Entrevista

A Total vai apostar nas energias renováveis

Leonel Kassana

O director-geral da Total Angola reconheceu, em entrevista ao Jornal de Angola, que a assinatura de acordos, para a extensão de todas as licenças do Bloco 17, veio dar outro dinamismo à indústria petrolífera. Olivier Jouny revelou que com o arranque do campo Kaombo Sul, depois de Kaombo Norte, todos no Bloco 32, a Total passou a produzir 650 mil barris/dia, cerca de 45 por cento da produção do país. O gestor frisou que os investimentos feitos pela companhia visam manter a liderança nas operações petrolíferas em Angola.

Olivier Jouny
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Há 65 anos em Angola, qual é a avaliação que a Total faz sobre o clima de negócios no país, no quadro das reformas no sector petrolífero?

O clima de negócios é encorajador e muito positivo. A nova concessionária nacional e os órgãos de tutela to-maram medidas perspicazes e muito inteligentes, implementando maior dinamismo na indústria petrolífera, com a criação de vários decretos para pesquisa, campos marginais e gás, cuja formulação teve a participação das maiores companhias a operar em Angola.

Essas medidas demonstram o quê na prática?
Demonstram a determinação do Governo de Angola de criar condições favoráveis para investimentos no sector petrolífero, com resultados já visíveis, em que destacamos a criação do Consórcio do Gás, de que a Total é parceira, as novas licitações no domínio mineiro nas bacias do Kwanza e Benguela.

A Total vai passar a operar no Bloco 29?
Sim, a Total ganhou a licença para operar no Bloco 29, lo-calizado na Bacia do Namibe, até agora inexplorada, sendo que pretendemos fazer parte deste novo ciclo de pesquisa numa nova bacia do offshore angolano. No domínio da perfuração, houve um aumento exponencial de sondas, que não se observava desde 2014, dispondo agora de quatro, o dobro de há um ano. No final de 2020, contamos ter mais uma sonda.

O que a Total pretende com esse aumento de sondas?
Pretendemos dinamizar significativamente o trabalho de pesquisa de petróleo. Três estão no Bloco 17, com o objec
tivo de equilibrar o declínio natural da produção, que aí se regista. A outra está no Bloco 32 e a última vai ficar entre este e o Bloco 48.

Qual é o balanço da actividade da Total durante o ano passado?
Foi um ano importante para a Total, que negociou e assinou um acordo importante para entrar nos blocos 20 e 21, na Bacia do Kwanza, onde a concessionária nacional é a actual operadora. A Total vai ficar com 50 por cento das acções do primeiro e 80 do segundo. São blocos onde já foram feitas descobertas de gás e petróleo em 17 poços. Queremos lançar um novo projecto entre esses dois blocos. Os primeiros projectos (Cameia e Golfinho), que vamos desenvolver, têm reservas de cerca de 300 milhões de barris.

Quais são os níveis de produção no Kaombo Sul?
Iniciámos a produção no Kaombo Sul nove meses depois da primeira operação no Kaombo Norte. Estamos agora a produzir 220 mil barris no Bloco 32. O arranque do Kaombo Sul foi, de facto, um êxito, pois conseguimos fazê-lo dois meses antes da data prevista, capitalizando a experiência com o Kaom-bo Norte.

Que valor acrescentaram estes dois campos à Total?
Sim, confirmamos a liderança nas operações petrolíferas em Angola, com uma produção diária de cerca de 650 mil barris de petróleo, representando 45 por cento da produção global do país. Outro marco importante foi a paralisação geral, por 40 dias, de todas as operações do campo Girassol, para trabalhos de manutenção periódica e garantir a integridade das instalações do bloco 17, para continuarmos a produzir em segurança. Quer em termos de segurança, desempenho e orçamento, consideramos excelente o trabalho realizado no Girassol, com o envolvimento de mais de 700 pessoas de 15 empresas, que realizam, simultaneamente, mais de 1.500 actividades de elevada complexidade técnica.

Não houve incidentes durante este período de paralisação?
Não tivemos um único incidente, como resultado da boa coordenação, sincronizada entre as várias equipas. O Girassol voltou a produzir nos níveis esperados. Este ano prevemos fazer também a reparação geral do FPSO CLOV, que, há cinco anos, entrou em produção.

Quais são os principais desafios para a Total manter a liderança da produção petrolífera em Angola?
Estamos atentos à competitividade. O principal desafio no negócio de petróleo e gás é garantir a visibilidade necessária, para decidir os investimentos de longo prazo. O período entre a pesquisa, descoberta e o início da produção varia entre oito e dez anos, para projectos em offshore. Por isso, precisamos encontrar equilíbrio, fazendo pesquisa regular e consistente para renovar as reservas e amadurecer as descobertas para preparar o futuro. Precisamos respeitar prazos e orçamentos, sempre tentando maximizar a produção. Devemos estar no topo de cada elemento da cadeia de valor, da exploração à produção, porque se nos focarmos apenas na produção e deixarmos de fazer a exploração, iremos perceber, tarde demais, que as reservas se esgotaram.

