Economia

Desigualdades sociais têm dimensão global

As desigualdades aumentaram profundamente no mundo desde a década de 1980, em particular nos Estados Unidos, de acordo com um estudo coordenado por vários economistas, que se mostram preocupados com o possível agravamento da situação até 2050.

China e Rússia estão entre os países com níveis de desigualdade mais acentuados
Fotografia: Nicolas Asfouri | AFP


“As desigualdades aumentaram em quase todas as regiões do mundo”, afirma o “relatório sobre a desigualdade global”, que compara de maneira inédita a distribuição da riqueza a nível mundial e sua evolução ao longo de quase quatro décadas.
Este fenómeno aconteceu a ritmos diferentes, de acordo com as regiões, afirmam os coordenadores do estudo, que apontam um forte aumento das desigualdades nos Estados Unidos, mas também na China e na Rússia, países cujas economias registaram uma significativa liberalização durante a década de 1990.
De acordo com o estudo, que teve como principais coordenadores Lucas Chancel, da Paris School of Economics, e Thomas Piketty, autor do best-seller “O Capital no Século 21”, a parte da riqueza nacional nas mãos de 10 por cento dos contribuintes mais ricos passou de 21 para 46 por cento na Rússia e de 27 a 41 por cento na China, entre 1980 e 2016.
Nos Estados Unidos e Canadá, este índice passou de 34 para 47 por cento, enquanto na Europa foi registado um aumento mais moderado (de 33 para 37 por cento). “No Médio Oriente, África subsaariana e Brasil, as desigualdades permaneceram relativamente estáveis, mas a níveis muito elevados”, afirma o documento.

Divergência extrema
Em 2016, o pódio das regiões e países menos igualitários era formado pelo Brasil (55 por cento do rendimento nacional nas mãos dos dez por cento mais ricos), ), Índia (55) e  Médio Oriente (61), que perfila segundo os autores um “horizonte de desigualdades” de  escala mundial.
No Médio Oriente, as desigualdades estão “sem dúvidas subestimadas”, destaca o relatório, que menciona uma contradição entre as estatísticas oficiais dos países do Golfo e alguns aspectos de sua política económica, como o crescente recurso a trabalhadores estrangeiros mal remunerados.
Em termos de evolução, a divergência é extrema entre a Europa ocidental e os Estados Unidos, que tinham níveis de desigualdade comparáveis em 1980, mas se encontram actualmente em situações radicalmente diferentes, destaca o estudo, realizado com a colaboração de mais de cem pesquisadores de 70 países.
Em 1980, a parte da riqueza nacional nas mãos de 50 por cento dos contribuintes mais pobres era quase idêntica nas duas regiões: 24 por cento na Europa ocidental e 21 nos Estados Unidos. Desde então, o índice permaneceu estável, a 22 por cento, no lado europeu e caiu para 13 nos Estados Unidos.
Um fenómeno que se explica, de acordo com Thomas Piketty, pela “queda dos rendimentos da menor faixa” nos Estados Unidos, mas também por uma desigualdade considerável na área da educação e uma tributação cada vez menos progressiva neste país. “Isto mostra que as políticas públicas têm um forte impacto nas desigualdades, conclui o documento.

Margens de manobra
A principal vítima desta dinâmica, segundo o relatório, baseado em 175 milhões de dados fiscais e estatísticas resultantes do projeto WID (banco de dados mundial sobre riqueza e rendimentos, na sigla em inglês), é a “classe média mundial”.
Entre 1980 e 2016, um total de 1,00 por cento dos mais ricos obteve 27 por cento do crescimento mundial. Os 50 por cento mais pobres receberam apenas 12 por cento da riqueza, mas viram os seus rendimentos aumentarem de forma  significativa.

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