Entrevista

"25 de Abril foi decisivo"

Portugal celebrou ontem o Dia da Liberdade. No dia 25 de Abril de 1974 uma acção militar, a “Revolução dos Cravos”, derrubou a ditadura fascista. Em Angola a efeméride assume um significado muito particular como defende em entrevista ao Jornal de Angola o deputado Manuel Pedro Pacavira.

Deputado Manuel Pedro Pacavira
Fotografia: Nuno Flash

Jornal de Angola: O que representa o 25 de Abril para Angola?

Manuel Pedro Pacavira: É antes de mais um acontecimento histórico de extraordinária importância internacional e também para Angola. Pelas repercussões, pela relevância e âmbito, mas também pelo que significou na mudança do regime, com o resgate da liberdade para o povo português e para os povos das colónias.

JA - O que mudou em Angola?

MPP -
O 25de Abril de 1974 mudou o curso da história dos povos que estavam ainda na condição de colonizados. Foi uma interacção de factos e acontecimentos políticos que envolveram Portugal, como potência colonizadora, e os movimentos de libertação das colónias sob denominação portuguesa.

JA - Refere-se a que factos?

MPP -
Os movimentos de libertação das colónias, em particular aqueles que se encontravam de armas na mão, na Guiné-Bissau, Moçambique e em Angola, envolvidos numa intensa guerra de guerrilha, de vida ou morte, do tudo ou nada, influíram muito positivamente para que os jovens oficiais militares portugueses fizessem o 25 de Abril.  Já estavam cansados e perceberam que a guerra não tinha objectivo nenhum. Então entenderam rebelar-se contra o poder colonial. Em contrapartida também esta revolta dos jovens portugueses no exército colonial, criou premissas para um novo contexto, na luta dos povos que desejavam ardentemente libertar-se.

JA - Onde estava quando se deu o 25 de Abril?

MPP -
Estava preso em Cabo Verde, no campo de concentração do Tarrafal. Cheguei a Luanda no dia 4 de Maio, duas semanas depois. O director da cadeia veio dar-nos a notícia de que tinha ocorrido em Portugal um golpe de Estado. Mas não tinha orientação nenhuma. Os militantes do PAIGC foram para lá fazer uma manifestação e piquetes para nós sairmos da prisão.

JA - Mesmo depois do golpe ouve resistência para serem libertados das cadeias?

MPP -  O Movimento das Forças Armadas ordenou a nossa libertação. Foi assim que saímos da prisão sem guias de marcha sem nada. Meteram-nos num avião da Força Aérea e aterrámos em Luanda. Viemos do aeroporto para a Casa de Reclusão, mas saímos no mesmo dia também sem documento algum.

JA - Como viu Luanda depois de longos anos preso?


MPP -
Assim que chegámos fomos para a Casa de Reclusão, mas eles também não sabiam o que fazer. A PIDE estava em debandada, a administração colonial estava paralisada e quem estava a aguentar um bocadinho era a polícia. Os militares estavam com o Movimento das Forças Armadas, apoiavam a Revolução de Abril. A polícia é que estava a ser comandada por reaccionários que passaram à acção directa, matando os negros nos bairros. Mas como já tínhamos conseguido organizar-nos, conseguimos expulsá-los dos bairros.

JA -O 25 de Abril é o processo de descolonização em si?

MPP –
O Movimento das Forças Armadas criou as premissas para a mudança do curso da História dos povos colonizados, mas de maneira nenhuma posso dizer que foi a causa. Porque a luta não parou aí. O 25de Abril não desaguou directamente na independência de Angola e de Moçambique. Claro que na altura a Guiné-Bissau já tinha outra condição, porque praticamente naquela altura já a guerra tinha terminado. Foi assunto resolvido pelo

PAIGC. A situação da Guiné-Bissau não se comparava em nada com a de Moçambique, muito menos a de Angola.

JA - Porquê?

MPP –
Spínola, o Presidente da República, não pensava libertar Angola. Era a jóia da coroa. E o triunfo do movimento revolucionário de 25 de Abril, apesar de ter criado as premissas, trouxe a lume várias perspectivas no seio dos oficiais do MFA sobre o destino a dar às colónias. A luta não parou precisamente no 25 de Abril por causa da existência dessa variedade de perspectivas no seio dos oficiais que se revoltaram.

JA - Que perspectivas eram essas no seio do MFA?

