Entrevista

" Angola é bom parceiro"

Eleazar Van-Dúnem |

Angola e Espanha estão a celebrar 35 anos de relações diplomáticas “estáveis e ininterruptas”, nas palavras da embaixadora de Espanha em Angola. Júlia Alicia Olmo Y Romero, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, falou sobre o percurso da cooperação bilateral entre os dois países, os números das trocas comerciais e as perspectivas para impulsionar e potenciar as relações “para adequá-las às novas realidades dos dois países”. A embaixadora de Espanha está há três meses em Luanda mas já se sente em casa.

Embaixadora Júlia Romero defende o aprofundamento das relações comerciais e políticas
Fotografia: Kindala Manuel

Jornal de Angola - A Espanha foi o segundo país a reconhecer a independência de Angola. Este facto tem ajudado a alicerçar as relações entre os dois países?

Júlia Romero -
Esse reconhecimento é um dado chave para entender as boas relações entre Espanha e Angola. Em Novembro de 1975 éramos duas nações jovens. Uma nascia para a sua independência e a outra estava a iniciar a sua caminhada rumo à democracia. O nosso reconhecimento foi uma aposta clara em Angola e no seu futuro e uma mostra de confiança que posteriormente fomos consolidando nas diferentes etapas da história angolana.

JA - Como avalia as relações do ponto de vista geral?

JR - As relações entre Espanha e Angola são excelentes. Este ano, cumprem-se 35 anos de relações diplomáticas estáveis e ininterruptas. Temos uma longa relação de amizade, de confiança e de respeito mútuo. Temos um diálogo sincero e fluído, como aquele que se produz entre nações iguais e soberanas. Nunca tivemos qualquer contencioso. Estamos decididos a impulsionar e a potenciar esta relação para adequá-la à nova realidade dos dois países. A Espanha pode ser um bom parceiro para Angola, um parceiro fiável na Europa. Esperamos que a próxima visita do ministro dos Assuntos Exteriores espanhol marque o início dessa nova etapa e aprofunde esse relacionamento.

JA - Em que áreas da cooperação entre os dois países existe mais desenvolvimento?

JR -
A nossa cooperação consolidou-se a partir do Acordo Geral de Cooperação, que começou em 1987. Muitos progressos foram feitos após os acordos de paz de 2002. A cooperação passou de ajuda alimentar e de emergência no período de conflito armado, a um período de reconstrução nacional acompanhado de um forte crescimento económico do país. Estamos a desenvolver uma significativa relação económica e comercial que implicou nos últimos anos financiar projectos avaliados em mais de três mil milhões de dólares nos sectores da energia, saúde, infra-estruturas, transportes, segurança, agricultura e pesca.

JA - Quais são os números das trocas comerciais?

JR -
Os intercâmbios comerciais são muito favoráveis a Angola em termos económicos. Os  dados indicam que entre Janeiro e Setembro de 2012, os números das trocas comerciais ascenderam a 1.159 milhões de dólares, dos quais 878 milhões correspondem às exportações angolanas para Espanha. As exportações angolanas cresceram 48,3 por cento com respeito ao mesmo período do ano anterior. Angola é o terceiro provedor de Espanha no continente e um dos três clientes mais importantes da região.

JA - O que tem sido feito a nível do Ensino Superior?


JR - Este é um dos sectores tradicionais. Sete universidades públicas espanholas trabalham com universidades públicas angolanas. A cooperação nesse sector inclui o projecto de Fortalecimento Institucional da Faculdade de Ciências Agrárias (UJES) no sector da Agro-indústria, com o apoio da Universidade Autónoma de Barcelona. O Fortalecimento da Licenciatura em Silvicultura na Faculdade de Ciências Agrárias (UJES) tem como resultado principal a primeira promoção de licenciados em silvicultura e engenharia florestal neste mês de Dezembro. Temos igualmente projectos em curso com a Universidade Politécnica de Valência, com a Universidade Rey Juan Carlos e com a Universidade de Las Palmas de Gran Canária.

JA - Como avalia as relações entre o empresariado dos dois países?

JR -
A experiência de intercâmbio empresarial é muito positiva. Existem empresas espanholas instaladas em Angola há mais de 25 anos e que permaneceram fiéis a este país nos anos mais difíceis. Não são investimentos andorinha, investimentos passageiros, mas sim companhias que vieram para ficar, para gerar riqueza para os angolanos, transferir capacidades e gerar emprego. Temos mais de 40 empresas instaladas em Angola nos mais diversos sectores: Elecnor, Isolux, África-Sementes, Maxam, Sacyr (através de Somague), grupo Leche Pascual, Makiver, Porcelanosa, Pescanova, Sacep, Satec, Impulso. E outras com grande vontade de explorar este mercado.  

JA - A Espanha tem ajudado na diversificação da economia angolana?

JR -
A presença empresarial espanhola cobre múltiplos sectores da economia e do comércio de bens e serviços. A nossa presença na indústria petrolífera angolana, hoje através da Repsol, é um facto relativamente recente. Portanto apostamos sempre na diversificação e entendemos que os esforços do Governo de Angola nesse sentido são muito importantes. A Companhia Espanhola de Seguros de Crédito à Exportação (CESCE) mobilizou recursos para financiar projectos em condições comerciais avaliados em mais de três mil milhões de dólares. Estas cifras colocam-nos no terceiro lugar como financiador estrangeiro de projectos depois da China e do Brasil.

