Dossier

Vidas destroçadas pelo uso de drogas

Josina de Carvalho |


“Eu sou o Fernandes, sou alcoólico”. Após esta apresentação, que é tradicional, na reunião dos Alcoólicos Anónimos, Fernandes conta que entrou para o grupo há mais de um ano, depois de ter reconhecido que é um alcoólico, porque “admitir isso é essencial para a nossa recuperação”.  reportagem|5

No grupo de Alcoólicos Anónimos os membros não são submetidos a nenhuma terapia especial para deixarem o vício
Fotografia: Miquéias Machangongo

“Eu sou o Fernandes, sou alcoólico”. Após esta apresentação, que é tradicional, na reunião dos Alcoólicos Anónimos, Fernandes conta que entrou para o grupo há mais de um ano, depois de ter reconhecido que é um alcoólico, porque “admitir isso é essencial para a nossa recuperação”.
Fernandes, quando partilhava com os companheiros do grupo as suas inquietações, disse que muitas vezes fica irritado porque muita gente ainda duvida que seja possível deixar de consumir álcool. “Sei que cometi muitas asneiras e magoei muita gente, principalmente a minha família. Sei também que não vou reparar da noite para o dia, os danos que causei”, disse Fernandes.
 Há duas semanas completou o seu 35º aniversário. Nesse dia recordou que nos anos anteriores começava a beber logo pela manhã, para comemorar a data: “bebia até à hora de apagar as velas e nessa altura já estava completamente embriagado e, às vezes, a dormir de tanta bebedeira”.
Fernandes fica triste com as recordações. Mas está contente, por cumprir há quatro meses o programa de recuperação, depois de um período de desistência.  
Quando chegava atrasado ao emprego ou faltava à segunda-feira, porque bebia tanto álcool durante o fim-de-semana que ninguém conseguia pôr-se de pé para ir trabalhar, arranjava mil e uma desculpas. Umas vezes era porque não conseguiu estacionar, outras porque estava doente, ou mesmo porque a caminho do emprego teve de ir de urgência ao hospital. Mas com a repetição das mentiras, toda a gente no emprego percebeu que ele estava a inventar: “só não fui demitido porque o chefe ganhou simpatia por mim, por causa do meu trabalho”.
Fernandes é diplomata. Admite que deixou passar muitas oportunidades na vida por ser alcoólico. “O barco dos outros andou e o meu ficou parado”, reconhece.


Um drama familiar

Fernandes perdeu também o respeito no seio familiar e correu o risco de ser abandonado pela mulher, com quem tem uma filha de oito meses. Implorou-lhe que regressasse e decidiu abandonar o álcool. Quando soube que o irmão mais velho frequentava um grupo de Alcoólicos Anónimos, resolveu acompanhá-lo, para acabar com o drama familiar em que estava mergulhado. “Cheguei à conclusão de que se ele conseguia estar sem beber, eu também podia fazê-lo”.
Por intermédio do irmão, Fernandes entrou no grupo e hoje sente-se mal quando falta. “Quando estou com o grupo, sinto uma paz tão grande que é difícil explicar”. Ele gosta de estar no grupo, sobretudo porque pode partilhar os seus problemas com companheiros que também estiveram na mesma situação e querem recuperar, como ele. “Entrar neste grupo foi uma das melhores coisas que fiz na vida”.


