Dossier

Um lugar para busca de sobrevivência

João Dias |

A praça dos Correios, o maior mercado informal de acessórios de automóvel do país, impressiona pela dimensão e capacidade de resposta.

Pormenor de venda de acessórios de diversas marcas e modelos de carro ao ar livre no maior mercado do ramo em Angola
Fotografia: Jornal de Angola

A praça dos Correios, o maior mercado informal de acessórios de automóvel do país, impressiona pela dimensão e capacidade de resposta.
“Eles vendem até aquilo que pensamos nunca encontrar, é impressionante”, afirmou, ao Jornal de Angola, um comprador.
A dinâmica é estonteante e o “modus operandi” dos vendedores é fascinante e eficaz. Basta chegar ao mercado com uma viatura para, de repente, estar envolto por uma “maré” de vendedores, que repetidamente procuram saber o que o automobilista precisa.
“Kota, precisa de alguma coisa?”, perguntam todos ao mesmo tempo, sem qualquer cerimónia.
A disputa pelo cliente torna-se mais intensa quando este abre os vidros ou desce do carro. “Fui eu quem lhe fez parar. Kota, quer pôr um brilho no seu carro?”
O frenesim e agitação são típicos no local. “Aqui tens de te entregar à luta, tens de lutar pelos clientes. Há vezes que tens de começar o trabalho sem mesmo autorização dele a ver se lhe convences. Mas nem sempre resulta. Já ia apanhando umas surras por ter pintado de prateado as jantes de um Cherokee”, lembra Francisco Afonso, 21 anos.
Este é apenas um dos lados dos Correios. Tal como se pode ir com o carro amarfanhado e de lá sair com ele renovado, é também um mercado que pode ajudar as pessoas a montar uma viatura aos poucos, qualquer que seja a marca. Não são engenheiros e muitos deles não passaram por uma escola. Apesar disso conseguem sempre, com produtos e peças adquiridas no próprio mercado, fazer alguma coisa para no final de cada dia levar pão à mesa.
Mário Lopes conta que montou a sua viatura, uma Toyota Hiace, a partir do simples chassi. Permanecemos cépticos diante da sua convicta afirmação, mas depois de algumas idas e vindas pelo vasto mercado, ficámos convencidos. Há portas laterais de carros, veios de transmissão, faróis, motores de arranque, bombas injecras, pneus e jantes, enfim, há tudo que se possa imaginar nos quatro cantos da praça.
No enorme mercado há bancadas improvisadas feitas com pequenos troncos e pedaços de tábuas, mas também lojas bem constituídas e organizadas. Há barracas de comes e bebes no lugar de restaurantes. O mercado não é apenas de peças, é também de produtos como telemóveis e acessórios, roupas, alimentos, material de construção e todo tipo de ferramentas.

Cenário e acessos

Apesar disso, o cenário é pouco convidativo. As vias da sétima esquadra e a do Bairro Popular, as únicas que dão para o mercado, estão em más condições. Quando chove, os acessos e mesmo o interior da praça ficam alagados com uma lama preta, que cheira a podre. Quando não há chuva, o problema passa a ser a poeira. Há queimadas de amontoados de lixo e o fumo torna o ambiente desconfortável. Não há dramas, pois não há quase nada de trágico para quem ali trabalha.  “Estamos habituados a isto, mas queríamos que a higiene e o saneamento melhorassem”, disse Abel Kassungo, vendedor de acessórios há oito anos.
Entre gritos de anúncio de produtos, música alta, buzinas de carros, o ambiente é bastante denso para qualquer mortal.
No meio da multidão de compradores e de vendedores, roboteiros e até ladrões, Paulo Pinto vindo da Nhareia, município do Bié, procura um motor completo para o seu Toyota Starlet que, conseguido com o suor da sua lavoura, lhe vai dando dores de cabeça.Disse que tinha passado por um incalculável número de casas, dedicadas ao negócio, instaladas ao longo da estrada principal do Bairro Popular, mas que os preços eram impraticáveis para o seu bolso de camponês.
Tem a certeza que ao comprar o motor, embora de ocasião, o problema do seu pequeno carro fica resolvido. O preço oscila entre 1.200 a 1.300 contra os 1.700 dólares pelo que são vendidos nos armazéns que se estendem ao longo da estrada principal do Bairro Popular.
No mercado, os preços são módicos e as peças de ocasião existem para todas as marcas e modelos de carro. Quando menos pensamos, as que procuramos estão diante de nós aos montes.
“Aqui o segredo é perguntar e ter paciência”, afirmou um cliente à nossa reportagem.

Vendedores estrangeiros

No mercado há uma confluência de nacionalidades. Mas o negócio é dominado por nigerianos, embora congoleses democratas e outros africanos também participem. Se os demais dependem das chamadas “casas de processo” para guardar o negócio, os nigerianos não precisam disso, pois os seus produtos são vendidos em Hiaces e são mesmo estes carros que servem de depósito. Parte considerável dos nacionais vende acessórios de ocasião, diversos dos estrangeiros que os comercializam novos. Vendem de tudo um pouco, em matéria de acessórios. Certificados ou não, o certo é que há centenas de carros a circular graças às peças adquiridas naquele mercado.
A escassez de acessórios e os preços altos nas casas especializadas e em algumas concessionárias justifica a procura nos Correios. Um escape para frustração.
Para lá das vendas de peças, no mercado estão interligadas diversas actividades. Jovens com carrinhos de mão feitos de madeira circulam no interior da praça à procura de um trabalho. São os transportadores das mercadorias dos vendedores, também conhecidos como “roboteiros”.
Tiram-nas da “casa de processo” para as bancadas improvisadas todos os dias. Afonso Kalenga, natural da Ganda, tem 28 anos. Trabalha no mercado há quatro e o seu ganha-pão é o carrinho de madeira. Das 8h00 às 16h00, consegue de dois mil a 2.500 kwanzas.
“Consigo este dinheiro por ter um número fixo de vendedores a quem presto serviço. Já não estou muito frustrado como antes, pois consigo satisfazer as minhas necessidades básicas”, afirmou.
À semelhança de Afonso Kalenga, muitos são os jovens que ganham a vida a prestar pequenos serviços dentro do mercado. “Meu irmão, não tenho vergonha de te dizer isso! Eu não estudei. Se não fosse o mercado, não sei o que seria da minha vida. Aqui não tiro muito, mas o que ganho dá para manter as panelas em dia”, confidenciou Lima Generoso, um vendedor de longos anos.

Dificuldades com as chuvas

Kassungo é ex-militar e desde que foi desmobilizado, nunca mais encontrou outro emprego. O seu trabalho resume-se à venda de peças, desde os tempos do extinto mercado da Kalemba nos anos 1980.  Hoje, na casa dos 40, garante não ter brechas para sonhos: “consegui construir a minha casa e pôr os meus filhos na escola. Já não me vejo a trabalhar noutro lugar”.
Também ele fala do lixo, dos acessos e de organização e refere ser preciso que se melhore este quadro. “Com as chuvas, as coisas vão ser mais difíceis para os vendedores”, prevê.  

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