Economia

Sérgio dos Santos: “Crise cria oportunidades para a produção interna”

Ismael Botelho

Os efeitos da pandemia causada pelo novo coronavírus na economia angolana dominaram a passagem do ministro da Economia e Planeamento pelo “Grande Entrevista” da TPA, na terça-feira, onde considerou que, apesar dos desafios, a crise abre novas oportunidades para a produção interna.

Ministro da Economia e Planeamento,Sérgio dos Santos
Fotografia: DR

Sérgio dos Santos garantiu que há uma tendência de redução das importações de bens já produzidos em Angola, o que abre a possibilidade de uma maior aposta desde que, com recurso aos mecanismos de apoio existentes, as empresas dupliquem a produção de trigo e a carne frango, para citar dois exemplos.

A produção de trigo passou de 272 mil toneladas em 2018, para 333 mil em 2019, um aumento de 18 por cento, enquanto a importação de frango caiu de 361 mil toneladas em 2018, para perto de 253 mil toneladas em 2019, uma queda de 30 por cento.

“Há aqui uma grande oportunidade dos empresários nacionais investirem forte na produção de trigo e frangos”, aconselhou, considerando que uma redução significativa das importações traz oportunidades para a produção interna, uma vez que o menor consumo de produtos importados favorece a procura dos bens e aumenta a necessidade da produção interna.

“Temos que evitar que as nossas políticas de substituição de importações sejam torneadas”, frisou, para defender “uma forte aposta” no sector produtivo, nomeadamente, na indústria, agricultura (sobretudo a familiar) e pescas. O ministro apresentou como mecanismo favorável à aposta na produção nacional, o Programa de Apoio ao Crédito (PAC), inserido no Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição de Importações (Prodesi).

Nesse domínio, lamentou uma notável falta de preparação da parte dos bancos e da classe empresarial nacional, apesar de a economia ter disponíveis 260 mil milhões de kwanzas para apoiar a produção dos 54 bens da cesta. No tocante ao Prodesi, até ao momento foram aprovados 216 projectos com fundos provenientes do PAC, além de que operadores do sector produtivo também foram apoiados com iniciativas de financiamento do BDA e do BNA.

“Temos tido vários programas de garantias. Estamos a criar condições de mais segurança para os bancos”, referiu. O ministro sublinhou que, a despeito da actual conjuntura mundial, fortemente afectada pelo novo coronavírus, a Agência de Investimento e Promoção de Exportações (AIPEX) registou 44 propostas de investimento, um sinal que, disse, evidencia a necessidade de maior aposta interna.

Ambiente de negócios

O ministro da Economia reconhece que o ambiente de negócios em Angola ainda não é dos melhores, mas que foram feitos grandes avanços neste sentido, com destaque para a aprovação da nova Lei do Investimento Privado, que permite a simplificação de processos e garante maior segurança aos investidores. Angola ocupa a posição 177 dos países para investir, num universo de 190 nações.

Medidas de alívio

Com relação às medidas para atenuar as dificuldades das empresas nesta fase da Covid-19, Sérgio dos Santos afirmou que o Estado olhou, sobretudo, para a questão da isenção fiscal e a aposta em programas específicos de apoio aos empresários de micro, pequenas e medias empresas, onde iniciativas de jovens empreendedores estão salvaguardas.

Na ocasião, o ministro da Economia e Planeamento afirmou que o Executivo tem noção do impacto da pandemia sobre o tecido económico nacional que, este ano, regista uma contracção de 7,2 por cento, mas ao mesmo tempo reconhece que não existe dicotomia entre a economia e a saúde. “É importante, nesta fase, olhar-se para as pessoas e, também, para as empresas, uma vez que todas as economias do mundo terão uma desaceleração, com excepção da China”, disse.

O sector informal mereceu particular destaque na entrevista do ministro da Economia e Planeamento, que é de opinião que o Estado deve chegar às pessoas, levando serviços. “Devemos ir ao encontro dos locais onde existe actividade informal”, disse. 

Neste momento, as acções para conferir maior dignidade àqueles que estão na informalidade já estão em curso, com contactos adiantados com as associações que defendem os interesses desta franja da sociedade, como são os casos da Associação dos Motoqueiros Transportadores de Angola (Amotrang), a associação de Zungueiros e outras, para concertação.

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