Economia

Poupança entre as variáveis do consumo da electricidade

Victorino Joaquim

O novo regime tarifário de energia que começou a vigorar a partir de ontem em todo o país, coloca clientes da rede nacional de electricidade contactados ontem pelo Jornal de Angola, em Luanda, na contingência de racionalizar o consumo.

Dória Félix vê a factura da energia subir 100 por cento

A reportagem deste jornal conversou com clientes da Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE) e com o director de Departamento de Apoio ao Sector Privado da Câmara de Comércio e Indústria de Angola (CCIA) que coincidiram na opinião de que as famílias e as empresas devem adoptar hábitos de poupança para comportarem as facturas da energia.

A funcionária pública Dória Félix, 38 anos, afirma que, para manter a casa iluminada e o funcionamento dos electrodomésticos, gasta cerca de 25 mil kwanzas por mês, carregados pelo sistema pré-pago de casa: o plano inicial para enfrentar os novos tempos é o de restringir o uso dos electrodomésticos.
Dória Félix faz parte dos clientes da categoria de “Doméstica trifásico”, grupo de maior capacidade e consumo. Com a actualização, o custo do quilowatt por hora passa de 7,05 para 14,74 kwanzas, um incremento na ordem dos 100 por cento, ficando com a perspectiva de pagar perto de 50 mil kwanzas por mês, situação que vem agudizar ainda mais as dificuldades.
“Será muito difícil assumir o custo da energia nestes valores. Para além das despesas com energia, temos outras necessidades. Neste caso, vamos ter de reduzir o uso de electrodomésticos, priorizando os de maior necessidade no dia-a-dia. Tentar fazer um uso mais racional da energia, um comportamento que todos os membros da família devem adoptar para evitar o esbanjamento”, disse a funcionária pública.
A lista das restrições inclui evitar o uso de electrodomésticos em simultâneo e do ar-condicionado na época do frio, apagar a luz ao sair do quarto e fixar dias para engomar: “vamos fazer de tudo para evitar pagamentos elevados e conservar ao máximo a energia”, concluiu.
A estratégia, aponta João Quintas, funcionário público de 36 anos, é a de manter, de forma equilibrada, a satisfação das principais necessidades da família: “a partir de agora, vamos deixar os velhos hábitos de esbanjamento de energia, que até eram visíveis em certas casas, onde mantinham vários televisores, sistemas de ventilação, esquentadores de água para o banho ligados sem ninguém a utilizar”, prevê o consumidor.
Residente no Calemba 2, numa casa de três divisões, com os principiais electrodomésticos, está inserido na categoria “doméstica monofásica”, que integra a maioria dos consumidores de electricidade no país, em que a tarifa passa dos 6,53 para 10,89 kwanzas por quilowatt/hora, um incremento de quase 40 por cento.
Actualmente tem uma despesa sobre o consumo de energia no valor de cinco mil kwanzas por mês, mas com a entrada em vigor do novo regime tarifário, os gastos ascendem a cerca de sete mil, um gasto que, segundo João Quintas, já pesa nas despesas da família, absorvendo, ao longo do tempo, parte do que pode ser direccionado para a educação, saúde, alimentação e vestuário.
O pagamento mensal de sete mil vai representar, ao longo do ano, ao desembolso de 84 mil kwanzas, contra os 60 mil kwanzas actuais, explicou. Apesar de reconhecer a necessidade de actualização dos preços devido à eliminação dos subsídios do Estado, João Quintas manifestou-se desconfortado com a inclusão, na factura da energia, do pagamento mensal de 600 kwanzas para a limpeza.
Manuel Simão, 41 anos, considerou que o momento não é o mais adequado para o reajuste da tarifa, uma vez que a qualidade e a irregularidade de abastecimento constituem factores que ainda carecem de melhorias.
Morador do bairro da Cerâmica, no município de Cacua- co, onde vive numa residência de duas divisões, possui os mais essenciais electrodomésticos, tendo o consumo inserido na categoria doméstica social, cujo o valor sobe de três para 6,41 kwanzas, um aumento na ordem de mais de cem por cento. Actualmente, tem um custo de energia de dois mil kwanzas por mês, mas até ao final dos próximos 30 dias vai pagar quatro mil kwanzas.

Industriais pagam mais
O director de Departamento de Apoio ao Sector Privado da Câmara de Comércio e Indústria, José Alentejo, chama atenção para as vantagens da actualização do preço de consumo de energia.
Segundo o director, a situação vai exigir da parte dos industriais uma mudança de comportamento.
“Os industriais vão passar a primar por uma cultura de poupança na utilização da energia, priorizando o abastecimento das áreas indispensáveis ao processo de pro- dução e bem-estar dos funcionários, evitando o esban- jamento de energia”, disse.
A nova tarifa de energia para as indústrias teve um acréscimo na ordem dos 70 por cento, passando de 7,05 para 12, 83 kwanzas por quilowatt/hora.
Com a actualização, disse, o Estado vai arrecadar mais recursos financeiros para serem aplicados no desenvolvimento do sistema eléctrico nacional. “Assim sendo, todos nós ganhamos em termos de desenvolvimento”, salientou o responsável.
O sector da indústria, considerou, é estruturalmente favorável a investimentos que viabilizam o consumo, uma vez que foi dos que mais foi afectado pelo longo pe-ríodo de défice. Com a entrada em funcionamento de alguns empreendimentos como as hidroeléctricas de Capanda e Laúca, bem como do Ciclo Combinado do Soyo, hoje estão disponíveis 3,5 gigahowts, nos quais o Estado empregou 12,7 mil milhões de dólares.
A perspectiva é de que 50 por cento da população tenha acesso a energia eléctrica até 2022, num processo que inclui na rede cerca de 2,6 milhões de clientes entre 2020 e 2022.
A CCIA, disse José Alentejo, deplora o facto das receitas serem muito reduzidas e haverem perdas que representam 36 por cento do total da energia produzida, principalmente por insuficiências de facturação e cobrança.

Ministério das Finanças
O novo regime tarifário de energia eléctrica entrou em vigor ontem, estabelecendo novas tarifas para as diferentes categorias, como forma de garantir que os subsídios beneficiem efectivamente os segmentos mais vulneráveis da população, contrariamente ao que vinha sucedendo até aqui.
“As novas tarifas introduzem mecanismos de protecção dos consumidores com menores rendimentos, para além de outras medidas de protecção social que estão a ser adoptadas”, considera o Ministério das Finanças.

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