JA - Como a Espanha está a ajudar Angola no processo de reconstrução nacional?


JR –
A Espanha tem um enorme potencial neste terreno. Há uma empresa espanhola que está a construir o comboio de Alta Velocidade entre Meca e Medina com um contrato de mais de 7.000 milhões de euros. Outra empresa espanhola está a fazer a ampliação do Canal do Panamá e a ampliação do aeroporto de Heathrow. Sete empresas espanholas estão a construir ou a dirigir 40 por cento das principais estradas, aeroportos e portos do mundo. As quatro maiores concessionárias de infra-estruturas do mundo são espanholas: ACS, FCC, Abertis e Ferrovial. Sete das maiores gestoras de infra-estruturas do mundo são espanholas. Um terço do tráfego aéreo mundial é administrado com um sistema desenvolvido por outra empresa espanhola, a Indra, a mesma que se encarregou da contagem eleitoral nas passadas eleições. O primeiro produtor mundial de energias renováveis também é espanhol: Iberdrola. São muitas e muito boas as possibilidades para trabalhar em parceria com Angola no desenvolvimento das suas infra-estruturas.

JA - A cooperação a nível policial entre Angola e Espanha ainda vigora?

JR - Esta cooperação continua e é das mais antigas. Começou durante uma visita a Espanha do Presidente José Eduardo dos Santos, em 1991. Desde então, muitos projectos foram desenvolvidos entre os Ministérios do Interior. Uma importante delegação angolana viajou na semana passada para Espanha a fim de começar a definir linhas prioritárias de trabalho conjunto. Além disso, continuamos a trabalhar no projecto de fortalecimento de capacidades do Ministério do Interior, em especial da Polícia Nacional de Angola: polícia de trânsito, polícia de proximidade, polícia em processos eleitorais e investigação criminal. Queremos impulsionar a participação de empresas espanholas neste sector, através de parcerias público-privadas.

JA - Espanha mostrou interesse no Mercosul. Pretende fazer o mesmo em relação à África Austral?

JR -
A Cimeira Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo conseguiu criar, nos seus 22 anos de história, um importante fórum de concertação
política e institucional e um notável sistema de cooperação intergovernamental do qual todos nos sentimos orgulhosos. Espanha tem apoiado sempre os esforços de integração regional.   

JA - A crise em Espanha tem saída à vista?

JR -
Hoje a economia é cada vez mais interdependente. Espanha está em crise com muitos outros países no mundo. A nossa crise foi causada por três componentes: elevado endividamento, bolha imobiliária e falta de competitividade. Isto resolve-se, virando-se para o exterior. Daí que reclamemos uma Europa mais forte e avanços para a União Federal. Pusemos em marcha um importante programa de reformas estruturais: reforma da nossa economia, ajustamento fiscal, reforma laboral e das administrações. Têm sido decisões difíceis e duras porém necessárias. Felizmente estas medidas estão a começar a dar os seus frutos e já vislumbramos uma luz ao fundo do túnel. 

JA - Que leitura faz dos resultados das eleições antecipadas na Catalunha?

JR -
Os resultados eleitorais na Catalunha deram lugar a um cenário complexo de governabilidade da comunidade autónoma, num momento também complexo economicamente. O futuro governo da Generalitat tem ante si a tarefa de continuar com os planos de ajustamento e de redução do défice. Para tal, o Governo de Espanha, como não podia ser de outro modo, já ofereceu toda a sua colaboração. Neste momento, a nossa única prioridade é a saída da crise.

JA - A ETA ainda constitui uma ameaça em Espanha?


JR -
O terrorismo constitui sempre uma ameaça para as nações livres e soberanas e o que a Espanha espera agora é a sua dissolução completa. 

JA - A cooperação entre a União Europeia, a CPLP e a SADC existe?

JR -
Esta é uma pergunta para o meu colega embaixador da União Europeia. Que eu saiba não existe relação institucional entre a UE e a CPLP. Com respeito à SADC, penso que existem conversações regulares no âmbito da cooperação para o desenvolvimento, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento (FED), e acordos de parceria económica.


JA - O que pensa sobre o conflito na RDC? 
JR - Espanha coincide com Angola na necessidade em respeitar a integridade territorial e a soberania de todas as nações e coincide também em condenar a violência e, portanto, na necessidade de buscar uma saída política para a crise. De igual modo valoriza positivamente os esforços realizados pelo Governo de Angola que esperamos conduzam a um final definitivo da violência na região.

JA - Quem é a Júlia Alicia Olmo y Romero?

JR -
Sou uma mulher feliz, casada e com dois filhos maravilhosos. Sou diplomata de carreira e considero-me uma pessoa afortunada por trabalhar naquilo que gosto. Estou em Luanda há pouco mais de três meses e posso assegurar-lhe que gosto realmente muito de estar neste país e trabalhar para o reforço da cooperação.

Tempo

Multimédia