Economia

Economista Carlos Lopes reafirma incertezas

As políticas de convergência macroeconómica a nível da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) não permitiriam a criação da moeda este ano.

Fotografia: DR

Quem o diz é o economista guineense e actual alto representante da União Africana (UA) para as negociações com a Europa, Carlos Lopes, em entrevista à DW.

Para ele, a utilização do nome ECO para uma reforma do CFA, que é uma apropriação em relação aquilo que são as decisões próprias da CEDEAO, levaria seguramente a polémicas políticas muito grandes, como a que estamos a verificar, nomeadamente com o protagonismo da Nigéria que demonstra não estar à vontade com o desenrolar dos acontecimentos. Estou agora ainda mais convencido que durante o ano de 2020 não haverá nenhuma transição mesmo a nível do CFA.

“Sou das pessoas que nunca acreditou que o ECO viesse a ter lugar em 2020 por razões que não têm nada a ver com o novo coronavírus”, disse.

Cimeira África-Europa

De acordo com Carlos Lopes, todas as actividades de preparação da cimeira África-Europa, prevista para Outubro, estão suspensas devido à pandemia do novo coronavírus e prevê um crescimento bastante negativo das economias africanas.

“Penso que o mais importante a assinalar é o facto de que a economia já estava numa situação de certa dificuldade. Tinha havido duas revisões para diminuir a previsão de crescimento por parte do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de outros organismos internacionais.

Estávamos já com uma previsão de cerca de 3,2 por cento e acontece a paragem praticamente total das actividades das cadeias globais de produção e a procura das matérias-primas que sofreu reduções drásticas, sobretudo petróleo que vai até os 20 dólares. Podemos contar que a economia africana neste ano vai ter imensas dificuldades e uma delas, seguramente, é um conjunto grande de países que vai ter um crescimento negativo”, disse.

O economista analisou ainda o impacto da doença na economia do continente africano, sobretudo nos PALOP. Aponta também as medidas que os líderes africanos devem tomar com uma certa urgência para evitar o pior para as suas economias. Na análise sobre os efeitos em cada um dos países do Palop, Carlos Lopes detalhou o que entende ser a previsão real para cada país.

Estava prevista, segundo disse, uma conferência ministerial este mês, que depois, deveria levar a uma cimeira África e Europa, em Outubro. Todavia, o calendário está interrompido, inclusive as consultas internas africanas pararam, sem falar do lado europeu que suspendeu todas as reuniões que não sejam emergenciais, o que inclui também todas as negociações. Aliás, conforme Carlos Lopes, as negociações paralelas, continente a continente, a nível dos ACP (organização que junta 79 países de África, Caraíbas e Pacífico) estão paralisadas, porque o secretariado está fechado devido à Covid-19.

“As consultas internas africanas deveriam ter lugar durante o mês de Abril, A União Africana suspendeu todas as reuniões por razões do novo coronavírus. Temos um calendário que tem de ser completamente refeito à luz do que vier a acontecer nos próximos meses”, disse.

CEDEAO mais forte

Os quinze Estados membros da Comunidade Económica da África Ocidental (CEDEAO) acordaram, em Junho do ano passado, adoptar uma moeda única chamada Eco, que deve(ria) entrar em circulação ainda este ano, pondo fim aos mais de 70 anos do franco CFA, a moeda das colónias francesas em África.

O projecto inclui os oito países da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA) que usam o franco CFA desde 1945, nomeadamente Benin, Burkina Faso, Côte d’Ivoire, Mali, Níger, Senegal, Togo e Guiné-Bissau que a adoptou mais recentemente.

Por seu lado, países como Cabo Verde, Gâmbia, Ghana e Guiné Conakri, Nigéria, Serra Leoa e Libéria, embora membros da CEDEAO, não fazem parte da zona Franco CFA e as suas moedas não são convertíveis.

Projecto de lei que ratifica a medida foi aprovado

A França aprovou na última quarta-feira, em Conselho de Ministros, um projecto de lei que ratifica o fim do franco CFA, decisão “aguardada com expectativa” pelos países da União Monetária da África Ocidental, anunciou a porta-voz do Governo, Sibeth Ndiaye, citado pela DW.

O texto valida a transformação do franco CFA, que passará a chamar-se Eco, mantendo a paridade fixa com o euro, bem como o fim da centralização das reservas cambiais dos Estados da África Ocidental no Tesouro francês, conforme acordo alcançado no final de Dezembro entre a França e os Estados da União Monetária da África Ocidental.

“Este fim simbólico deve fazer parte de uma renovação das relações entre a França e África e escrever uma nova página na nossa história”, afirmou a porta-voz.

O acordo para a mudança do nome da moeda já em 2020 foi assinado entre a França e oito países da África Ocidental a 21 de Dezembro e anunciado na altura pelo Presidente da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, na presença do Chefe de Estado francês, Emmanuel Macron.

O Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO) deixará de ter de depositar metade das suas reservas cambiais no Banco de França, uma obrigação que é entendida, pelos detractores do CFA, como uma dependência humilhante dos países africanos em relação à antiga potência colonial. Foi, igualmente, decidido que a França deverá retirar-se dos órgãos de governação financeira em que se encontrava presente.

A paridade fixa com o euro do franco CFA, o futuro Eco, deve ser mantida (1 euro = 655,96 francos CFA. Em kwanza, estaríamos a falar em 625,97 kwanzas).

 

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