Economia

260 mil chineses trabalham em Angola em fase de reconstrução nacional

Adérito Quizunda, André dos Anjos e Gabriel Bunga | Pequim

A China explicou a presença de 260 mil chineses em Angola pela necessidade de mão-de-obra qualificada nos projectos de edificação de infra-estruturas, numa conferência consagrada à cooperação com África em que a decisão do aperfeiçoamento da qualidade das relações entre Pequim e o continente foi declarada “um desafio.”

260 mil chineses passaram por Angola ao longo da edificação de projectos de infra-estrutura financiados por Pequim
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

O director-adjunto do Departamento dos Assuntos Africanos do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China proferiu estas declarações na abertura de uma conferência internacional da comunidade China-África sobre a “Nova Rota da Seda e a Cooperação da Media”, que decorre em Pequim de 7 a 21 de Maio.
Li Chong afirmou que a China “nunca quis enviar um número tão considerável de trabalhadores chineses para Angola”, mas o momento de reconstrução do país exigia muita mão-de-obra e, pela urgência que se impunha, as empresas chinesas recrutaram vários trabalhadores para virem trabalhar para o país.
Nos últimos dez anos, disse Li Chong para definir as trocas entre Luanda e Pequim, as relações entre Angola e a China basearam-se fundamentalmente na construção de infra-estruturas, um processo parcialmente inviabilizado pela crise financeira, que conduz à procura de novas áreas de cooperação.
O responsável chinês, que já trabalhou em Angola e na Guiné-Bissau, reconheceu que a China tem de melhorar a cooperação com os países africanos para que as políticas públicas resultantes da ajuda chinesa sejam eficientes e beneficiem os povos africanos de forma qualitativa.
Li Chong prometeu, no discurso de abertura do encontro, que o seu Governo vai elevar a qualidade e a eficiência da cooperação com os países africanos e reconheceu a preocupação da comunidade internacional face à questão das dívidas entre África e a China, considerando que, em muitos casos, as preocupações “não correspondem à verdade.”
A procura de financiamento para garantir o desenvolvimento económico, sublinhou, é comum a todos os países do mundo e não é uma questão exclusiva entre os países africanos e a China. Li Chong notou que, em matéria de empréstimos, o mais importante é saber gerir o risco de crédito e que o seu país tem assumido uma atitude responsável, com a preocupação de verificar se o risco é controlado ou não.
“Se não concedermos empréstimos, podemos impedir o desenvolvimento. É preciso que os países africanos resolvam a questão dos riscos. A dívida não se resolve com a penalização da cooperação e a viabilidade de qualquer empréstimo é analisada com muita atenção, sem a qual o crédito não é concedido”, declarou.
Li Chong acrescentou que o seu Governo não pode aceitar a ideia segundo a qual “a diplomacia da China é uma ‘diplomacia de empréstimos’. A nossa posição é que não forçamos os países africanos a receber financiamentos que afectem as suas soberanias. A maneira de resolver a questão é de discutir em conjunto e não olhar para interesses políticos. O futuro entre África e a China é o da procura de desenvolvimento de qualidade.”
Referiu a cooperação com África como “abrangente”, envolvendo projectos comuns ao continente e outros, para países de forma isolada, contando-se sectores como o da construção, intercâmbio cultural, melhoria da qualidade de vida e criação de postos de trabalho.
A China, lembrou, adopta políticas de igualdade na relação com os países africanos, não obstante o volume de negócios que cada país possa ter com o gigante asiático, citando depois os exemplos de Angola, que conta com volumosos empréstimos chineses, e a Guiné-Bissau, onde os fluxos de capital chinês são mais exíguos.
Os números apontam para dez mil bolsas de estudo do Governo chinês a favor de estudantes africanos por ano, desde que esse processo iniciou, em 1956, ao mesmo tempo que, depois de 1963, mais de 200 milhões de africanos tenham beneficiado de tratamento de médicos chineses.

A Nova Rota da Seda

O director-adjunto definiu a Nova Rota da Seda, a estratégia económica chinesa de longo prazo, como uma opção de desenvolvimento comum à China e a África numa ordem mundial caracterizada pela injustiça.
O diplomata considerou, para explicar a Nova Rota da Seda, que a China compreende que tem maior potencial para o desenvolvimento económico e social, na medida em que houver prosperidade em África e em outros continentes.
Li Chang indicou que 37 países africanos já aderiram à iniciativa, assinando memorandos bilaterais.

Conferência estabelece compromissos para a cooperação

O primeiro dia da conferência, que decorre na Universidade da Comunicação da China, ficou marcado com discursos oficiais dos Professores Zhang Yanqiu, directora do Centro de Pesquisa da Comunicação em África e do Instituto de Estudos de Comunicação da Universidade da Comunicação da China, Li Shu, director do Instituto de Estudos de Comunicação da Universidade da Comunicação da China, Wang Wenyuan, chefe adjunto da Divisão de Intercâmbio e de Cooperação Internacional da Universidade da Comunicação da China, bem como do professor Fodé Mané, representante dos académicos africanos e reitor da Universidade Amílcar Cabral, da Guiné-Bissau.
Fodé Mané sublinhou em nome de todos os representantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) a importância da cooperação no sector da comunicação nos domínios académico e profissional, considerando a realização da conferência uma forma de potencializar as relações entre os países lusófonos de África. Reiterou a necessidade de a China estabelecer acordos de intercâmbio e mobilidade para profissionais e a projecção das acções de pesquisa.
Os representantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, depois da sessão de abertura, reuniram com o vice-reitor da Universidade da Comunicação da China, Duan Peng, que garantiu a disponibilidade da Universidade da Comunicação da China em estabelecer acordos de parceria no domínio da formação de quadros nos graus de licenciatura, mestrado e doutoramento. O responsável chinês disse que a UCC também está disponível para cooperar em estágios profissionais e ensino de línguas.
Participam na conferência representantes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. No primeiro dia da conferência, os participantes visitaram vários departamentos da Universidade da Comunicação da China, com destaque para a estação televisiva, da universidade, a imponente biblioteca e o Museu da Media.
Até 21 de Maio, é debatida “A iniciativa um Cinturão e uma Rota e a cooperação sino-africana”, “A lógica histórica e o significado mundial do desenvolvimento da transformação da media chinesa”, “O fórum de cooperação China-África: oportunidades e desafios da cooperação sino-africana”, “As relações económicas e comerciais entre a China e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e o fórum de cooperação económica e comercial”, “A cooperação entre os media chineses e africanos: conquistas, caminhos e expectativas” e “ A cooperação sino-africana, imagem nacional e o desenvolvimento da comunicação”.

Tempo

Multimédia