Entrevista

"A fisioterapia manual traz benefícios ao paciente"

Walter António |

O coordenador da Associação dos profissionais e Académicos de  Fisioterapia de Angola (ANGOFISIO), Mateus Bernardo, disse ao Jornal de Angola que o não recurso à fisioterapia manual pode atrasar a recuperação de muitos pacientes.

Coordenador da associação especialista em fisioterapia manual e neurológica Mateus Bernardo
Fotografia: Jornal de Angola

Em Angola, apenas sete das 18 províncias dispõem de serviços de fisioterapia públicos, referiu o entrevistado por ocasião do 8 de Setembro, Dia Internacional da Fisioterapia, instituído em 1960 pela Confederação Internacional de Fisioterapia, órgão tutelado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 


Jornal de Angola – Qual é o estado da fisioterapia em Angola?


Mateus Bernardo - Está muito aquém em comparação com os serviços similares desenvolvidos no estrangeiro. Por essa razão, temos no país muitos doentes que não recuperam no tempo desejado, porque não se utiliza muito a terapia manual, que traz benefícios aos pacientes. Pensamos que o Executivo devia prestar mais atenção à ciência da fisioterapia, porque acreditamos que ela tem muito a dar em prol do desenvolvimento da saúde no país, interagindo com as demais profissões na área de saúde. Os colegas que lidam com a reabilitação física também deviam actualizar os seus conhecimentos sobre a terapia manual.

JA – A reabilitação está ainda numa fase incipiente?  

MB – Sim, está ainda numa fase embrionária. Em Angola, a fisioterapia é uma ciência que poucos conhecem e que é até confundida por alguns com a massagem. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a fisioterapia como uma ciência do ramo da Saúde que estuda, previne e reabilita pessoas com disfunção neurológica, traumas, entre outras doenças. O que nos preocupa muito é o facto de a maior parte das províncias do país não ter centros de reabilitação física públicos ou privados.

JA- Quais são as províncias que têm serviços de fisioterapia?

MB - Temos províncias que nem sequer sabem o que é a fisioterapia. Por exemplo, a do Uíge, só no ano passado passou a ter serviços de fisioterapia, que também existem em Benguela, Huambo, Cabinda, Bié e Móxico. Na maioria das províncias pouco se fala sobre fisioterapia. É triste, porque estamos em pleno século XXI. E, mesmo a nível da capital angolana, nem todos os hospitais têm. A nosso ver, é necessário que o Ministério da Saúde envide esforços para melhorar o quadro, porque a fisioterapia pode actuar em qualquer serviço: a nível da ginecologia, pediatria, neurologia, cardiologia ou noutros ramos da saúde.

JA – Qual é a melhor forma de a fisioterapia reabilitar um doente?

MB - A fisioterapia manual, por ser a pioneira e a mais actualizada, é a ideal. Em países mais desenvolvidos é mais praticada do que aquela que é feita à base de aparelhos eléctricos, ou electroterapia. Em primeiro lugar, na electroterapia o paciente fica condicionado ao aparelho e não se ataca a causa da dor, mas sim a dor. Se a questão estiver relacionada com o comprometimento de estruturas, se o paciente for tratado à base de máquinas ou de electroterapia, vai regressar a curto prazo à clínica para fazer sessões de electroterapia. E isso não é muito bom. É necessário que os nossos técnicos ataquem a causa da dor e não apenas a dor.  
   
JA – Está a pôr em causa a utilidade dos aparelhos?

MB - O mundo tecnológico pode lançar inúmeros aparelhos, mas cabe ao homem saber como usá-los. Ou pode ser em acção combinada: electroterapia e terapia manual. 

JA - O que é a ANGOFISIO?

MB – É uma associação de profissionais e académicos de fisioterapia. Existe há quatro anos e tem como objectivo divulgar, formar, informar e promover a ciência da fisioterapia em todo o país. Actualmente, tem 200 membros.Temos estado a apostar na formação, porque acreditamos que, a partir dela, podemos prestar serviços de excelência. Nessa perspectiva, temos estado a passar a informação de que a fisioterapia é importante e faz parte da área da Saúde, pelo que é necessário ser respeitada, tal como são respeitados outros serviços, como os de psicologia clínica, farmacêutico ou medicina dentária. Basta ver que o lema deste ano, em saudação ao quarto aniversário da associação, é “Fisioterapia: mãos que previnem e reabilitam para a vida”.

