Economia

Gestor reconhece denúncias da Inspecção Geral do Estado

Natacha Roberto |

O presidente do Conselho de Administração da Unicargas, Celso Rosas, reconheceu terem existido as más práticas apontadas pela Inspecção Geral do Estado (IGE) à gestão da empresa pública de transporte rodoviário de carga.

Celso Rosas (foto à direita) afirma que foram cometidos na Unicargas erros que “estão visíveis e são constatáveis”
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Em declarações ao Jornal de Angola, Celso Rosas revelou que ao chegar à empresa, há cinco meses, constatou várias irregularidades e uma dívida de sete mil milhões de kwanzas. “No passado, foram cometidos erros, porque es-tão visíveis e são constatáveis, mas nós não nos identificamos com os erros do passado, porque não fazíamos parte daquela administração”, afirmou.
Celso Rosas anunciou ter dirigido ao ex-ministro dos Transportes, Augusto Tomás, um relatório a descrever a situação da empresa e um programa de saneamento financeiro que se prevê que venha a ser apresentado em Julho.
A empresa, afirmou, viveu momentos de estabilidade financeira até 2012, tendo alcançado um nível de facturação acima dos 50 milhões de dólares por ano, mas os resultados financeiros negativos começaram a ser identificados nas auditorias financeiras, a partir de 2014. “Temos uma dívida muito alta, mas também temos a receber três mil milhões de kwanzas por serviços prestados naquela época - de 2014 a Dezembro de 2017 -”, disse.
O responsável informou que a situação deficitária da empresa já foi apresentada em Março, no I encontro de quadros do sector dos Transportes, com a constatação de que os níveis de facturação reduziram em cerca de 70  por cento. “Existe plena consciência das falhas cometidas no passado e temos de ter a coragem de reconhecê-las, mas o importante é a nossa vontade e determinação de corrigir”, notou.

Plano estratégico

Para alterar o quadro financeiro negativo, Celso Rosas anunciou que foram tomadas medidas consideradas como de “saneamento financeiro”, para resolver os erros e os pontos fracos identificados na empresa.
Nos próximos dias, afirmou, a administração vai aprovar um plano de acções correctivas alinhadas a um relatório elaborado por um auditor externo, no qual apresenta uma série de recomendações à administração.
O responsável da Unicargas avançou que a empresa adoptou um plano de desenvolvimento estratégico para o período de 2018 a 2022, com o objectivo de alterar a  política comercial e de marketing e garantir a criação de mais parcerias.
Para o ano em curso, a Unicargas pretende, com o plano de negócios aprovado pela administração, investir para relançar a empresa, para, em 2019, apresentar melhorias.
“Vamos começar por reduzir as dívidas elevadas e corrigir alguns aspectos do ponto de vista legal”, disse.

Nova legislação

Ao reagir às denúncias da IGE, o presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), José Severino, também considerou ser necessária uma  legislação que imponha o estabelecimento de concursos públicos para admitir novos quadros e aprovar empreitadas públicas, por meio de uma publicação anexa ao Diário da República, como forma de reduzir a corrupção verificada nas instituições do Estado.
Ao comentar para este jornal as denúncias sobre os casos de nepotismo, peculato e corrupção em grande escala detectados pela (IGE nas empresas do sector dos Transportes), afirmou que a Imprensa Nacional deve ter a responsabilidade de divulgar, em separado do Diário da República, todos os concursos públicos requeridos pe-las instituições. “Nos países francófonos, a admissão de novos funcionários para o Estado é realizada através de uma publicação fixada nas repartições públicas, onde todos têm acesso à in-formação e participam no processo com toda transparência”, disse.
Segundo o presidente da AIA, a ausência de concursos público facilitou a admissão de pessoal nas empresas públicas por meio de “sacos azuis”, onde responsáveis cobravam valores para inserir amigos e parentes no quadro de pessoal das empresas.
Além disso, a qualidade dos serviços deixou de ser um dos critérios fundamentais para ter acesso às empreitadas de obras públicas, pelo que bastava apenas fazer parte de um ciclo de pessoas com alguma influência a nível do poder público para tudo se resolver de for-ma rápida.
O director-geral do Instituto Nacional de Aviação Civil (Inavic), Rui Carreira, reagiu às denúncias, afirmando desconhecer o facto por estar a liderar a empresa há apenas cinco meses, considerando “prematuro” pronunciar-se sobre o assunto.
O presidente do Conselho de Administração da Empresa de Transportes Colectivos Urbanos de Luanda (TCUL), Abel Cosme, também não aceitou pronunciar-se sobre o  relatório da IGE, assim como o líder do Porto de Luanda, Alberto Bengue, o director-geral do Instituto Marítimo e Portuário de Angola, Victor de Carvalho, e o Conselho Na-cional de Carregadores.

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