Dossier

Ventos do progresso em Dala Chiluage

Adão Diogo|* Dala-Chiluage

Uma canção entoada por 15 alunos de batas brancas e perfilados em recinto aberto, no início de uma aula de música, dirigida pelo professor José Brandão, funcionou, por mero acaso, como mensagem de boas-vindas a dois repórteres da Edições Novembro, à chegada à aldeia de Dala Chiluage.

Alunos de batas brancas perfilados em recinto aberto na aldeia de Dala Chiluage no início de uma aula de canto coral
Fotografia: Flávia Massua|Dala Chiluage

Uma canção entoada por 15 alunos de batas brancas e perfilados em recinto aberto, no início de uma aula de música, dirigida pelo professor José Brandão, funcionou, por mero acaso, como mensagem de boas-vindas a dois repórteres da Edições Novembro, à chegada à aldeia de Dala Chiluage.
Uma grande sensação de paz e de alegria invade o íntimo do visitante, ao divisar dezenas de casas modestas, no meio das quais desponta uma torre com um depósito de água potável, edificado em betão armado, a escola e o posto médico, que vêm do tempo colonial.
Este grupo de infra-estruturas garante a formação dos 300 alunos matriculados este ano lectivo, da iniciação à quarta classe, e assistência médica diária a 30 pessoas de uma população de 1.750 habitantes, que vivem num ambiente de ordem e higiene.
Cultivam a terra para obter o alimento. Da caça e da pesca resultam a carne e o peixe, indispensáveis na dieta alimentar, marcada essencialmente pelo consumo do funje de bombó, que justifica a produção, em grande escala, da mandioca. A lista de produtos alimentares engloba ainda a batata-doce, feijão, jinguba e arroz, em quantidades ínfimas devido à fraca procura no mercado local e a dificuldades de processamento e escoamento.
Os nove anos de paz que o país vive incentivaram a reinstalação das pessoas nas suas áreas de origem e o desenvolvimento desabrocha, lento, mas activo. A visita de uma de uma delegação do governo da província a Dala Chiluage para avaliar as condições disponíveis para instalação de sistemas de bombagem de água, desponta como luz ao fundo do túnel que renova as esperanças na concretização de outros serviços sociais.
"Precisamos de instrumentos agrícolas e autocarros públicos", pediu o regedor Joaquim Mukolo, em nome da população, numa conversa com a nossa equipa de reportagem sobre a situação na regedoria, onde "os sobas não recebem subsídios desde Novembro de 2010", mesmo depois de cumpridas todas as exigências de abertura de contas individuais no Banco de Poupança e Crédito (BPC).
Disse não compreender como é que depois das pessoas abrirem contas, para receber os subsídios via banco, quase nove meses depois, continuem sem receber o dinheiro a que têm direito.

Crença no feitiço

As preocupações expressas pela autoridade tradicional estendem-se à desagregação de famílias por crença no feitiço, dificuldades de acesso ao crédito agrícola de campanha, falta de professores para ministrar aulas de alfabetização e de maridos que batem nas mulheres.
Ernesto Mwatxiqueno concentra o olhar sobre as partículas de chumbo que molda, martelando leve, ligeiro e paciente. O produto serve para rechear cartuchos de caçadeira, cuja venda lhe permite resolver parte dos problemas.
Conferindo o número de cartuchos vazios numa sacola, ao seu lado, explica que a iniciativa encoraja o exercício da caça, mas é da agricultura que obtém grande parte do sustento para a família.
Mwatxiqueno é pai de três filhos menores, um matriculado na segunda e outro na terceira classe, "para não serem apenas camponeses" como ele. Ao receber um exemplar do nosso diário levado com o propósito de actualizar parte dos acontecimentos que ocorrem no país e no mundo, salientou a importância dos órgãos de comunicação social numa altura em que "o país prepara as condições para realizar eleições no próximo ano".
Sentado numa cadeira de rodas na sala de aulas, Domingos Itamba, 14 anos, que frequenta a quarta classe, mostra parte do que aprendeu com o professor Domingos André. Lê e prova dominar a tabuada para "ser um engenheiro agrónomo competente". Vive apenas com a mãe, que o incentiva a estudar todos os dias "para ser alguém um dia".
Na sala de consultas do posto de saúde, o enfermeiro Mateus Casimiro destaca as dificuldades ligadas à construção e uso de latrinas por parte da população. Por conta dessa postura e de outros factores, a malária, prisão de ventre, diarreias, dores na coluna e doenças respiratórias agudas dominam as queixas apresentadas pelos pacientes atendidos diariamente no posto de saúde pelo único enfermeiro, com uma experiência de 30 anos, iniciada como promotor de saúde.

