Entrevista

A FAO tem orgulho em ver que Angola regista progressos extraordinários

Josina de Carvalho |

Angola realiza no próximo ano o primeiro Censo Agrícola e o Inventário Florestal depois da Independência Nacional. A informação foi avançada pelo representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em Angola, Mamoudou Diallo, em entrevista ao Jornal de Angola.

Representante da FAO falou da cooperação e dos projectos que a organização está a desenvolver com as autoridades angolanas
Fotografia: Mota Ambrósio

Neste momento, decorre a fase preparatória do Censo Agrícola, cujos resultados são conhecidos no primeiro trimestre de 2017. O Inventário Florestal já está em curso e fica concluído em Dezembro deste ano. Além destas acções, Angola coopera com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura na realização do processo de mapeamento da aquacultura, de municipalização dos serviços veterinários e de instalação da rede nacional de vigilância sanitária.

Jornal de Angola-
O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, encontrou-se em Itália com o director-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, Graziano da Silva. Quais os ganhos desse encontro para a cooperação entre Angola e a FAO?

Mamoudou Diallo-
O encontro é uma ilustração da dinâmica das relações entre Angola e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura e foi uma oportunidade para o reforço da cooperação. Foi possível fazer o ponto de situação da cooperação e, sobretudo, ver a perspectiva imediata, com base nas orientações e parcerias estratégicas e no Plano Nacional de Desenvolvimento de Angola para o período 2013-2017.

JA-Que balanço faz da cooperação entre Angola e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura nos últimos cinco anos?

Mamoudou Diallo -
A FAO tem orgulho de acompanhar Angola no seu desenvolvimento, em particular no sector rural. Nos últimos anos, Angola reduziu significativamente o número de pessoas em situação de fome, de mais de 60 por cento para menos de 20 por cento. Este é um progresso extraordinário para a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, que segue Angola desde os anos 1970. Esta redução fez com que Angola passasse a fazer parte dos dez países africanos mais avançados e alcançasse entre os anos 2013 e 2014 o primeiro Objectivo de Desenvolvimento do Milénio.

JA-Qual é a perspectiva para os próximos anos?

Mamoudou Diallo-A perspectiva para os próximos três anos é reduzir esta proporção para menos de 15 por cento. Mas, além da redução da fome, há perspectiva de desenvolvimento do sector agrícola, que cresce não menos de oito ou nove por cento por ano. Este crescimento depende muito dos investimentos  que o Executivo angolano  realiza  neste sector e nas áreas da pecuária, florestas, pescas, meio ambiente e comércio rural. Estes investimentos são nacionais e também internacionais, e permitiram aumentar a produção de milho e outros cereais, de café e dos tubérculos, que são o sustento da população.

JA-A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura concentra muita atenção no sector agrícola. Que programas e
projectos são desenvolvidos nesta área?


Mamoudou Diallo -Nos últimos cinco anos, a cooperação foi fundamentalmente nesta área, mas já é diversificada. A lista de projectos de cooperação entre Angola e FAO inclui mais vinte, que visam o apoio à agricultura familiar e a outros sectores. Neste momento, apoiamos a fase preparatória do primeiro Censo Agrícola e do primeiro Inventário Florestal do país, depois da Independência. No sector da pecuária, acompanhamos a municipalização dos serviços veterinários em cinco províncias e a instalação da rede nacional de vigilância sanitária. E nas pescas, apoiamos o mapeamento da aquacultura, que nos foi indicado como um subsector prioritário do sector das pescas.

JA-Como decorre a fase preparatória do Censo Agrícola?

Mamoudou Diallo -Esta fase começou em Maio deste ano e vai até Março de 2016. Esta fase inclui a capacitação dos técnicos do Instituto Nacional de Estatística e da Direcção Nacional de Planeamento e Estatística do Ministério da Agricultura, o seguimento da metodologia e dos módulos para a sua realização, e inclui a identificação dos municípios ou zonas piloto para a testagem da metodologia.

JA-Quando são apresentados os resultados?

Mamoudou Diallo -Durante o primeiro trimestre de 2016 vamos iniciar o censo propriamente dito a nível nacional e terminar antes do último trimestre, em Setembro ou Outubro. Depois, o Executivo, o Instituto Nacional de Estatística e o Ministério da Agricultura, com a assistência técnica da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, vão tratar dos resultados e apresentá-los no primeiro trimestre de 2017, depois da apresentação dos resultados do Censo Geral da População e Habitação.

