Economia

Praga desconhecida afecta vários campos de mandioca

Isidoro Natalício

Um ano após a plantação, a mandioca, um dos principais alimentos na dieta das populações do norte e leste do país, começa a apresentar o apodrecimento precoce e, em al-guns casos, um tamanho fora do habitual.

Por causa de pragas e da acção de roedores e deficiente assistência agro-técnica, milhares de famílias angolanas têm obtido baixos rendimentos
Fotografia: Nilo Mateus | Edições Novembro | Cuanza-norte

A situação, já alertada por produtores nas províncias do Cuanza-Norte, Bengo e Ma-lanje, pode prejudicar a colheita deste ano na ordem dos 95 por cento, o que representa uma ameaça de fome para  a maioria das populações das regiões afectadas.
Maria José, de 47 anos de idade, cultiva na área do Quilombo, a cinco quilómetros a sul de N’dalatando, a sede provincial do Cuanza-Norte. Maria contou que primeiro apodrece a maniva (o caule do pé da mandioca), depois secam as folhas. A praga estende-se à mandioca, que apodrece, e por fim cai o caule.
“Se deixas a mandioca dois anos, a pessoa não consegue nada. Tão logo atinge os seis meses, temos de tirar a mandioca de imediato, mesmo fina. Estamos assim há quatro anos, mas continuamos a trabalhar, para não morrermos de fome”, disse, visivelmente consternada, Maria José.
Em concreto, até aqui desconhece-se a praga que arrasa o mandiocal. Mas, no entender do agrónomo José Augusto Martins, “a olho nu, e pelas características do tubérculo, parece ser a doença mosaico” e “resta-nos saber se é um problema de solos, das águas ou de seca”. Ele sustenta que “não atingindo a fase de maturação, apodrece, então pode estar aí uma praga não identificada, além do vírus do mosaico que atinge quase todas as variedades de plantas”, reforçou.
A disseminação da praga pode ter, também, certa culpa dos produtores, sobretudo das famílias camponesas. “Há teimosia dos nossos camponeses, pois, quando é introduzida uma nova variedade de planta, insistentemente é usada a que está afectada, acabando esta por atingir a nova planta”, referiu José Augusto, que exerce a função de chefe de Departamento Provincial de Agricultura e Florestas do Cuanza-Norte.

Agrojornal

O jornal especializado em assuntos agrícolas - o Agrojornal, revela que são conhecidos, pelos menos, 17 tipos de virose da mandioca, das quais oito ocorrem em África. Acrescenta que os sintomas do mosaico são folhas pequenas em tamanho, deformadas e torcidas com zonas amarelas separadas por áreas, de cor verde normal, plantas raquíticas e novas folhas a cair.
O Agrojornal revela que a variação nos sintomas pode ser por causa das diferenças nas características do vírus, na sensibilidade do hospedeiro, idade da planta e factores ambientais, tais como fertilidade e disponibilidade em humidade do solo, radiação, particularmente a temperatura.
O  Agrojornal revela que as viroses são disseminadas nas estacas usadas rotineiramente como propagação vegetativa ou pela mosca branca. A disseminação através de estacas pode causar a introdução das doenças para novas áreas e ser responsável pela ocorrência de enfermidades  nas zonas onde há pouca ou nenhuma propagação pela mosca branca.
As especialistas  Maria de Fátima Baptista, Vera Lúcia de Almeida Marinho e Robert Miller escrevem que o primeiro registo de uma devastação de mosaico em mandioca ocorreu no Uganda, em 1989, e foi disseminado para o Quénia, em 1995, Sudão do Sul, em 1997, e Tanzânia e República Democrática do Congo, em 1998. Provavelmente, é a partir do país vizinho que a enfermidade terá penetrado em Angola.

Ausência de certificação

O primeiro passo dado no Cuanza-Norte para se descobrir a praga foi a presença na região, no ano passado, de técnicos de Luanda, que averiguaram a situação, mas que os resultados dos estudos laboratoriais tardam a ser anunciados. A tarefa estaria facilitada, se as análises fossem feitas na Estação de Investigação Agronómica do Quilombo, em N’dalatando, cujos equipamentos, montados em 2014, nunca funcionaram, por falta de água, energia eléctrica, reagentes e pessoal qualificado, segundo o seu responsável, o engenheiro agrónomo João Domingos Lambaiala.
Até finais da década de 90 havia poucos relatos de doenças da mandioca. Eram visíveis tubérculos que chegavam a pesar cinco ou sete quilogramas e até atingir um metro de comprimento.  No entender do engenheiro José Augusto Martins, havia na altura controlo efectivo das variedades, ao contrário do presente momento, em que algumas plantas entram no país sem certificação.
Para José Martins, as soluções para travar a crise passam pela extinção da plantação afectada e consequente introdução de novas variedades. Destruição do material doentio, que chega a corresponder a um terço de uma certa plantação, é o que José Castame diz ter feito na sua fazenda, em Quizenga, Malanje. “Temos um trabalho aturado de selecção, pois, quando fazemos uma plantação, temos de limpar do material aquilo que deixa uma mancha sintomática. Temos de eliminar, para deixar sãs as plantas”, disse.
Para certos camponeses, a extinção é mais complexa, porque se ficaria meses sem produção de mandioca, com a espera de novas plantações, ou mesmo que novos plantios começassem a render. Por isso, sugerem que o Governo atribua suprimentos alimentares durante o “jejum” produtivo.

Novas plantações são solução para proteger produção

O recurso à novas plantas depende de ensaios, para se testar a resistência às enfermidades ou à multiplicação de variedades certificadas. Por exemplo, no Quilombo faz-se, desde 2010, ensaios de mandioca conduzidos pelo Programa Nacional de Raízes e Tubérculos.
“Temos ali algumas variedades de mandioca. Infelizmente, não chegamos a colher e fazer análises dos ensaios, devido ao vandalismo dos homens do alheio”, disse João Lambaiala.
Apesar dos receios que se colocam de uma eventual disseminação de material contaminado, face a ausência de estudos laboratoriais, o engenheiro José Castame disse que produz e vende nos últimos quatro anos, ao Ministério da Agricultura, quatro milhões de estacas, de uma variedade local, e duas nigerianas.
José Castame notou que atingem a maturação em 14 meses, que bem plantadas servem para 400 hectares, sendo as províncias do Huam-bo, Bié e Lunda-Sul as privilegiadas. “Temos a nossa percepção visual e não dissemos que as plantas estejam 100 por cento limpas dessa doença. A olho nu, podemos dizer que estão dentro dos parâmetros e o ideal é a investigação, ainda que não podemos parar”, sustentou.
O quadro sombrio na investigação da mandioca pode melhorar, a julgar pelo anúncio, há dias, dos nove milhões de dólares financiados pelo Banco Mundial, para se relançar a estação de Malanje. O valor em causa possibilita melhorar o essencial numa estação de investigação, mormente os indispensáveis sistemas de água, electricidade, irrigação, aquisição de reagentes, máquinas e estudos a nível de variedades precoces, compasso, adubação, doenças, pragas, produtividade, nutrição, resistência a acidez e diminuição de altura e do ciclo.
A mandioca consome-se crua ou cozida e dela derivam a farinha de bombo, usada para confecção de funge, além da farinha torrada e o próprio bombo, muito consumido frito ou assado. Além da alimentação humana, a mandioca é também utilizada para ração animal e descartada no solo como adubo orgânico ou na produção de álcool, para fins de bebida, perfume e medicamento.

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