Quando fala em visibilidade, quer dizer exactamente o quê?
A visibilidade passa pela consolidação da nossa relação com os três principais actores da indústria de hidrocarbonetos: Ministério dos Recursos Minerais e Petróleos, Agência Nacional de Petróleo e Gás e a Sonangol. A curto prazo, pretendemos finalizar os projectos que iniciamos, para aumentar a produção. A médio prazo, decidir novos investimentos para projectos que devem arrancar nos próximos quatro ou cinco anos e, finalmente, apostar na pesquisa de novas reservas.

Total que ser pioneira na exploração do pré-sal da Bacia do Kwanza

Houve um investimento de 450 milhões de dólares nos blocos 20 e 21, na Bacia do Kwanza, apesar do insucesso das perfurações de 2014. Alguma razão especial para essa aposta?
Apesar do insucesso na pesquisa do pré-sal em determinados blocos da Bacia do Kwanza, hou-ve algumas descobertas que pretendemos explorar com a Sonangol, usando esses recursos financeiros. Assinámos também um acordo de compra de participações nos blocos 20 e 21, que passaremos a operar, depois de reunidas as condições prévias. Com esses dois blocos, a Total torna-se pioneiro na produção de petróleo dos reservatórios do pré-sal do offshore da Bacia do Kwanza. Pretendemos iniciar as actividades de avaliação com o objectivo de termos um desenvolvimento que nos permita produzir nos próximos quatro ou cinco anos.

Que projectos existem para a área de exploração de gás natural?
Essa é uma área importante para a nossa actividade em Angola. Depois do Decreto Presidencial sobre a exploração de gás natural, que permitiu o lançamento, o ano passado, do novo consórcio, em que a Total, como parceira, está a avaliar um projecto de gás, que faz parte da diversificação das energias. Angola tem um grande potencial para a produção de energia e indústria de fertilizantes, por isso a Total encara com muito optimismo a entrada nesse novo segmento de negócio.

Como a Total encara questões como a angolanização, conteúdo local e transferência de tecnologia?
Uma boa questão. A Total emprega 1.800 pessoas, 80 por cento das quais nacionais. A nível do conteúdo local, temos contratos com empresas angolanas, que trabalham tanto nas áreas do negócio como em áreas de suporte. Por exemplo, para a construção do Kaombo, que foi um investimento de 16 mil milhões de dólares, foram necessárias 100 milhões de horas de trabalho, das quais 20 por cento foram feitos por empresas angolanas. Este modelo funciona e permite criar competências locais e está também a ser implementado numa das componentes dos projectos em fase de execução no Bloco 17, com módulos a serem produzidos no estaleiro da Sonamet no Lobito. Com o aumento das nossas actividades de perfuração, agora com mais quatro sondas e os novos blocos a serem explorados pela Total, temos, para este ano, 50 postos de trabalho para nacionais. Precisamos também de preencher as vagas deixadas pelos trabalhadores que passaram à reforma.

“45 postos de abastecimento em 11 províncias”

Quais são os planos para o mercado de distribuição de derivados de petróleo?
Angola é um dos poucos países africanos onde a companhia não possui uma rede no sector de distribuição. É nossa ambição ter a marca Total presente no mercado de consumo angolano e já demos um passo, com o lançamento de uma “joint venture” com a Sonangol. O nosso compromisso é termos, inicialmente, 45 postos de abastecimento em 11 províncias. E para os próximos cinco ou seis anos, criarmos 80 ou 100 postos, o que pode passar pela reconversão das actuais estações ou construção de novas.

O combustível para aviação é, também, uma aposta?
Sim. Além das estações de abastecimento de combustível, estamos a fazer estudos para a entrada da marca Total na distribuição de outros produtos refinados, como o combustível para a aviação, pois o objectivo é posicionarmo-nos por meio dessa parceria com a Sonangol em todo esse segmento. Como prova da nossa aposta de mercado, acabamos de lançar a construção de uma bomba de combustível em Luanda, que deve ser inaugurada ainda este ano.

