Economia

Empresário pede ao Executivo que trave a "máfia das divisas"

Augusto Cuteta e Roque Silva

O presidente da Confederação Empresarial de Angola, Francisco Viana, afirmou, quarta-feira, em Luanda, que, no país, existe uma “máfia das divisas” que cria dificuldades à vida dos empresários.

Presidente da Confederação Empresarial de Angola, Francisco Viana
Fotografia: DR

Francisco Viana, que falava ao Jornal de Angola, no dia da abertura da Expo-Indústria, a decorrer até sábado, na Zona Económica Especial (ZEE) Luanda-Bengo, em Viana, pediu ao Executivo para apertar o cerco aos negócios dos cambiais, em nome da defesa dos interesses dos empresários.

“Temos de acabar com a máfia das divisas”, defendeu Francisco Viana, para quem, nestes tempos difíceis para o empresariado nacional, “é preciso que se declare uma guerra contra a rede de operadores bancários, que actuam de má-fé.”

Francisco Viana ilustrou a sua preocupação com um exemplo: “se precisar de dois milhões de dólares, terei esse valor num abrir e fechar de olhos, mas se pretender fazer uma transferência de 30 mil dólares, para pagar uma pequena máquina, através da banca, já não se consegue.”

O responsável alertou, por outro lado, que a política de repatriamento de lucros tem afugentado investidores estrangeiros, por encontrarem dificuldades em repatriar o lucro do investimento.

“Um estrangeiro que investe milhões de dólares, se encontrar dificuldades em repatriar aquilo que investe ou o lucro, desiste de continuar a investir e outros investidores não vêm”, alertou o presidente da Confederação Empresarial de Angola.

Relativamente aos nacionais, Francisco Viana lamentou que, se um empresário enviar um produto para o exterior, por cerca de um milhão de dólares, metade do dinheiro é o Estado quem determina o que fazer com o valor, uma situação bastante constrangedora, por os investidores ficarem “presos nas mãos do Estado, o que não pode ser.”

No seu entender, o difícil acesso às divisas é, actualmente, um dos maiores problemas que comprometem o futuro das empresas nacionais, que continuam a sentir grandes dificuldades.

“É impossível manter as nossas indústrias funcionais sem podermos importar directamente o que nós precisamos”, acentuou Francisco Viana, que disse haver projectos aprovados, de jovens ou novos empresários, que não avançam devido à falta de divisas.

Uma empresa para funcionar, lembrou Francisco Viana, precisa de um programa de aquisição de equipamentos a partir do exterior do país, por meio de empresas importadoras, o que leva de três a seis meses, período em que o preço pode ser alterado e o estudo ficar desactualizado, voltando assim “tudo à estaca zero.”

O presidente da confederação defendeu a realização de uma auditoria à dívida pública, no sentido de pagar-se aos empresários o débito que o Estado tem, a fim de o dinheiro poder circular no país e de criar a certeza de que “os muitos dinheiros que estamos a pagar, através da dívida pública, não sejam para alimentar os casos da corrupção.”

O empresário salientou que, pelo menos, 52 por cento do orçamento do país serve para pagar a dívida pública, estimada em muitos mil milhões, por causa de governantes que andaram a fazer negócios danosos.

Francisco Viana sublinhou que, enquanto não se conseguir introduzir dinheiro em Angola e retirá-lo naturalmente, os empresários estrangeiros não vão querer investir no país.

“Os que ainda cá estão vivem uma situação de resiliência e só não foram embora porque têm máquinas e tudo aqui”, afirmou Francisco Viana, para quem o espírito de resiliência está também na origem da participação de empresários em feiras, apesar dos custos dos eventos e das dificuldades por que as empresas passam, actualmente.

O presidente da Confederação Empresarial de Angola apelou ao Executivo para criar uma comissão especial de apoio à importação de equipamentos e insumos para os produtores.

Francisco Viana considerou que a necessidade de criação de uma comissão é uma das grandes propostas apresentadas ao Governo, no sentido de os empresários ultrapassarem as dificuldades encontradas no acesso às divisas.

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