Economia

Grandes projectos agrícolas têm graves falhas de gestão

André dos Anjos

Fazendas do Estado, criadas há pouco mais de cinco anos, para aumentar a produção interna e reduzir as importações de bens de primeira necessidade, “apresentam problemas gravíssimos”, que impedem a exploração integral das capacidades instaladas, revelou a Coferge-po, empresa envolvida na gestão de projectos agro-industriais públicos.

Em algumas fazendas os equipamentos de rega foram instalados em terrenos pantanosos, sem hipótese de movimentação
Fotografia: DR

“Umas mais do que as outras, no geral, todas as unidades apresentam problemas gravíssimos”, disse ao Jornal de Angola o director-geral da Cofergepo, José Suspiro, referindo-se às fazendas de Sanza Pombo, Camacupa, Longa, Camaiangala e Cuimba, localizadas nas províncias do Uíge, Bié, Cuando Cubango, Moxico e Zaire, respectivamente.
José Suspiro reparte as responsabilidades pela degradação precoce das fazendas entre as empresas chinesas envolvidas na sua construção, que diz terem descurado importantes pormenores técnicos, e a empresa gestora, Gesterra, que acusa de não ter cuidado dos equipamentos como devia, a ponto de permitir que máquinas modernas que deviam ter um tempo útil de 20 anos se estragassem em cinco anos.
As fazendas de Sanza Pombo, Camacupa, Longa, Camaiangala e Cuimba fazem parte de um rol de projectos agro-industriais que eram geridos pela Gesterra, até 2016, quando, por força de um decreto presidencial, passaram para o controlo do Fundo Soberano, que as confiou aos cuidados da Cofergepo.
Olhando para as condições em que recebeu as cinco unidades, a Cofergepo diz não ter dúvidas de que, se por um lado, as empresas chinesas que participaram na criação das fazendas cometeram erros técnicos, cuja reparação se revela onerosa, por outro, a empresa que geria os projectos contribuiu para a degradação prematura dos equipamentos.
À Gesterra recai ainda a acusação de, estranhamente, ter permitido que os chineses retirassem meios e equipamentos da fazenda do Longa e de ter dado um destino incerto a várias máquinas e equipamentos da fazenda de Sanza Pombo.

Falhas técnicas
Entre as falhas apontadas às empresas chinesas, a Cofergepo destaca o facto de terem colocado os pivôs para rega em terrenos pantanosos, sem proceder, primeiro, à drenagem dos solos, e de ter instalado no Longa equipamentos desproporcionais às necessidades da Fazenda.
Sobre o estado em que encontraram as fazendas, o director-geral da Cofergepo começa por referir-se ao Longa, onde havia muito “ferro-velho”. Dos 35 tractores apenas três funcionavam “mais ou menos”. Os 15 pivôs para irrigação estavam completamente inoperacionais.
A degradação dos pivôs, lembra, resulta do facto de terem sido instalados em terreno pantanoso, apesar da respectiva drenagem constar do orçamento. Quadro idêntico foi encontrado na fazenda de Camacupa, onde os pivôs instalados numa área de 400 hectares foram encontrados completamente destruídos.
Aliás, na fazenda do Longa, segundo José Suspiro, os pivôs instalados pelos empreiteiros chineses nunca funcionaram, “porque as áreas em que tinham que circular estavam alagadas e era necessário, primeiro, fazer a drenagem”, o que só começou a ser feito pela nova gestora.
Na fazenda do Sanza Pombo, segundo o gestor, o parque de máquinas também estava completamente destruído. Dos oito tractores de marca  Lovol de 180 HP,  sete tinham os motores abertos, três dos quais sem possibilidade de recuperação.
Trata-se de equipamentos concebidos para operar entre oito e 10 mil horas, ou 12 a 15 anos, e que não passaram das mil horas, no geral. Das quatro máquinas John Deer de 120 HP foi encontrada apenas uma em funcionamento. Dos 10 bulldozers de grande dimensão, dois trabalhavam com dificuldades.
O rol de equipamentos avariados na fazenda do San-za Pombo incluía três escavadoras do tipo Volvo 240 BLC, cuja recuperação está avaliada em cerca de 300 mil dólares norte-americanos, segundo o director da Cofergepo.
Nas outras fazendas, de acordo com a direcção da Cofergepo, o cenário é quase idêntico, admitindo, no en-tanto, que seria mais difícil hoje a recuperação dos empreendimentos, se o Executivo não tivesse afastado a Gesterra da sua gestão.
Não obstante a decisão de transferência da gestão das fazendas remontar a 2016, segundo a direcção da Cofergepo, o processo só ficou concluído há pouco menos de oito meses.
Para reactivar as cinco fa-zendas, a Cofergepo diz ter gasto, até ao momento, cerca de 24 milhões de dólares. Mas em relação à fazenda Longa, a empresa admite que, pelo “grau de destruição que apresenta, a recuperação levará entre três e quatro anos”.
“A herança recebida da Gesterra”, diz José Suspiro, inclui conflitos com a população, cujas lavras foram ex-propriadas, e os proprietários não foram indemnizados nos termos dos acordos assinados.

Gesterra refuta acusações e garante que equipamentos estão intactos

Reagindo às acusações da Cofergepo, o presidente do Conselho de Administração da Gesterra, Carlos Paím, diz que a única fazenda onde existem alguns pendentes com a população é em Camacupa, onde o processo de reintegração e indemnização não foi concluído, devido à transferência da gestão das unidades para o Fundo Soberano.
O dinheiro da indemnização, explica, provinha das receitas resultantes da comercialização dos produtos colhidos na fazenda. Sobre os alegados desvios de equipamentos, Carlos Paím garante que não foi retirado nenhum equipamento em fazenda alguma.
Em Abril, Carlos Paím denunciou a existência de cerca de seis mil toneladas de cereais nas fazendas controladas actualmente pela Cofergepo, resultantes das colheitas do ano agrícola 2015/2016, que não foram comercializadas até agora por razões meramente burocráticas.
O presidente do Conselho de Administração da Gesterra dizia que o produto corria o risco de deteriorar-se em silos e atribuía as culpas pela não comercialização ao Fundo Soberano.
A Cofergepo confirma apenas a existência de 3.400 toneladas de cereais e afirma que a  responsabilidade pela não comercialização é exclusivamente da empresa que geria as fazendas na altura das colheitas.
A Gesterra insiste que a quantidade de cereais em silos ascende as seis mil toneladas, sendo 3.000 toneladas de milho em Camaiangala, 2.000 toneladas de arroz em Sanza Pombo, 1.000 toneladas de arroz no Longa e 600 toneladas de milho no Cuimba.
Em 2010/2011, o Executivo, no âmbito do relançamento do empresariado agrícola, fez  investimentos na ordem de 700/800 milhões de dólares, que tinham por objectivo criar condições de produção em áreas com grande potencial agro-pecuário, de forma a criar condições para a produção de cereais, sobretudo, feijão, soja e arroz, para reduzir as importações de alguns produtos da cesta básica e garantir matéria-prima para o fomento da pecuária de pequeno porte e a avicultura.

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