Dossier

Vias degradadas afectam o campo

Fernando Neto| Mbanza Congo

A falta de condições para escoamento dos produtos, devido ao mau estado das estradas da província do Zaire, tem vindo a dificultar a actividade dos 20 mil agricultores distribuídos em 118 cooperativas e 268 associações de camponeses, que fazem do campo a "tábua de salvação" para a auto-suficiência alimentar e combate à pobreza.

Momento em que o responsável do Banco do Comércio e Indústria (BCI) procedia à entrega formal do crédito a uma camponesa
Fotografia: Adolfo Dumbo| Mbanza Congo

A falta de condições para escoamento dos produtos, devido ao mau estado das estradas da província do Zaire, tem vindo a dificultar a actividade dos 20 mil agricultores distribuídos em 118 cooperativas e 268 associações de camponeses, que fazem do campo a "tábua de salvação" para a auto-suficiência alimentar e combate à pobreza.
O sucesso da actividade agrícola no Zaire pode encontrar respaldo se os camponeses optarem pelo crédito Agrícola que o BCI está a aplicar. O governador do Zaire, Pedro Sebastião, diz que o Programa Crédito Agrícola de Campanha, em curso na região, depende muito de dois aspectos fundamentais: a problemática das estradas degradadas e a falta de uma rede de transportes que possibilite o escoamento dos produtos agrícolas das sedes comunais, municipais e provincial para os grandes centros de consumo.
"Sabemos que muitos de vós já produzem há longos anos, mas o resultado do vosso trabalho acaba por se estragar nas zonas de cultivo, porque não têm a possibilidade de transportar a mercadoria para os centros de consumo", disse.
Pedro Sebastião teceu estas declarações à margem do acto que marcou na passada semana a abertura do programa de concessão do Crédito Agrícola, que beneficiou na primeira fase 55 agricultores organizados em cooperativas e associações.
O governador do Zaire afirmou que desde o fim do conflito armado, Angola tem vindo a alcançar níveis altos de crescimento económico, situação que, segundo ele, ainda não se reflecte positivamente na vida de todos os cidadãos, principalmente os habitantes das zonas rurais.
Por essa razão, continuou, o Presidente José Eduardo dos Santos orientou a execução a nível rural do crédito agrícola. Um projecto que, no seu entender, procura levar os ganhos do crescimento económico a todas as regiões de Angola, sobretudo as zonas rurais, onde as populações mais sofreram as agruras da guerra.
O governador pediu, por isso, o envolvimento efectivo dos administradores municipais, comunais e autoridades tradicionais no programa, para que nenhuma parte da província se sinta excluída do processo.
Pedro Sebastião mostrou-se satisfeito com os passos dados, apesar das dificuldades, e disse:
"Agradecemos a todos que contribuíram para que este programa se concretizasse na província do Zaire. Garantimos que vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que este crédito sirva de facto os interesses da nossa população", rematou.

Agricultores

Maria Diavua, da associação familiar de Mbococo, na aldeia da Bela Vista, comuna do Luvo, onde cultiva mandioca, laranja, banana, ananás e repolho, diz que enfrentam muitas dificuldades, por não possuírem meios para transportar os produtos até ao município do Soyo, um dos mercados mais competitivos da província do Zaire.
Apontou a escassez de sementes agrícolas, dinheiro para pagar os trabalhadores e aumentar novas áreas de cultivo, tendo em conta o longo período que já trabalham a terra. "Temos transportado os sacos de couve e outros produtos na cabeça, do campo até ao mercado transfronteiriço do Luvo", afirma.
A presidente da União Nacional dos Camponeses de Angola (UNACA) no Zaire, Amélia Alice Calasse, confirmou o cenário que os mais de 20 mil camponeses da província atravessam.  
"O camponês não tem dinheiro, instrumentos de trabalho, nem meios de transporte. A pobreza está muito acentuada no meio rural e, por isso, o Executivo tomou a iniciativa certa, ao ajudar os camponeses com material de cultivo para diminuir a fome e a pobreza", disse.

