Economia

Angola amplia capacidade de produção de enchidos

André dos Anjos

A indústria de processamento de carnes em Angola, ainda em fase incipiente, pode ser impulsionada com entrada em funcionamento, no próximo mês, de uma fábrica de charcutaria na Zona Económica Especial Luanda-Bengo (ZEEB).

Joaquim Pinto, o técnico recrutado em Portugal para instruir os primeiros trabalhadores
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Trata-se de um investimento privado de quatro milhões de dólares, com capacidade para produzir mensalmente 50 toneladas de enchidos que, só em chouriços, calcula-se entre 300 a 350 mil unidades.

Luís Nicácio, o mentor da iniciativa, diz que o projecto responde ao apelo do Governo ao sector privado para se juntar aos esforços de diversificação da economia e da substituição gradual das importações pela produção nacional.
Designada Fábrica de Processamento de Carnes Mestre Akino, a unidade industrial, que ocupa uma área de 860 metros quadrados, começa a colocar no mercado, semanas depois da entrada em funcionamento, produtos de charcutaria com o mesmo nome ( Mestre Akino).
Numa primeira fase, de acordo com Luís Nicácio, o empreendimento vai gerar 52 postos de trabalho, quase todos reservados a jovens angolanos, exceptuando dois a serem preenchidos por especialistas estrangeiros, incluindo uma engenheira alimentar, que vai cuidar da qualidade dos produtos.
O número de trabalhadores, segundo explica o investidor, não vai mais além pelo facto de a fábrica estar dotada de equipamentos de última tecnologia, de origem alemã, aquilo a que se pode chamar "o Rolls-Royc da indústria de processamento de carnes", como faz questão de sublinhar Luís Nicácio.
Também em fase incipiente, a suinicultura industrial em Angola, notou, está longe de suportar o funcionamento das poucas unidades de transformação de carne existentes no país, o que faz com que os detentores das fábricas recorram à importação de matéria-prima (carne de porco).
Não fugindo à regra, a Fábrica de Processamento de Carnes Mestre Akino criou já uma rede de fornecedores de matéria-prima, evolvendo Portugal, Espanha e Brasil, enquanto faz diligências para incluir os países da região, sobretudo a África do Sul e o Zimbabwe, dois dos maiores produtores de carne de porco na região. Para a fábrica produzir no limite das capacidades instaladas, de acordo com cálculos do industrial, é necessário um abate mensal de, pelo menos, 10 mil porcos. Ora, baseando-se em informações que diz ter, Luís Nicácio estima que no país são abatidas semanalmente pouco mais de 100 cabeças de porco, quantidade bastante irrisória para suportar a indústria de processamento de carnes.
O empresário admite que o maior problema para indústria de processamento de carnes no país está na escassez da matéria-prima. Os poucos projectos de suinicultura industrial existentes, somados, "não totalizam duas mil matrizes" (porcas reprodutoras), afirmou. Nos cálculos da população suína do país, Luís Nicácio não inclui os efectivos da chamada suinicultura tradicional, cujas características, salvo raras excepções, a torna imprópria para o fabrico de enchidos.
Para produzir enchidos, explica, é necessária uma carne com características específicas. Numa carcaça de porco de 80 quilos, acrescenta, são aproveitados apenas pouco mais de seis quilos, deixando os restantes para outras utilidades.
A suinicultura industrial em Angola, lembra o empresário, foi interrompida em 1974, à véspera da Independência Nacional, e retomada apenas em meados de 2015. Os poucos projectos criados até à data, reitera, não respondem, sequer 20 por cento das necessidades da indústria transformadora.
Parte da matéria-prima necessária para o arranque o da fábrica, de acordo com o empresário, já está no país, mais concretamente, nas câmaras da fábrica, que Luís Nicácio se recusa a transformar em local de armazenamento de produtos.

 

Importação de carne de porco está proíbida

A importação de carne de porco foi proibida recentemente pelas autoridades, no quadro do Programa de Apoio à Produção Nacional, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI), medida considerada "absurda" pelo empresário Luís Nicácio.
Em declarações ao Jornal de Angola o director do Gabinete de Comunicação Institucional do Ministério da Agricultura e Florestas, José Fernandes disse que a iniciativa insere-se nas medidas de protecção da produção nacional e resulta da constatação de que o país já produz carne de porco suficiente para as necessidades internas.
"Só na Fazenda Santo António, na Kibala, província do Cuanza-Sul, há capacidade para cinco mil toneladas de carne de porco, mas sem recado", disse.
O empresário Luís Nicácio insiste, entretanto, que a proibição de importação de carne de porco "é uma medida sem cabimento, porque, na verdade, a produção nacional é incapaz de suportar as poucas unidades de processamento de carnes existentes no país".
"Se a China que é o maior produtor de carne suína no mundo importa 30 por cento dos porcos que consome e Portugal que abate 1000 cabeças por dia, importa parte dos animais da Espanha, com que lógica é que Angola fecha as fronteiras para entrada de carne de porco, interroga-se o empresário.

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