JA-Qual é a importância deste Censo?

Mamoudou Diallo -Este censo é a base de toda a planificação agrícola. Todas as políticas, programas e projectos agrícolas devem ser baseados nesta informação estatística fiável. Angola precisa de saber onde estão os produtores, qual é a estrutura das famílias agrícolas, quais os activos, qual a superfície das áreas agrícolas a nível das aldeias, que tipo de cereais e tubérculos são cultivados e qual é o actual nível de produtividade, para  poder realizar projectos em correspondência com as necessidades dos municípios, aldeias e famílias.

JA-E sobre o Inventário Florestal, o que tem a dizer?

Mamoudou Diallo -
A intenção é saber qual é a situação das florestas do país, a sua localização, dinâmica, nível de desflorestação, a ­superfície, a composição da fauna e flora de cada uma. Isso  permite criar um sistema de informação geográfica específica para as florestas e fazer o seguimento das florestas, para se poder lançar políticas e programas específicos. O inventário começou no ano passado e é concluído, numa primeira fase, em Dezembro deste ano, com a apresentação dos resultados.

JA-Como está a decorrer o processo de mapeamento da aquacultura?


Mamoudou Diallo -
Começou no início de 2014 e termina em Dezembro deste ano. Com o mapeamento da aquacultura, o Executivo  localiza  e avalia o potencial existente. O Ministério da Energia e Águas vai ter uma base de dados actualizada sobre os recursos hídricos. O Ministério da Geologia e Minas fica com uma informação básica sobre estes recursos e o Ministério da Agricultura vai poder criar uma política de irrigação para a gestão das águas. Como vê, esse mapeamento da aquacultura tem impactos indirectos muito fortes noutros sectores. Angola pode criar uma estratégia nacional, programas e projectos focalizados, tendo em conta a situação de cada lago e rio.

JA-A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura também tem projectos com o Ministério da Família e Promoção da Mulher (MINFAMU). O que está a ser feito em concreto?


Mamoudou Diallo -
O MINFAMU é um parceiro estratégico muito importante para a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, tendo em conta o papel fundamental da mulher, de um modo geral, e, em particular, da mulher rural no desenvolvimento de Angola, de África e do mundo. Participámos em todos os encontros de auscultação da mulher rural, realizados no ano passado pelo Executivo, e mobilizámos a nossa capacidade técnica e financeira para acompanhar a implementação das recomendações saídas desses encontros. Uma das recomendações foi capacitar e promover a mulher rural através do apoio à produção. Então, desenvolvemos um projecto no Cuanza Norte, que visa a transformação e processamento de produtos agrícolas, porque vimos que um dos problemas de Angola e de outros países  prende-se com o conhecimento do valor nutricional dos produtos. Estamos a capacitar as mulheres e a incentivar a criação de associações ou cooperativas, para terem acesso ao crédito agrícola.

JA-Que projectos desenvolve a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura com o Ministério do Comércio?

Mamoudou Diallo
-Temos um acordo para capacitar os agricultores, para evitar as perdas pós-colheita. Calcula-se que de 25 a 30 por cento da produção perde-se por falta de capacidade de conservação dos produtos e não por dificuldade de escoamento. Estamos também a trabalhar com os ministérios da Agricultura e do Ambiente para a conservação das florestas e dos solos degradados, em particular no Sul do país.

JA-Quais são os grandes desafios da cooperação entre Angola e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura para os próximos anos?


Mamoudou Diallo -O primeiro desafio é a massificação dos resultados dos projectos realizados em alguns municípios e províncias. Há necessidade de difundir e valorizar os resultados, para tornar a agricultura familiar mais produtiva e competitiva ao nível dos mercados nacional e sub-regionais. O segundo desafio é o reforço da capacidade institucional, para permitir que os produtores tenham capacidade técnica e organizativa, para criação e reforço das cooperativas e associações existentes. E o terceiro desafio é o acompanhamento deste sistema combinado, do ponto de vista de assistência técnica e metodológica, para o alcance do desafio global, que é a diversificação da economia.

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