Assinatura de contratos

Manuel Sarmento, da cooperativa TKS, recebeu crédito de 291 mil kwanzas. No acto formal da entrega do crédito esteve o presidente do Conselho de Administração do Banco do Comércio e Indústria (BCI), Adriano Pascoal, e o vice-ministro da Agricultura para os Recursos Florestais, André de Jesus Moda. Manuel Sarmento recebeu ainda um kit simbólico composto por duas enxadas e uma catana.
O presidente do Conselho de Administração do BCI informou aos presentes que 55 camponeses afectos à cooperativa BKS, 14 agricultores da associação Zola e um camponês individual receberam naquele dia o crédito agrícola de campanha num montante equivalente em kwanzas a cinco mil dólares americanos.
Adriano Pascoal acrescentou que o Estado, por considerar os camponeses uma força importante do tecido social, deseja que esta franja da sociedade assuma a responsabilidade de ter uma participação activa no processo de recuperação económica de Angola.  
"A oportunidade está aqui, vocês têm tudo para poder trabalhar e mudar o curso das vossas vidas. O Executivo espera que vocês produzam, tanto para o consumo familiar, como também para vender no mercado", enfatizou.
Para isso, o Executivo vai custear 16 por cento dos juros do crédito e os camponeses pagam num horizonte de dez meses apenas cinco por cento de juros, de modo a prevenir o sufoco financeiro atinente aos custos do crédito.
"Para um camponês que faz um crédito de mil dólares, reembolsa apenas os mil dólares do crédito mais 50 dólares dos juros. Os restantes 150 de juros, o estado é que vai pagar", esclareceu Adriano Pascoal.

Reembolso e acesso ao crédito

Adriano Pascoal afirmou haver possibilidades dos agricultores beneficiários do crédito agrícola de campanha pagarem em dez meses os valores cedidos pelo banco, tendo em conta a colheita e venda de hortícolas e cereais plantados ao longo desse período.
Para facilitar o acesso ao crédito de todos os agricultores interessados, foram criados comités de pilotagem do crédito e grupos técnicos de acompanhamento ao nível local, que trabalham em estreita coordenação com as autoridades municipais, comunais, tradicionais, entidades religiosas, direcção provincial da agricultura e o BCI, com a finalidade de identificar ao nível individual e das associações de camponeses pessoas que tenham o perfil adequado para o acesso ao crédito.
Uma vez identificados os camponeses, os técnicos do grupo de acompanhamento, em estreita coordenação com o BCI, reúnem os processos necessários para que sejam elegíveis à obtenção do crédito agrícola de campanha.
A intenção do Executivo reside na possibilidade dos camponeses darem um salto, da condição de micro camponês para médio. O camponês que faz depósitos de reembolso regulares ao banco, está habilitado a outro montante superior de empréstimo, esclareceu Adriano Pascoal.
O responsável do BCI citou que devido a situações de fraca responsabilidade que tiveram lugar no passado, o Executivo entendeu atribuir o crédito em espécie, seja sob forma de concessão de instrumentos de trabalho para a agricultura ou inputes para o desenvolvimento agrícola.
"A nossa experiência mostrou que a outorga de crédito em dinheiro é problemática, porque, nalguns casos, existiram camponeses que, por não assumirem plenamente a responsabilidade, direccionavam os empréstimos para outros fins que não a agricultura", disse.
Adriano Pascoal afirmou que os camponeses que não forem capazes de reembolsar o crédito no prazo estipulado são inscritos na Central de Riscos de Crédito do Banco Nacional de Angola e irradiados da obtenção de qualquer empréstimo bancário, seguindo-se os procedimentos judiciais que obrigam o endividado a honrar os seus compromissos.    
O responsável do BCI solicitou às autoridades municipais, da agricultura, os grupos técnicos de acompanhamento e os comités de pilotagem no sentido de prestarem toda a atenção possível aos preços praticados pelo fornecedor de inputes agrícolas e outros materiais de produção, de modo a que os produtos cheguem ao mercado a um preço razoável e o agricultor também tire rendimento do seu trabalho.

Recursos florestais

O vice-ministro da Agricultura para os Recursos Florestais, André de Jesus Moda, sublinhou a importância do crédito agrícola de campanha para a mudança da situação económica das populações, referindo que o "crédito agrícola significa credibilidade".
O vice-ministro chamou a atenção dos agricultores para cuidarem dos bens  que possuem para evitar que lhes seja retirado o direito do merecimento.
"Se forem capazes de interpretar correctamente o interesse do Executivo em atribuir o crédito bancário para trabalharmos a terra, vão dar conta que têm de ser responsáveis nesta tarefa.
 Vocês devem saber repor o dinheiro emprestado para ganhar credibilidade junto do banco, de maneira a habilitarem-se a outros valores mais elevados", disse o governante, sublinhando que na tarefa de reconstrução do país cada um dos angolanos deve dar o seu contributo a partir da sua área de trabalho.

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