MPP -
Dentro do movimento revolucionário de 25de Abril foram incorporados antigos oficiais superiores que pouco tempo antes constituíam o estado-maior do regime fascista. Explico-me: triunfou o movimento, mas o movimento não foi gerido somente por esses oficiais que se revoltaram, como Otelo Saraiva de Carvalho, Rosa Coutinho, Pezarath Correia e tantos outros.

JA - Quem mais integrou o movimento?

MPP
- O movimento incorporou muitos oficiais que representavam o regime em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. No caso concreto da Guiné-Bissau, o Spínola, e em Angola, o Silvino Silvério Marques, que era um dos ideólogos das novas ideias de colonização.

JA - Que ideias eram essas?

MPP - Havia três perspectivas. Uma delas era defendida por oficiais superiores que integravam o estado-maior do regime derrubado no 25 de Abril. Queriam perpetuar o colonialismo sob novas formas, como na antiga Rodésia de Ian Smith. Ou o apartheid da África do Sul.

JA - Como actuaram esses oficiais do fascismo?

MPP -
Era preciso encontrar uma solução e  foram ensaiando cenários, a começar pela jóia da coroa. Um dos cenários que eles ensaiaram foi provocar factos ou situações políticas em Angola que precipitassem uma declaração unilateral da independência que seria governada somente por brancos e colorida com alguns negros e mestiços fiéis ao regime fascista de Lisboa. Silvino Silvério Marques fazia parte dos oficiais superiores que integravam o regime colonial e defendiam a ideia da independência de Angola, ao estilo da África do Sul e da antiga Rodésia, hoje Zimbabwe.

JA - Existiam outros cenários?

MPP - Havia uma outra corrente no seio do Movimento das Forças Armadas, aqueles que defendiam o federalismo, mas nunca explicavam nem o conteúdo, nem o programa. Havia sim um programa claro do Movimento das Forças Armadas, que era a descolonização total das colónias portuguesas.

JA - Em que consistia a corrente do federalismo?

MPP - Não havia nada de concreto. Era um projecto sem conteúdo, nem programa. Queriam construir a república federal portuguesa com Angola como estado federado. Esses elementos do MFA não pretendiam, de maneira nenhuma, deixar Angola.

JA - Qual era a terceira perspectiva política?

MPP -
Portugueses progressistas ensaiaram a ideia de uma confederação entre Portugal, Angola e Cabo Verde, que seria a Confederação das Repúblicas Luso-Socialistas.

JA - Essas correntes no seio do MFA tiveram consequências em Angola?

MPP -
Enquanto se vivia essa indecisão, as forças reaccionárias, que eram aqueles que detinham o poder em Angola, como não podiam aplicar o menu de Marcelo Caetano, através de Silvino Silvério Marques, passaram à acção. Quando Silvino Silvério Marques regressou a Angola, depois do 25 de Abril,  como representante do Movimento das Forças Armadas, não se sabia muito bem qual era a sua missão. Mas pelas suas acções tudo ficou bem claro para nós.

JA - Que acções?

MPP –
Silvino Silvério Marques alimentava as forças contra-revolucionárias, que começaram a matar os negros nos bairros. Nós internamente tivemos que passar à acção directa para nos defendermos.

JA - Isso corresponde a que período da História?

MPP -
Foi entre Maio e Agosto de 1974, logo a seguir a 25 de Abril.

JA- Onde estava nessa altura?

MPP -
Estava aqui no país a coordenar as acções, credenciado pelo Presidente António Agostinho Neto.

JA - Com quem contou para essas acções políticas?

MPP - Primeiro com o apoio do Presidente Neto. O camarada Lúcio Lara e a direcção em Brazzaville, que integrava o camarada José Eduardo, apoiavam a nossa luta interna.

JA – E com que forças contava internamente?


MPP - Internamente contamos com o apoio de muitos militantes. Posso nomear Hermínio Escórcio, Virgílio Furtado, Brás da Silva, Aristides Van-Dúnem, Arminda Faria, Albina Assis, Zeza Cohen, e tantos outros, na sua imensa maioria do MPLA. Havia algumas pessoas que militavam na clandestinidade como é o caso do Dr. Diógenes Boavida, o grupo da Dra. Maria do Carmo Medina, o Movimento Democrático de Angola, que jogou um papel importante nesta guerra. Porque foi mesmo uma guerra, pois tivemos que pegar em armas. E ainda contamos com os camaradas comandantes do MPLA que tinham sido aprisionados pelas autoridades portuguesas e se puseram ao serviço da guerrilha urbana.

JA - É um período pouco comentado e conhecido?

