Economia

Empréstimos de curto prazo são opção estratégica do BCI

Cristóvão Neto |

O Banco de Comércio e Indústria (BCI) adoptou esta semana um plano de negócios para o ano em curso, no qual prevê apostar no crédito de curto prazo para elevar os rendimentos, revelou quinta-feira ao Jornal de Angola o presidente do conselho de administração da instituição financeira de capitais públicos.

Líderes do BCI têm estratégia para consolidar a recuperação e alinham a instituição aos mais elevados padrões internacionais de “compliance”
Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

Filomeno Ceita afirmou, numa entrevista em que participaram quatro administradores executivos do banco público, que o BCI está com “muitas restrições em relação ao volume de crédito”, uma situação que considera que, “no curto prazo, não se vai alterar”.
Números do relatório e contas do BCI relativo a ano de 2016, o último disponível, indicam que o crédito concedido naquele ano ascendeu a 54.082 milhões de kwanzas, mais dez por cento que os 48.821 milhões emprestados em 2015.
O crédito de muito curto prazo, adiantou o presidente do conselho de administração, representa uma boa parte dos rendimentos do banco, com a administradora para a área comercial e de marketing, Maria do Carmo Bernardo, a apontar o “Adiantamento de salário” (para particulares) ou um análogo, destinado às empresas para solucionar problemas de tesouraria, como os produtos alinhados à aposta do banco.
Maria do Carmo Bernardo considerou o “Adiantamento de salário” - com o que o banco avança um mês e meio para reembolso em 90 dias - um produto de elevada dinâmica, gerando entre 600 e 700 pedidos por semana.
Outra dessas soluções é o “Crédito salário”, com o banco a adiantar três meses para pagamento em um ano, ou o “Cria condições”, que empresta até três milhões de kwanzas e que figura na oferta de produtos do BCI desde há dez anos.
A carteira de produtos do BCI inclui os créditos “Automóvel” e “Seguro automóvel”, para particulares, e o “Crédito geral”, de Campanha e de Investimento, “Angola Investe”, “Projovem” e outros quatro financiamentos para empresas.
Uma parte significativa da carteira está ligada ao financiamento de projectos do Executivo, muitas vezes sem garantias reais e à custa da constituição de provisões que pesam de forma significativa nos resultados do banco.
Contra o crédito concedido em 2016, o banco foi obrigado a constituir provisões de 3.653 milhões de kwanzas, de acordo com dados do relatório e contas daquele ano.
A carteira de crédito malparado - o valor devido por clientes em resultado dos empréstimos - é de 24 por cento, o que o presidente do conselho de administração considera a ser a média nacional.
Em Junho do ano passado, Walter Filipe, governador do Banco Nacional de Angola entre Março de 2016 e Outubro de 2017, afirmou que o crédito malparado representava 17,66 por cento do total do crédito concedido à economia em 2016, avaliado em 3.619.771 milhões de kwanzas.

Software anti-crime
O administrador para a área jurídica, risco e compliance, Carlos Bragança, anunciou durante a entrevista que o BCI está a usar o “software” Argus, concebido para detectar clientes anotados entre as autoridades reguladoras internacionais com risco de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo.
“Evoluímos nesse software e somos um dos únicos bancos angolanos a lidar com esse instrumento”, afirmou Carlos Bragança, acrescentando que, como procedimento, o banco interrompe as operações que forem detectadas em tais condições.
A operação do Argus - o BCI possui o último grau do sistema - está ligada a uma actividade de formação intensa e permanente do pessoal, o que torna o banco mais capaz de detectar acções de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo e mais apto para corresponder aos padrões internacionais de conformidade legal, ou compliance.
Por procedimento, o banco reporta de forma imediata operações que suscitem o interesse da Unidade de Informação Financeira (UIF) do BNA, o que tem como critério de base a verificação de movimentos cifrados acima do equivalente a 15 mil dólares e sugere um intenso intercâmbio entre o BCI e aquele serviço do banco central.
“Somos rigorosos em matéria de combate ao branqueamento de captais e financiamento do terrorismo”, concluiu Carlos Bragança.
O BCI é participado pelo Estado 93,60 por cento, repartindo o restante capital entre empresas públicas como a Sonangol, Porto de Luanda,Taag,  Ensa, Endiama, Tcul, Angola Telecom, Cerval e Bolama.

Conselho de Administração denuncia tentativas de desestabilização

O conselho de administração do BCI desvalorizou, em entrevista ao Jornal de Angola, informações divulgados em certos sectores da opinião pública a apontar ao banco “má gestão, falência técnica, despedimento de 1.200 guardas e não prestação de contas”.
“Por detrás dessas alegações estão intenções claras de desestabilizar o órgão que dirige o banco” e “são mentiras gritantes”, considerou o presidente do conselho de administração do BCI. 
Filomeno Ceita e o administrador para a área de contabilidade e finanças, Leão Peres, convergiram em que, apesar de um rácio de solvabilidade (o principal para aferir a viabilidade dos bancos) de 34 por cento, dos 10 por cento exigidos pelo BNA, o BCI eliminou os resultados negativos de forma consistente, até chegar aos lucros em 2016 e 2017, o que desmente a questão da má gestão.
Longe de possuir 1.200 guardas, o BCI possui 365 - 207 ligados ao apêndice imobiliário do banco e 158 aos balcões -, estando em vias de tomar uma decisão alinhada à redução de custos.
O conselho de administração mantém para com os trabalhadores efectivos da protecção física, privilégios que incluem crédito à habitação, automóvel e de consumo, além dos benefícios do fundo social (para emergências) a preços bonificados.  
No capítulo da prestação de contas, acrescentaram, o banco realiza assembleias-gerais nos prazos estabelecidos, o conselho de administração reúne uma vez por mês, o comité de liquidez todas as quintas-feiras e o de funcionamento (que junta todos os directores da área) a cada três meses.
“Há reconhecimento público dos accionistas em relação ao desempenho desta administração”, sublinhou Filomeno Ceita.

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