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Wako Kungo tem o maior hospital do Kwanza-Sul

Cristina da Silva |

As obras de reabilitação e ampliação do Hospital Municipal da Cela ficam concluídas no final do ano. A nova unidade vai contar com serviços de medicina interna, cirurgia, obstetrícia, pediatria e ortopedia. Entretanto, os técnicos trabalham em contentores improvisados, a única solução encontrada enquanto as novas instalações não estiverem operacionais.

Com as obras de reabilitação e ampliação o Hospital Municipal da Cela vai ser a maior unidade sanitária da província do Kwanza-Sul
Fotografia: Cristina da Silva

As obras de reabilitação e ampliação do Hospital Municipal da Cela ficam concluídas no final do ano. A nova unidade vai contar com serviços de medicina interna, cirurgia, obstetrícia, pediatria e ortopedia. Entretanto, os técnicos trabalham em contentores improvisados, a única solução encontrada enquanto as novas instalações não estiverem operacionais.
O Hospital Municipal da Cela, localizado na cidade do Wako Kungo, vai ser a maior unidade sanitária da província do Kwanza-Sul. Das 153 camas anteriores, passará a ter 300, e além da sua reabilitação e ampliação, será apetrechado com novos e modernos equipamentos.
Sem avançar o valor global da obra, o director-geral do hospital, Isaías Soares de Carvalho, disse que os serviços de obstetrícia e ortopedia são de grande importância para o município, tendo em conta a sinistralidade existente na província, cujas vítimas não têm merecido o pronto atendimento por falta de especialistas.
“Normalmente, quando nos deparamos com casos desses, evacuamos os pacientes para o Hospital Provincial do Huambo, por ser a unidade mais próxima do município. Só em último caso é que encaminhamos para Luanda”, explicou.
Todas as semanas, pelo menos dois doentes percorrem 180 quilómetros para receber assistência no Huambo. Casos de politraumatismo provocados por acidentes de viação e problemas ginecológicos estão entre os mais frequentemente evacuados.
Azevedo Bumba, chefe de Repartição de Saúde da Cela, disse ao Jornal de Angola que antes da reabilitação do Hospital existia uma área onde eram efectuadas pequenas cirurgias. No entanto, “neste momento, não temos nem condições para pequenas cirurgias, daí que todos os casos que surgem sejam evacuados para o Huambo, por ser próximo e a estrada favorecer este processo”, lamentou.
Com a conclusão das obras de reabilitação e ampliação, a população da cidade do Wako Kungo poderá respirar de alívio e deixará de se deslocar para outros pontos para se submeter a cirurgias. “Vamos aumentar os serviços de assistência médica e medicamentosa. Portanto, vamos deixar de recorrer ao Hospital Provincial do Huambo”, concluiu.

Trabalho em contentores

Neste momento, o atendimento dos pacientes passou para a antiga casa dos médicos, em contentores improvisados. Aqui são realizadas consultas internas e externas, e internamentos. São, no total, oito contentores sem ar condicionado nem ventilação. Cada um deles dispõe de 10 camas e os doentes respiram através de pequenas janelas.
A tuberculose, diabetes, tumores uterinos, hipertensão arterial e paludismo são doenças frequentes e motivo de internamento.
Num dos contentores encontram-se os serviços de traumatologia e medicina interna. No interior do Hospital, onde as obras ainda não chegaram, funcionam a maternidade e a pediatria. “Assim que se concluam as três primeiras naves, os serviços de maternidade e pediatria serão atendidos aí”, explicou o director.
Para além dos 98 enfermeiros, entre técnicos médios e básicos, o hospital tem actualmente seis médicos, dos quais dois angolanos e igual número de cubanos e coreanos.

Programa de controlo

O número de pessoas que padecem de diabetes, devido ao consumo excessivo de álcool, e de hipertensão arterial têm vindo a crescer no município da Cela. Os pacientes com tuberculose também têm aumentado, mas esta é a única doença que conta com um programa dentro dos serviços de saúde e acompanhamento. A falta de outros, para as pessoas que padecem de diabetes e hipertensão, levou os técnicos a uma concertação no sentido de nos próximos meses ser criada, a nível do município, uma associação para realizar acompanhamento de rastreios. “São doenças difíceis de se detectar a olho nu e muitas vezes só em casos extremos é que nos apercebemos tratar-se de diabetes ou hipertensão”, explicou.
O internamento devido a surtos de paludismo tem vindo a diminuir, apesar de ser a principal causa de morte no município. “Temos um programa de combate às larvas e com as destruição destas bactérias temos assistido a uma redução dos casos nos últimos tempos”, disse o chefe de Repartição da Saúde.

Sem morgue

No Wako Kungo não existem câmaras frigoríficas para conservação dos corpos. Este facto tem obrigado a população a realizar os funerais em menos de 24 horas. No caso do falecido ser um estrangeiro, ou um cidadão nacional oriundo de outras regiões, a situação torna-se preocupante, uma vez que muitos deles têm de ser identificados para serem criadas condições para a transladação do corpo.
Esse processo, segundo Azevedo Bumba, pode demorar dois ou três dias e muitas vezes os corpos acabam por ser transladados em mau estado de conservação.
“Para os locais não é grande problema, mas para os que vêm de fora, até se localizarem as família, vivemos uma situação inquietante”, disse, adiantando que no município existe uma casa mortuária construída no tempo colonial, mas que actualmente não oferece quaisquer condições de sanidade.
Também esta situação ficará resolvida após a ampliação do hospital da Cela, uma vez que está prevista a construção de uma morgue.

Mão-de-obra local

Com estas obras, muitos jovens conseguiram o seu primeiro emprego. É o caso do ajudante de obra Kiala Oliveira, de 22 anos, que nelas trabalha há cinco meses e, com o que tem aprendido, já vai conseguindo reestruturar a sua antiga casa. “Quando cá cheguei não sabia nada. Hoje já faço muita coisa e presto serviço de pedreiro em muitas obras”, disse, orgulhoso.
Com a conclusão da obra, Kiala acredita que vai ter possibilidade de continuar na profissão e trabalhar para a comunidade. “Vamos mudar o hospital e posteriormente as casas do bairro”, garantiu.
António Agostinho é ladrilhador. Aprendeu os “truques” da profissão com Cheng Wanghai, chinês de nacionalidade, um dos técnicos principais da obra. “Sinto-me feliz por fazer parte deste grupo que será um orgulho para todo o povo do Wako Kungo, quando as obras do Hospital da Cela estiverem concluídas”, disse.
Maurício Cenha trabalha há oito meses. Começou na limpeza e hoje faz trabalho de betoneira, área que produz a massa para a obra.”O ambiente é bom e já tenho muitos amigos, até chineses”, conta.
Apesar de não dominarem a língua uns dos outros, uma vez que aqui trabalham pessoas de diversas nacionalidades, a comunicação tem sido possível.
Cheng Wanghai, afirmou sentir-se feliz pelo trabalho que faz e porque gosta dos angolanos. “Muito bom, eu gosta”, concluiu, num português confuso no género mas sentimentalmente eloquente.

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