Economia

Milhares de toneladas de cereais em risco de apodrecerem em silos

André dos Anjos

Numa altura em que o país ainda recorre a importações para cobrir o défice de produção de cereais, cerca de seis mil toneladas de arroz e milho, resultantes da campanha agrícola 2015-2016, correm o risco de deteriorar-se em silos, por razões meramente buracráticas que impedem a sua comercialização, revelou ao Jornal de Angola o presidente do Conselho de Administração da Gesterra, empresa que geria as fazendas de onde foram colhidas.

Parte do arroz “esquecido” em silos foi produzido na comuna do Longa, Cuando Cubango, onde o Estado detém umas das maiores
Fotografia: Nicolau Vasco | Edições Novembro | Cuando Cubango|

Carlos Augusto Dias Paím admitiu que, a julgar pelo tempo excessivo de armazenamento, o produto já perdeu parte do seu valor comercial. “A nossa maior preocupação prende-se com os resultados  da campanha agrícola 2015-2016, da qual  restam cerca de seis mil toneladas de cereais, que não foram comercializados e correm o risco de estragar-se”, disse.
Orçado em 300 milhões de kwanzas, nos cálculos da Gesterra, o produto permanece em silos nas fazendas Camaiangala (Moxico),  Cuimba (Zaire) e Sanza Pombo (Uíge), dois anos depois da colheita.
Por força do Decreto Presidencial 91/16, que aprova a concessão de projectos de desenvolvimento agrícolas, agro-industriais e agropecuários de fazendas do Estado de média e larga dimensão a sociedades comerciais, e autoriza o Fundo Soberano a deter a totalidade do capital social das sociedades concessionárias dos  projectos, directamente ou por intermédio de sociedades por si detidas, a maioria das unidades anteriormente geridas pela Gesterra foram confiadas ao Fundo Soberano.
As fazendas  Camaiangala, Cuimba e Sanza Pombo, fazem parte de um rol de unidades produtivas que eram geridas pela Gesterra, até 2016, altura em que a sua gestão foi transferida para o Fundo Soberano.
 A Gesterra distancia-se de qualquer responsabilidade pela não comercialização dos cereais e, embora admita que a situação se deva ao processo de transferência de gestão dos empreendimentos, diz que “só o Fundo Soberano é que pode responder a essa questão”.
“Estamos a discutir com o veículo que foi criado para gerir as fazendas, no sentido de rapidamente se dar início à comercialização desse produto”,  disse o PCA da Gesterra, referindo-se ao Fundo Soberano. Sobre o assunto, o Fundo Soberano remete qualquer pronunciamento para os próximos dias, por ocasião do balanço dos primeiros 100 dias de vigência da comissão de serviço do actual Conselho de Administração, em funções desde 10 de Janeiro deste ano.
Carlos Augusto Dias Paím lembrou que, em 2010 ou 2011, o Executivo, no âmbito do relançamento do sector produtivo empresarial, fez  investimentos na ordem de 700-800 milhões de dólares, que tinham por objectivo criar condições de produção em áreas com grande potencial agropecuário, por forma a criar condições para a produção de cereais, sobretudo, feijão, soja e arroz para reduzir a as importações de alguns produtos da cesta básica e garantir matéria-prima para o fomento da pecuária de pequeno porte e a avicultura.
Identificadas as áreas e concebidos os projectos de que resultaram, entre outros empreendimentos, as fazendas  do Sanza Pombo, Camaiangala, Cuimba, Camacupa (Bié), Pedras Negras (Malanje) e Longa (Cuando Cubango), o Executivo decidiu, em 2014, confiar a sua gestão à empresa pública Gesterra. Até à passagem da gestão para o Fundo Soberano, garante Carlos Augusto Dias Paím, as fazendas eram auto-sustentadas. “A Gesterra não dependia do Orçamento Geral do Estado.”
O PCA da Gesterra conta que, nas duas primeiras campanhas agrícolas, de  2014-2015 e 2015-2016, a empresa chegou a produzir 80 mil toneladas de milho e   12 mil toneladas de arroz, o que permitiu responder em cerca de 30 por cento à procura de grãos das sociedades avícolas e de produção de ração e atender em grande medida às necessidades de arroz das Forças Armadas e da Ordem Interna.
Apesar de o Fundo Soberano ter criado alguns veículos para a gestão das fazendas, o certo é que, nos últimos dois anos, por razões burocráticas e administrativas, o processo produtivo das fazendas, que já estava praticamente consolidado, voltou à estaca zero, disse Carlos Paím.


  Fazendas voltam a produzir com intervenção do Executivo

O Executivo solicitou ao Ministério da Agricultura um diagnóstico da situação actual unidades, este ano,  e afectadas a adopção de um novo modelo de gestão, com maior participação do sector privado.
Com o trabalho que está a ser feito pelo ministério da Agricultura, afirmou, este ano  deu-se um passo no arranque das fazendas. “Ainda de forma incipiente, porque é preciso fazer alguns investimentos para a reposição das capacidades das fazendas, fundamentalmente, em maquinas e pessoal especializado”, admitiu.
O presidente do Conselho de Administração da Gesterra disse acreditar que o resultado do diagnóstico, que o Ministério da Agricultura está a fazer, vai trazer soluções que vão  maximizar o potencial dessas unidades de produção. Na orientação baixada pelo Governo, lembrou, está claro que estas  fazendas devem produzir o máximo possível para atender,  ao máximo possível, às necessidades de cereais do país.
Da estratégia do Executivo consta, ainda, a recomendação de  alargar  o espaço de participação do sector privado no sistema de produção, reduzindo e circunscrevendo, progressivamente, o papel do Estado na criação de infra-estruturas de produção. “Temos recebido nos últimos anos muitas propostas de investimentos e a primeira coisa que querem saber é sobre as infra-estruturas disponíveis para o fornecimento de água, energia e acessos”, explicou.
Por isso, a estratégia do Estado vai, agora, no sentido de deixar a parte de produção com o sector privado, reservando para si os projectos estruturantes, tendentes a reduzir os custos de produção, concluiu.

Tempo

Multimédia