Dossier

Unidades hoteleiras com baixa ocupação

Isidoro Natalício| Ndalatando

As unidades hoteleiras e similares das duas cidades do Kwanza-Norte, Ndalatando e Dondo, apresentam taxas de ocupação abaixo de um terço, desde a sua entrada em funcionamento, há sensivelmente dois anos.
O Miradouro, único hotel na capital da província de três estrelas e dotado de 34 quartos, tem tido uma ocupação média de dez quartos por dia, segundo o seu director-geral, José Amador.

O Miradouro é a única unidade hoteleira na capital da província do Kwanza-Norte com a categoria de três estrelas
Fotografia: Nilo Mateus| Ndalatando

As unidades hoteleiras e similares das duas cidades do Kwanza-Norte, Ndalatando e Dondo, apresentam taxas de ocupação abaixo de um terço, desde a sua entrada em funcionamento, há sensivelmente dois anos.
O Miradouro, único hotel na capital da província de três estrelas e dotado de 34 quartos, tem tido uma ocupação média de dez quartos por dia, segundo o seu director-geral, José Amador.
A cobrar 10 mil kwanzas por noite, a pensão Confortos tem 26 quartos e, em regra, apenas quatro são utilizados, enquanto a pensão Oliveira, no Dondo, vê os seus seis quartos utilizados quase só às quintas, sextas-feiras e sábados, segundo o seu proprietário, Fernando Oliveira.
Quanto à alimentação, o Miradouro vende em média 15 almoços por dia, o Oásis tem a exclusividade dos banquetes promovidos pelo governo, o restaurante Fernanda serve mais de 80 refeições, porque tem contrato de fornecimento com empresas, e as demais unidades fazem comida por encomenda, por insuficiência de clientes.
Hospedarias, hotéis e restaurantes existem também nas vilas de Camabatela, Golungo Alto e Lucala, vivendo situações semelhantes ou piores em relação aos das cidades da província.
Os rendimentos actuais da hospedaria Oliveira não justificam a sua ampliação. Porém, tal podia ser feito numa perspectiva de investimento com efeitos a médio ou longo prazo, disse o proprietário.       
Até ao final do corrente ano, o quadro pode ser ainda mais sombrio, a julgar pela disponibilidade de mais 250 quartos, repartidos por cinco hotéis, de três e quatro estrelas, em Ndalatando, e outros 50 no Dondo.

Estagnação nos rendimentos

Em condições normais, quando há estagnação nos rendimentos, os salários não sobem, ganhando corpo a possibilidade de redução do pessoal e inerentes encargos com compensações, disse o mestre em Gestão Económica Jeremias Bartolomeu. "A estagnação é uma realidade e já há sinais de falência técnica de algumas unidades hoteleiras no Kwanza-Norte", disse.
Em termos orçamentais, um relatório do Ministério das Finanças revela que os impostos sobre consumo de serviços hoteleiros e similares geraram no Kwanza-Norte 5,3 milhões de kwanzas no primeiro semestre do corrente ano, contra os 2,1 milhões no mesmo período do ano passado.
A realidade do Kwanza-Norte, com semelhanças aparentes a regiões como Moxico, Bié, Kuando-Kubango, Zaire, Lundas Norte e Sul e, em certa medida, Uíge, sugere a adopção de políticas públicas agressivas e eficiência no desempenho do empresariado actual, geralmente limitado e sem tradição no ramo.
As políticas devem privilegiar a exploração séria das potencialidades turísticas e culturais, e a realização regular de torneios desportivos, entre outros, aconselha Jeremias Bartolomeu.
Os operadores do ramo defendem celeridade na concessão de terrenos, reparação dos acessos, extensão da água e energia eléctrica a certas áreas, formação de técnicos e organização de eventos com impacto abrangente.
Os agentes hoteleiros locais defendem o surgimento de promotores culturais, agências de viagens e a criação de pacotes turísticos nos hotéis, pousadas e restaurantes. "O horto-botânico do Kilombo, em Ndalatando, deve ser melhorado e posto ao serviço do turismo", disse.
O Kwanza-Norte tem ainda por aproveitar motivos de encanto, como as furnas do Zanga, Cacolombolo, quedas de Kissuba e cachoeiras dos rios Lucala, Mandambela e Muembeje, monumentos e sítios em Massangano, Samba Caju e Ambaca.
O economista Jeremias Bartolomeu acrescenta locais que estimulam a investigação académica e o turismo histórico, como as zonas onde a rainha Nginga Mbandi viveu e provavelmente foi sepultada, no perímetro entre SambaLucala (Kwanza-Norte) e Calandula, na província de Malange.
A navegação com fins recreativos em barcos modernos no perímetro do Baixo Kwanza (Dondo até às proximidades da Barra do Kwanza) pode também ser promovida, pois podem contemplar-se ilhas no percurso, comunidades i­so­ladas, flora rara e a sensação de liberdade do movimento das águas.
Disse ainda que a Cultura devia funcionar na base de uma agenda anual, que contemple festivais, galas, concursos e lançamentos de obras literárias, musicais, danças, gastronomia, artesanato e todas as formas de manifestação cultural que se esmeram na qualidade e dimensão organizativa.  
A força das actividades culturais, para a dinamização da economia, ficou bem patente na recente Feira do Dondo, que levou àquela cidade tricentenária mais de 200 visitantes, entre nacionais e estrangeiros e viu esgotados, num ápice, os 30 quartos existentes nos hotéis locais, salientou o gestor.
"Todos saíram a ganhar, porque livreiros, discotecários, agricultores, pescadores, cervejeiros, donos de bares e artesãos também venderam. O convívio entre mais de cinco mil pessoas, durante três dias, revelou-se uma jornada de dinamização social e económica", acrescentou.

Estratégia de marketing

A dinamização do turismo, eventos culturais e fóruns temáticos a diversos níveis deve obedecer a uma estratégia de marketing de consentimento ou de intromissão nas agências de viagens, por um lado, e, por outro, com recurso às diferentes variantes da comunicação.
A directora provincial do Kwanza-Norte do Comércio, Turismo e Hotelaria, Maria da Conceição Garrido, já efectuou um levantamento dos recursos turísticos locais. Especialistas aconselham que a seguir deve ser feita a elaboração de um roteiro turístico que, a par da agenda cultural, e não só, beneficiariam com a incidência das diferentes ferramentas da comunicação externa e mediática.
Os públicos-alvo devem ser as cidades vizinhas, as mais habitadas e em particular Luanda, o maior centro populacional do país, a 257 quilómetros de distância de Ndalatando, com ligações ferroviárias e rodoviárias em excelentes condições e que por isso facilitam a mobilidade de turistas.   
Os números demonstram que o Kwanza-Norte ainda é uma zona de passagem, ao contrário da vizinha província de Malange, ou do Uíge e Huambo, também flageladas pela guerra, mas que se afiguram hoje como destino turístico, a julgar pelos conselhos consultivos de departamentos ministeriais, conclaves, campeonatosdesportivos, visitas de negócios, passeios e outros, que albergam.
Tudo isso acontece porque há uma forte estratégia de marketing dos governos provinciais, explicou Conceição Garrido.
Se isso for feito no Kwanza-Norte, a província sai a ganhar, afirmou a directora provincial.

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