Circulação constrangida

Do quadro esboçado pelo administrador comunal de Chiluage, Francisco Martins, despontou a necessidade urgente de reabilitação dos cerca de 90 quilómetros da estrada que separam a vila da sede de Muriége, na Estrada Nacional 180, atrasos na construção de três casas geminadas, escassez de salas de aulas e de professores.
A região, a norte do município de Muconda, ocupa uma superfície de 9.660 quilómetros quadrados e uma população estimada em 8.212 habitantes, que sobrevivem, essencialmente, da agricultura, onde desponta a mandioca, o arroz, a jinguba.

Infidelidade masculina para aumentar a família

O soba grande do Chiluage, Romeu Mulowenu, está confiante nos esforços do governo para ultrapassar os "muitos problemas" que a população enfrenta. Além da estrada, referida pelo administrador comunal, nota morosidade no início de um projecto que contempla a construção de 60 casas sociais, de escolas para dez comunidades no interior e pagamento de subsídios de 12 meses a 14 sobas.
Minimiza as questões ligadas ao ciúme por infidelidade entre casais, considerando que o adultério "faz parte" da masculinidade e concorre para o aumento da família. Confirma a difusão da crença no poder do feitiço e que em circunstâncias de conflito por suspeita de posse e uso do feitiço, os interessados consultam um quimbanda para se certificarem do facto e exorcizarem os métodos que facilitem a entrega do feitiço por parte do possuidor.

Imigração ilegal

A contenção do fenómeno migratório ilegal, incentivado pelo aumento da oferta de serviços para dignificar as populações, exige das autoridades competentes a intensificação do trabalho de levantamento e sensibilização das comunidades que vivem ao longo da fronteira, tendo em vista a sua participação no sistema de vigilância, controlo e protecção do território, declarou, em Chiluage, o delegado provincial do Interior, Abel Baptista, durante um acto que assinalou o dia do sector.
Abel Baptista, ao enumerar parte dos principais objectivos que atraem os estrangeiros em situação ilegal, salientou "o interesse pelo alcance e instalação nas grandes cidades, vilas, áreas de garimpo de diamantes, pesca e caça, produção e comercialização de estupefacientes, exploração de madeira e fomento da actividade religiosa".
Abel Baptista exige, por isso, dos efectivos da Polícia de Guarda Fronteira medidas para repor a ordem e tranquilidade desejadas nos mais de 280 quilómetros de fronteira fluvial que confinam a leste o nosso país com o Congo Democrático.
A formação contínua dos agentes da Polícia de Guarda Fronteira, planificação autónoma de micro operações para detectar e frustrar todas os actos contrários ao que prescreve a carta magna do país, investigações para descobrir comités de recepção de estrangeiros e de novos corredores de entrada, mediante o cumprimento rigoroso de orientações baixadas nas distintas missões, uso racional dos meios e equipamentos distribuídos, rechearam as linhas de força apontadas pelo número um do Ministério do Interior na província.
Quanto ao quadro de criminalidade, disse que está sob controlo, mas sublinhou, do balanço apresentado no ano passado, a notificação de 715 crimes de natureza diversa, 705 dos quais esclarecidos, e operações que resultaram na detenção de 149 pessoas.
A província registou 362 acidentes de viação, que mataram 75 pessoas, feriram 402 e prejuízos materiais avaliados em mais 36,4 milhões de kwanzas, num balanço que inscreve também a deflagração de 138 incêndios.

*Com Flávia Massua

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