Dólar mais caro no câmbio retrai as viagens à Namíbia
Domingos Calucipa | Santa Clara
A valorização do dólar namibiano face ao kwanza, que se registou no mercado informal nos últimos dias, provocou uma redução significativa do fluxo de angolanos ao território da vizinha Namíbia a partir da fronteira de Santa Clara.
A qualidade dos serviços prestados na Namíbia tem atraído muitos cidadãos angolanos Fotografia: DR
A nota de 100 dólares namibiana está a ser comprada a 1.750,00 kwanzas e vendida a 1.950,00 kwanzas, contra os 1.350,00 kwanzas e 1.550,00 kwanzas praticados há duas semanas. A medida desencoraja a deslocação de muitos angolanos à Namíbia, sobretudo os residentes fronteiriços, que buscam quase tudo ao país vizinho, desde bens de primeira necessidade até ao tratamento médico. Com a redução do número de angolanos que entram no território namibiano, as lojas e os supermercados de Oshikango (Norte da Namíbia) estão a enfrentar uma grave falta de clientes angolanos. Muitos desses estabelecimento já ameaçam reduzir o número do seu pessoal, uma vez que vêem reduzidas as suas vendas. Entrevistado pelo Jornal de Angola, o cônsul-geral da República da Namíbia acreditado para as províncias do Cunene, Huila e Namibe, Egidius Hakwenye, reconheceu que os comerciantes de Oshikango viram reduzido o volume de clientes, como consequência imediata da suspensão temporária do acordo. Com a suspensão do acordo de conversão monetária ocorrida recentemente, as duas moedas passaram a estar disponíveis apenas nos vendedores de rua, já que os bancos comerciais e as casas de câmbio há muito que deixaram de vender ou disponibilizar divisas. Na vigência do acordo, os cidadãos haviam adoptado uma estratégia que consistia em entrar com o kwanza na Namíbia, converter o kwanza em dólar namibiano e converter este em dólar norte-americano, a partir dos bancos namibianos. “O acordo beneficiava os residentes fronteiriços dos dois países e, nos temos do acordo, cada pessoa podia atravessar com até 500.000,00 kwanzas e fazer compras ou tratar de problemas de saúde, mas aconteceu que atravessaram quantidades de dinheiro de pessoas que usaram a via para conseguir os dólares americanos”, referiu o economista Valério Nehepo. Na terça-feira,
o governador do Banco Nacional da Namíbia garantiu que as trocas cambiais vão retomar após a alteração de alguns procedimentos referentes ao repatriamento do volume de kwanzas em posse da instituição, valorizado em 400 milhões de dólares. Ipumbu Shimi disse que os angolanos suplantaram os limites, estabelecidos no âmbito do acordo, com objectivo de acumularem mais dinheiro. No princípio deste mês, os bancos Nacional de Angola (BNA) e da Namíbia (BON) decidiram suspender, temporariamente, o Acordo de Conversão Monetária, que vigorava desde 18 de Junho deste ano, até que sejam criadas as condições para a materialização de um novo modelo de implementação do compromisso. O Acordo consistia na simplificação das transacções comerciais entre as populações residentes nas zonas fronteiriças de Santa Clara, em Angola, e Oshakati, na Namibia. O Banco Nacional de Angola referiu que a suspensão do acordo resultava da necessidade de se adoptar um novo mecanismo de operacionalização do instrumento financeiro, através do qual os dólares namibianos (NAD) vão passar a estar disponíveis nos bancos e casas de câmbio que operam em Santa Clara para a compra pelos cidadãos angolanos, enquanto do lado da Namíbia os cidadãos daquele país passam a adquirir o kwanza nos bancos e casas de câmbio em Oshikango. Valério Nehepo aplaudiu o novo mecanismo a ser implementado nos próximos tempos, “porque vai permitir os cidadãos angolanos a adquirirem o dólar namibiano nos bancos comerciais e casas de câmbio de Santa Clara, evitando a transportação de volumes de kwanzas para o país vizinho”. Valério Nehepo concluiu que o novo modelo de câmbio deve ser seguido com medidas rígidas que inviabilizem o descaminho das divisas dos operadores cambiais para o mercado informal.