Dependência saudável


Gabriel, 43 anos, também atribui grande importância às reuniões do grupo de Alcoólicos Anónimos. Técnico de climatização e ventilação, diz que as reuniões são tão importantes como o ar que respira e a água que bebe. À semelhança do companheiro Fernandes, sente-se mal quando falta. “Tenho medo do que vai me acontecer, se um dia o grupo deixar de existir”.
Gabriel decidiu abandonar o álcool há sete anos. Vivia em Portugal com a família, quando percebeu que estava viciado no álcool. Depois de ter brigar com a mulher, abandonou o lar. Nesse dia, arrendou um quarto e bebeu um garrafão de vinho sozinho, para esquecer os problemas familiares.
 “Quando a bebedeira passou, olhei para o espelho e notei que estava com um aspecto horrível, a cara inchada, os olhos avermelhados, barba grande e despenteado”. Naquele momento pensou que ia enlouquecer, como consequência do consumo excessivo de álcool, e imaginou que as filhas não iam ter quem as sustentasse, se ficasse louco. “Um companheiro disse-me que aquilo foi um aviso de Deus, para que despertasse e mudasse de vida”.
Imediatamente regressou a casa e comunicou à família que estava disposto a procurar ajuda para livrar-se do vício. A mulher tinha o contacto dos Alcoólicos Anónimos e ele começou a frequentar as reuniões. Gabriel recorda que na primeira reunião disseram-lhe que era a pessoa mais importante do grupo e que devia ouvir atentamente os depoimentos dos companheiros para encontrar em cada um, mais as semelhanças do que as diferenças. Segundo os companheiros, disse, este exercício levava-o à recuperação.
“Enquanto ouvia os companheiros, eu só chorava. Era como se cada um deles estivesse a contar a minha história”. A partir daquela data, Gabriel nunca mais bebeu, nem deixou de participar nas reuniões. Depois do seu regresso a Angola, passou a reunir com companheiros que pertenciam ao grupo Alcoólicos Anónimos de Benguela, no quarto de um deles, em Luanda. No dia 9 de Maio de 2009 decidiram fundar o grupo “Viver Sóbrio”.
Para Gabriel, quando uma pessoa está sob o efeito do álcool, não está a viver, nem tem liberdade para escolher entre beber ou ficar sóbrio. “Hoje tenho liberdade de escolher beber uma água ou um sumo. Mas não posso beber uma cerveja. Porque a minha sobriedade está à distância de um copo. No dia que beber um copo, toda a minha sobriedade vai abaixo”.
Um alcoólico em recuperação não pode beber nem uma cerveja, porque normalmente não é capaz de ficar por aí. Por isso, Gabriel aconselha todos os alcoólicos a evitarem o primeiro copo.


O que é ser alcoólico


Um alcoólico, no verdadeiro sentido da palavra, não conhece o seu limite. Mas os Alcoólicos Anónimos não investigam as razões do alcoolismo. Deixam que cada um descubra os seus motivos, podendo ser ciúme, raiva, insegurança ou perturbação emocional. “Um alcoólico arranja mil motivos para beber”, admite Gabriel. Ele agora já consegue estar numa festa, onde todos bebem álcool mas ele fica pela água e os sumos.
Os alcoólicos devem ainda evitar à inactividade, para não ser a justificação para o consumo de álcool, como muitas vezes acontece. “Pratiquem desporto, leiam ou façam outra coisa. Mas não devem ficar sem fazer nada”, aconselhou Gabriel.


Dinâmica do grupo


No grupo de Alcoólicos Anónimos, os membros não são submetidos a nenhuma terapia especial para deixarem o vício. Os membros do grupo partilham problemas e experiências vividas, enquanto alcoólicos, como forma de cada um contribuir para a recuperação do companheiro. A partilha de histórias de pessoas que deixaram de beber incentiva o alcoólico a fazer o mesmo, através da auto-censura do seu comportamento e da auto-avaliação dos prejuízos causados a si, à família e à sociedade. E também as oportunidades perdidas por causa do alcoolismo.


Vontade de recuperação


Não há nenhum requisito para fazer parte do grupo, basta a vontade de recuperação. “Não pedimos que prometam que vão deixar de beber. Cada um deve prometer a si mesmo”, esclareceu Gabriel, que foi escolhido pelos Alcoólicos Anónimos para ser responsável pela informação pública.
A recuperação consiste no cumprimento de 12 passos e leva a vida inteira, razão pela qual, segundo Gabriel, há membros que saem do grupo, porque acham que já estão recuperados e depois têm recaídas. “Temos as portas abertas para recebê-los sempre. Mas se tivessem feito uma promessa ao grupo, provavelmente ficavam inibidos de voltar”.


Local dos encontros


O grupo de Alcoólicos Anónimos “Viver Sóbrio” reúne-se todos os domingos, a partir das 18 e 30 numa sala da igreja Sagrada Família. Mas não pertence a nenhuma religião. A sala foi cedida, por solidariedade do pároco Eugénio Lumingo, pelo facto do grupo não ter capacidade financeira para arrendar um espaço onde pudessem reunir. As despesas do grupo são suportadas pelos membros, através de contribuições livres. Ainda que pudessem comprar um espaço, não podiam fazê-lo, para não desperdiçar mais tempo com a gestão do património, do que com a recuperação. “É uma das nossas tradições”, disse Gabriel.
No grupo não há prescrição de medicação, nem acompanhamento psiquiátrico ou cartas de recomendação a instituições prisionais, advogados, tribunais ou entidades empregadoras.   
Em vários países do mundo, existem grupos de Alcoólicos Anónimos. O primeiro foi fundado no dia 10 de Junho de 1935, em Nova Iorque, Estados Unidos.  

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