitados por médicos mas, muitas vezes, o farmacêutico não entende o que está escrito na receita.
A funcionária pública Enza de Carvalho conta que muitos são os médicos que costumam “rabiscar” a receita médica, facto que pode colocar a vida do paciente em risco, na medida em que os medicamentos podem ser trocados pelo farmacêutico.
“Lembro que uma vez fiquei sem o medicamento, porque ninguém entendeu o que estava escrito na receita”, disse Enza. Acrescentou que isto pode pôr em risco a vida de quem precisa de um tratamento.

Centenas de receitas com letra ilegível

Farmacêutica há mais de 20 anos, Carla da Fonseca revelou à nossa reportagem que chega a receber mais de 100 receitas médicas por dia e que a maioria é prescrita manualmente e com letra ilegível.
Ela considera que o médico que escreve uma receita de forma ilegível ao seu paciente, além de pôr em risco a vida deste, desrespeita o código de ética médica. “A prescrição médica dever ser clara, legível. Na receita tem que constar o nome da medicação, a posologia, com os horários e a forma de usar o medicamento e, além disso, precisa de ter o carimbo e a assinatura do médico”, afirmou.
Carla da Fonseca conta que uma prescrição apresentada de maneira duvidosa pode causar danos à saúde do paciente.
“Existem alguns medicamentos com nomes muito parecidos, mas o seu uso é totalmente diferente. Neste sentido, é preciso que os médicos passem receitas com letra legível e de preferência medicamentos com prospectos em português, para facilitar-nos a vida”, disse.
A farmacêutica diz que, fruto da sua experiência profissional, tem sabido contornar essas situações. “Muitas vezes, as receitas médicas são passadas com o nome indiano do medicamento de origem e não o português. Neste caso, faço uma pesquisa na Internet para saber mais sobre este fármaco. Por outro lado, se não compreender a letra do médico, pedimos ao paciente que volte a contactá-lo no sentido de passar outra receita com letra legível”.

Receitas médicas electrónicas

O médico psiquiatra Rui Pires defende que a maneira mais prática e segura de emitir receitas e atestados é usar dispositivos electrónicos, na medida em que estes, além de auxiliar o seu trabalho, ajudam muito o paciente a compreender de maneira muito mais simples o que foi prescrito.
“O que se aconselha é que a receita deve ser legível. Nos países mais desenvolvidos, hoje, já se utiliza a receita electrónica. Isto significa que o médico passa a receita no computador no seu consultório e automaticamente a envia para o farmacêutico, que posteriormente fornece os medicamentos ao paciente”, explicou.
No caso das farmácias externas, o psiquiatra aconselha que o médico deve passar uma receita legível e se o farmacêutico não perceber a caligrafia não deve, em momento nenhum, fornecer de forma aleatória outro medicamento.
“Se a um doente lhe for prescrito um antibiótico e posto na farmácia lhe é dado um antialérgico, naturalmente estamos a prejudicar o doente duas vezes. Primeiro: não estamos a combater a doença que ele tem. Segundo: estamos a dar um medicamento para uma doença que ele também não tem. Daí que o bom senso recomenda que a receita deve ter uma letra legível”, disse Rui Pires, sublinhando que uma receita escrita de forma ilegível pode causar problemas não apenas para quem vende o remédio, mas também para quem precisa de tomá-lo.
Rui Pires é de opinião de que a pressão a que estão submetidos os médicos no seu dia-a-dia leva-os a adquirir hábitos que levam à deformação da sua caligrafia. “O médico, por defeito profissional, tem uma letra feia, isto porque no seu dia-a-dia vê muitos doentes e, por isso, adquire hábitos que lhe possibilitam captar a informação muito rapidamente e isso leva a que a sua caligrafia vai ficando cada vez mais deformada”.
O psiquiatra negou que se trate de vaidade por parte dos médicos em passar receitas com letras ilegíveis, mas sim da procura decorrente do facto de existirem poucos profissionais de saúde, em particilar os médicos, para atender um número muito grande de doentes.
“Há poucos médicos para uma procura muito grande. Daí a necessidade de o médico ter de escrever e observar os doentes de forma célere e, por isso, a sua caligrafia fica deformada. É preciso ter em atenção que o médico trabalha sob pressão e isso altera a caligrafia ao ponto de, mesmo nos ambientes mais calmos, não termos o cuidado de escrever de forma legível”.

O que diz a lei

O decreto presidencial número 180/10, de 18 de Agosto de 2010, primeira série, número 156, sobre as bases gerais da Política Nacional Farmacêutica, no seu artigo 27º, que trata da informação farmacêutica, ponto 3, refere que é obrigatório que todos os medicamentos devem fazer-se acompanhar do prospecto correspondente em língua portuguesa, contendo dados em linguagem comum.
Uma circular da Direcção Nacional de Medicamentos e Equipamentos do Ministério da Saúde, com o número 02, de 2010, sublinha que a prescrição deve ser feita usando-se a denominação comum internacional ou o nome genérico. Acrescenta que, caso se opte pela utilização do nome comercial, é importante informar ao paciente o seu nome genérico.
O Ministério da Saúde estabelece que o nome genérico deve ser adoptado para a prescrição médica em todo o Sistema Nacional de Saúde.
Apesar disso, a circular da Direcção Nacional de Medicamentos e Equipamentos abre a hipótese de o médico escolher o medicamento a ser prescrito e a origem do mesmo. No entanto, o médico deve prescrever usando o nome genérico e colocar entre parêntesis o nome comercial do medicamento.
“Pacientes alérgicos a uma determinada substância devem conhecer o problema e qual o real agente causador, para a sua segurança”, refere a circular, assinada pelo director Nacional de Medicamentos e Equipamentos do Ministério da Saúde. Boaventura Moura acrescenta que isto evita o risco e erro de um paciente dizer ser alérgico a antibióticos quando o responsável é apenas a penicilina.
“O paciente pode ainda afirmar ser alérgico apenas a um produto contendo penicilina, mas não a um que contém ampicilina ou amoxicilina”, sublinha a circular, acrescentando que a prescrição de medicamentos, em clínica, devia ser da responsabilidade única e exclusiva dos médicos, mas por serem insuficientes, cabe também ao enfermeiro.

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