MPP -
Pouca gente não fala disso. Realmente é um período pouco falado, mesmo alguns camaradas do MPLA que estavam no exterior não sabem. Mas essas acções de resistência dos militantes do MPLA, tiveram o seu apogeu em Julho de 1974, creio que no dia 11.

JA - O que aconteceu nesse dia?

MPP - Militares angolanos no exército colonial fizeram uma marcha, mas fomos nós que organizamos, porque alguns deles eram parentes nossos. Foram fazer uma manifestação junto do comandante em chefe das forças armadas portuguesas, general Franco Pinheiro, na Fortaleza de São Miguel, para deporem as armas. Foi num dia útil, dia de trabalho, e saíram à rua acompanhados pela população.

JA - Recorda-se de alguém que tenha marchado nesse dia?

MPP -
Tínhamos o Américo de Carvalho, irmão do bispo Emílio de Carvalho, que era alferes e se distinguiu na mobilização e na marcha. O Eduardo Bravo, sargento, o meu primo-irmão, Manuel Pacavira Júnior, e também participaram muitos outros jovens, como o Fernando da Piedade Dias dos Santos, actual presidente da Assembleia Nacional. Foi uma marcha militar não apenas de negros. Estavam todas as raças. Existiam brancos portugueses progressistas na manifestaçãi. Foi um acontecimento de vulto, que paralisou a cidade.

JA - Que impacto teve a marcha naquele período?


MPP -
A acção do dia 11 de Julho teve como consequência positiva a elevação da consciência patriótica dos angolanos, que acreditavam na invencibilidade dos reaccionários e generalizou-se por todo o país, pois nesse mesmo dia da manifestação, no Huambo também foi realizada uma outra de desobediência da tropa em que eles arrearam a bandeira portuguesa e içaram a do MPLA. Nessa semana muita tropa começou a desertar, negros e brancos. Uns foram para a guerrilha, outros vieram pedir instruções para actuar.

JA - Como reagiu o movimento do 25 de Abril?


MPP - O movimento de 25 de Abril foi obrigado a encontrar rapidamente uma solução para gerir o problema de Angola. Foi assim que enviaram para cá o almirante Rosa Coutinho.

JA - Qual era a corrente defendida por Rosa Coutinho?

MPP - Ele defendia que a solução para o problema angolano passava por uma independência genuína. Entendia que era urgente entregar o poder ao povo. E viu rapidamente que o único movimento que representava de facto o povo era o MPLA.

JA - O que o levou a ter essa percepção?

MPP - Os militantes do MPLA, em duas ou três ocasiões, desde Maio a Agosto, mostraram que a força revolucionária residia em nós. Antes de a direcção do movimento vir para aqui, em todos os sítios havia bandeiras do MPLA, camisolas da OMA, pioneiros da OPA a marchar. E eles viram que não havia hipótese. E nas províncias, naquela altura distritos, havia declarações pró MPLA e mensagens de apoio a Agostinho Neto. Enquanto decorria esta batalha, forças internacionais, no contexto da guerra-fria, criaram uma situação política para afastar Agostinho Neto do MPLA ou dividir o MPLA.

JA - Refere-se a que figuras políticas em concreto?


MPP -
Era a reacção internacional, no âmbito da guerra-fria. Já não importam nomes. Mas também esta acção revolucionária cá dentro animou os nossos amigos socialistas a apoiarem o MPLA, agora sem reservas.

JA - O que levou a essa mobilização popular?

MPP - Antes havia algumas hesitações, mas a partir dessas iniciativas internas, os amigos do MPLA da comunidade socialista ficaram animados e começaram a apoiar-nos. Por isso digo que o 25 de Abril de 1974 representa muito para Angola.

JA - Como era visto o caso de Angola nas organizações da comunidade internacional?

MPP - A questão de Portugal, em particular a de Angola, estava todos os anos na agenda das Nações Unidas. Por exemplo, em 1960 constava na agenda como primeiro ponto da Assembleia-geral da ONU. E reparem que não foi na quarta comissão, que é a comissão de tutela.

JA - Quem levou o caso de Angola às Nações Unidas?


MPP - Os países africanos e os países asiáticos independentes, naquela altura, apoiados pela antiga União Soviética, a China e demais países da comunidade socialista. Mas a máquina de propaganda do regime colonial português era tão forte que conseguia aqui internamente abafar tudo, incluindo as acções de guerrilha eram apagadas. Mas a pressão internacional era grande, e além disso a guerra em si estava a custar-lhes muito dinheiro. Por isso estavam à procura de soluções.

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