Economia

“Projecções do FMI para África descuram aspectos complexos”

Victorino Joaquim

O secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África de 2012 a 2016 chamou a atenção dos Estados do continente para os ajustamentos macroeconómicos baseados na transformação da política fiscal e as projecções de instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Carlos Lopes liderou a Comissão Económica da ONU?para África
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Carlos Lopes fez estas advertências no lançamento, em Luanda, do livro “África em transformação na era das incertezas”, de que é autor, por ocasião do 10º aniversário da criação do Centro de Estudos de Ciências Jurídico-económicas, Políticas e Sociais da Universidade Agostinho Neto, há pouco mais de uma semana.
Com base no conteúdo da obra, o autor considera que, na maior parte dos países africanos, a produção de dados estatísticos é débil, pelo que apela a uma reflexão para determinar se, ao fazer projecções sobre o continente, é tido em conta que só 16 países têm as contas nacionais actualizadas. “Sem ter as contas nacionais em dia, teremos dificuldades em conhecer a estrutura da economia”, sublinhou.
Outra interrogação que é necessário colocar é relativa a que apenas 60 por cento dos africanos têm registo civil, o que significa que uma grande parte da população, nestes países, pode nascer e morrer sem ter nenhum documento e nenhuma transacção formal durante a sua vida política, social e económica.
Pede que se olhe para o facto também não tido em conta nas projecções das instituições multilaterais de que, em África, apenas 1,00 por cento das terras estão registadas nos cadastros oficiais, porque, “se não conhecemos a terra, nem conhecemos as pessoas, não conhecemos a economia”, notou.
O académico, com cátedras na África do Sul e em França, questiona como, com projecções que não têm em conta estes aspectos, o FMI elege como primeira receita a transformação na base da política fiscal e monetária dos países que adoptam programas de estabilização e crescimento económico. “Não se pode transformar um país na base de uma política fiscal e monetária: deve-se conhecer mais os aspectos complexos sem os quais teremos problemas sérios de diagnóstico e, sem um bom diagnóstico, não teremos boas políticas”, declarou Carlos Lopes.
O economista também deplora as conclusões das missões de avaliação das instituições financeiras internacionais como o Banco Mundial e o FMI, considerando-as muitas vezes “desonestas” por reflectirem estatísticas adaptadas a conclusões pré-concebidas.

Desafios da transformação
Segundo Carlos Lopes, a vastidão dos dados estatísticos permite outra leitura da realidade africana, “desde que não seja pautada pelo pessimismo, nem tão pouco pela euforia”.
Escrito depois da sua saída das Nações Unidas, o livro aborda aspectos da economia do continente, tentando estimular uma discussão à volta dos desafios da transformação estrutural, os quais passam pela saída da letargia em domínios como a formulação de políticas e a adopção de processos de industrialização.
Este último processo, necessário para o desenvolvimento, é o único que pode gerar emprego para dar respostas à “curva demográfica que estamos a observar em África, onde a população, muito jovem, precisa de empregos mais modernos e decentes”.
Apesar dos cerca de 500 milhões de dólares de produtos industriais transformados em África, existem vários obstáculos que inviabilizam o aumento da produção. De acordo com Carlos Lopes, o continente enfrenta obstáculos como um capital humano débil, logística aeroportuária bastante medíocre, propriedade intelectual (registo de patentes, marcas) altamente concentrada em mãos privadas e sem utilização pública, bem como infra-estruturas de informática muito débeis.

Tempo

Multimédia