Fora do seu “core business”, que outros negócios a Total projecta para Angola, a médio e longo prazos?
Gostaria de destacar aqui as energias renováveis. Trata-se de um negócio bom para a Total em Angola, pois o país tem condições climatéricas excelentes. Existe, definitivamente, um enorme potencial no país, seja para soluções fora da rede ou para fornecer energia à rede, grandes indústrias e clientes. A nossa ambição é estabelecer a marca Total no sector das energias renováveis. Tradicionalmente, somos uma empresa de petróleo e gás, mas também queremos ampliar o domínio da energia com que trabalhamos. As energias renováveis, sobretudo solar, são alguns dos principais negócios que a Total está a desenvolver e temos como foco o Sul do país, com destaque para a província da Huíla, onde estamos a preparar um projecto. Estamos em fase de consultas com o Ministério da Energia e Águas para criar condições para tornar efectiva a nossa entrada nesse negócio.

Perspectivas são animadoras

Quais são as perspectivas da companhia no domínio da exploração para esse ano?
Pretendemos manter a nossa posição de liderança, como operador de petróleo em Angola e, para isso, estamos na fase de execução dos projectos Zinia 2, Clov 2 e Dália 3, nos quais a Total investiu 2,5 mil milhões de dólares, aumentando para mais 100 mil barris de petróleo por dia a produção do Bloco 17. Esses projectos, localizados respectivamente nos campos PazFlor, Clov e Dália, começam a produzir entre o segundo semestre de 2020 e o primeiro trimestre de 2021, com objectivo de manter o “plateau” de produção em torno de 400 mil barris/dia do Bloco 17, até 2023. Vamos, também, relançar a pesquisa, com a perfuração de dois poços no Bloco 17 e outro no 32, para avaliar o seu potencial e criar novos pólos de desenvolvimento. Um dos nossos maiores desafios tecnológicos para este ano será a perfuração do poço de pesquisa no Bloco 48, que vai ser um recorde mundial de perfuração de lâmina de água, com 3.628 metros de profundidade. Arrancam, também, a pesquisa no Bloco 29 e a avaliação do desenvolvimento dos blocos 20 e 21.

Quando é que a Total começa a investir em projectos de pesquisa e exploração de petróleo no “onshore” angolano?
Ainda não equacionamos essa possibilidade, pois o nosso foco principal é a exploração e pesquisa no “offshore”. Temos um conhecimento importante da Bacia do Congo e estamos em Angola há 65 anos. Estamos agora a baixar um pouco, para a Bacia do Kwanza (blocos 20 e 21), onde a Total vai ser a primeira companhia a operar um projecto. Também iniciamos a descida para o Sul, na Bacia do Namibe, através da nossa presença no Bloco 21. A Total está a alargar o seu portfólio e a diversificar as áreas de operações, mas, para já, vai manter-se no “offshore”, onde ainda existe um potencial remanescente, antes de avançar para o “onshore” angolano.

Quais são as acções da companhia no quadro da sua responsabilidade social?
Apostamos muito na educação dos jovens, porque acreditamos que o capital humano é o investimento que dá maior retorno e valorização. Em 2008, em parceria com o Ministério da Educação, Embaixada de França em Angola e a Missão Laica Francesa, a Total decidiu construir quatro escolas do segundo ciclo e liceus da rede Eiffel, no Bengo, Cunene, Malanje e Cuanza-Norte. Os resultados têm sido muito positivos, os alunos obtêm as melhores classificações nas Olimpíadas de Matemática, 97 por cento concluíram os estudos e mais de 1000 já frequentam o ensino superior. Como resultado desse sucesso, recebemos o aval da concessionária nacional para a construção de dois novos liceus no Huambo e Moxico, onde queremos contribuir também para o ensino de excelência.

Quantas bolsas foram atribuídas em 2019?
Em 2019, a Total enviou 54 estudantes para formarem-se em diferentes áreas de engenharia em universidades francesas. Com a Universidade Agostinho Neto e os Institutos Nacional de Petróleos e Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC), foram igualmente rubricados acordos no domínio da formação.

Existem outros acordos?
Temos acordos com o Ministério da Cultura e Embaixada de França para a reabilitação do Centro histórico de Mbanza Kongo, classificado Património da Humanidade pela UNESCO e somos parceiros da Bienal de Luanda. Temos um princípio de acordo que prevê a reabilitação do Palácio de Ferro e a criação de um centro cultural. Este Palácio tem um valor muito simbólico para a França, por fazer parte do universo de obras do arquitecto francês Gustav Eiffel. Ainda no quadro da responsabilidade social, destacamos o apoio à Selecção angolana sénior feminina de Andebol.

PERFIL
Olivier Jouny, 39 anos, iniciou a carreira na Total em 2002, depois de se formar na Escola Francesa de Engenharia MINES Paris Tech. Passou pelo sector
de Gás e Energia.
Seguiu depois para o desenvolvimento Downstream de LNG na América do Norte e Central. Em 2008, passou a dedicar-se à exploração e produção, com funções no Iémen, França e República do Congo. Em 2016, assumiu a direcção da Total Marine Fuels do sector de Marketing & Serviços, com sede
em Singapura.

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