Economia

Crédito à economia é muito baixo

Natacha Roberto

O crédito bancário concedido ao sector privado representa, em Angola, 14 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), abaixo da média de economias de rendimento médio como a África do Sul, Brasil e Marrocos, onde isso constitui 50 por cento do PIB, declarou ontem, em Luanda, o ministro de Estado Desenvolvimento Económico e Social.

Ministro de Estado do Desenvolvimento Económico e Social (direita) discursa na conferência
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Manuel Nunes Júnior recordou, numa Conferência sobre o Financiamento ao Sector Privado realizada com a participação de gestores bancários, que um estudo do Banco Nacional de Angola (BNA) sobre a concessão de crédito às empresas aponta as elevadas taxas de juro como o principal constrangimento. 

Além disso, acrescentou, os constrangimentos encontrados no défice de concessão de crédito ao sector privado residem na ausência de contabilidade organizada nas empresas e no baixo nível de literacia financeira, “importantes para a economia fluir”. 

Manuel Nunes Júnior considerou “crucial” que o país acabe com a grande dependência do petróleo, um produto que garante cerca de 95 por cento dos recursos externos e 70 de toda receita tributária. “Para edificar uma economia baseada num crescimento forte e sustentado, precisamos de restaurar a confiança nas instituições e nos negócios”, disse. 

Quando não há confiança, prosseguiu, os bancos deixam de dar crédito em níveis satisfatórios e a economia deixa de receber investimentos.

Considerou que o Governo está a fazer a sua parte no domínio da recuperação da confiança, lembrando que estão a ocorrer pagamentos dos atrasados em divisas dos anos de 2015 a 2017 e os compromissos em moeda externa começam a ser honrados com regularidade. 

O cenário da inflação, acrescentou, aponta para uma redução no ano passado, quando ficou situada em 19 por cento, diante dos 28 previstos. O ministro declarou que a recuperação da confiança está inscrita como meta do Programa de Estabilização Macroeconómica (PEM) que é aplicado desde Janeiro de 2018 para tornar Angola num Estado de Direito, onde ninguém possa estar acima da Lei. “É difícil investir num país em que não se tem a certeza de que a lei, sempre que necessário, é aplicada de modo objectivo e de maneira igual para todos”, disse.

O aumento da quota de mercado da produção nacional de bens e serviços é um dos factores que considerou crítico para a sustentabilidade das finanças públicas e contas externas do país. “Com o aumento da produção nacional, as nossas empresas vão criar valor para a economia e a sua contribuição para as receitas tributárias será cada vez maior”, afirmou.

 

Evolução das reformas

Manuel Nunes Júnior considerou que, em 2018, foram dados passos positivos para a normalização do mercado cambial, tendo  ficado  quase esbatido o diferencial entre a taxa de câmbio oficial e a do mercado informal. 

Recordou que o Governo conseguiu eliminar os défices sucessivos registados na economia, os quais se situaram em 3,7 por cento em 2016 e de 6,3 em 2017, elevando os níveis de endividamento do país: a dívida pública passou de menos de 30 por cento do PIB em 2013, para cerca de 79 por cento do PIB em 2017.

“Quanto maior for o endividamento do Estado, maior são as taxas de juro internas, as quais reduzem o potencial de crescimento económico, porque inibem o crédito ao sector privado”, notou o ministro, considerando que, com a aplicação das medidas fiscais contidas no PEM, é esperado um excedente de 0,4 por cento em 2018 e de 1,00 por cento este ano. Isso, disse, “abre espaço” para que os bancos comerciais concedam mais crédito.

BAI prevê emprestar 70 mil milhões

O Banco Angolano de Investimento (BAI) concede, este ano, empréstimos de 70 mil milhões de kwanzas ao sector privado, mas pede que as empresas apresentem projectos credíveis e estudos de viabilidade exequíveis.

O presidente da Comissão Executiva do BAI, Luís Lélis, revelou que, em 2018, o banco concedeu mil milhões de dólares em empréstimos ao sector privado, absorvidos em grande medida por empresas dos sectores da pesca, turismo e imobiliário. 

Luís Lélis informou que a instituição bancária tem concedido maior volume de crédito ao Estado, uma vez que oferece rentabilidade e segurança. “Do ponto de vista da diversificação de risco, nós vamos e queremos conceder crédito ao sector privado, mas em termos de risco nós entendemos que é preferível conceder ao Estado”, sublinhou.

O presidente do BAI declarou que, quando o banco investe em títulos e valores mobiliários do Estado, na realidade está a financiar a economia, “porque o Estado, quando recebe os recursos dos bancos, paga imediatamente os seus funcionários e prestadores de serviços”, disse.

A taxa de crédito malparado do BAI, anunciou, é de 16 por cento, muito a baixo da média do mercado nacional, de 26 por cento. “O BAI possui 2.100 trabalhadores e, com o crédito malparado, não conseguiria manter o salário dos funcionários”, disse. 

Em relação ao Programa Angola Investe - em vias de ser substituído -, considerou bem concebido na medida em que respondia às expectativas da banca, do Estado e dos empresários. “A taxa de incumprimento do Programa Angola Investe está acima dos  70 por cento: para dar uma ideia, para cada 100 kwanzas emprestados, 78 foram perdidos”, explicou.


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