JA – O conflito armado originou um grande número de pessoas portadoras de deficiência. Que programas existem a nível da associação para que a qualidade de vida dessas pessoas melhore cada vez mais?

MB - Saímos de uma guerra de 30 anos e não vamos conseguir as coisas da noite para o dia. Algumas pessoas que vemos nas ruas precisam, de facto, de ser reinseridas na sociedade, e o Estado tem programas de reinserção social para esses portadores de deficiência. Mas é sempre necessário que sejam acompanhados directamente, quer nos serviços de fisioterapia, quer nos de psicologia clínica, porque muitos desses portadores de deficiência perderam as suas famílias, pelo que precisam de um acompanhamento psicológico clínico.
 
JA - Qual é o apelo que faz ao Estado angolano?

BM
- O Estado tem o objectivo de dinamizar e criar condições de modo a possibilitar a criação de estruturas destinadas a abrir serviços de fisioterapia noutras províncias.

JA - Como é feita a formação Académica e Profissional no país?

MB - A Universidade Agostinho Neto não forma fisioterapeutas, porque não tem área de fisioterapia. Só universidades privadas é que ministram o curso. Entre elas estão a Universidade Privada de Belas (UNIBELAS), a Universidade Privada de Angola (UPRA) e o Instituto Superior Politécnico Internacional. O curso tem a duração de quatro a cinco anos. Os técnicos médios são formados na Escola Técnica Profissional de Saúde de Luanda, ex-Instituto Médio de Saúde (IMS).

JA - A associação tem promovido cursos?


MB - Damos cursos de formação em RPG e Pilates, com a duração de uma a duas semanas ou de um a seis meses. São cursos que temos estado a lançar tendo em vista uma melhor prestação dos quadros nacionais a nível dos hospitais, porque precisam de obter experiências de países mais avançados no ramo da fisioterapia. A nossa política é trazer do estrangeiro o que há de mais novo e que seja bom para o país, para que os quadros possam aplicar aos pacientes.

JA - O que são cursos de Reeducação Postural Global (RPG) e Pilates?

MB – O RPG é um método de tratamento desenvolvido pelo francês Philippe Souchard na década de 80 do século XX e que é bastante difundido na Europa. Este método é baseado em posturas, que visam tratar distúrbios da coluna vertebral. Por exemplo, desvios de coluna e dores lombares. Esse método veio inovar as técnicas usadas em fisioterapia que ensinam a pessoa a saber sentar-se, como levantar um objecto, como estar devidamente sentado, como conduzir um carro, como usar a biomecânica corporal, de modo a evitar lesões no futuro.

JA - E o método Pilates?

MB – É um método de exercícios físicos que melhora a força muscular, a postura física e a respiração. Foi desenvolvido pelo alemão Joseph Pilates, na década de 1960. É muito usado no continente Americano, principalmente no Brasil e nos Estados Unidos de América.

JA – Como deve sentar-se uma pessoa quando está no computador ou a conduzir?

MB- Deve estar sentada com a coluna direita, os membros inferiores flectidos, a 90 graus de preferência. E a coxa deve formar um ângulo de 90 graus com os joelhos. Quem cumpre estas orientações, evita o aparecimento de dores a nível dos seguimentos, como, por exemplo, a coluna lombar e os membros inferiores.

JA- Qual é a cadeira adequada para sentar?


MB - A cadeira deve ser móvel e possuir um assento flexível que não comprima muito as nádegas para não causar lesões a nível do nervo ciático.

JA – Os ciclos de formação que fazem também são destinados a estudantes?

MB - A nossa formação profissional é direccionada não só para os quadros que já trabalham mas também para os estudantes do terceiro ao quinto ano de licenciatura. A intenção é que, quando saírem da universidade, já estejam capazes de fazer frente aos desafios da profissão e desempenhá-la sem problemas.

JA - Qual é o conselho que deixa aos gestores dos hospitais públicos do país?

MB – Aconselho que formem os seus quadros no país, dando-lhes cursos de curta duração, sob orientação de especialistas nacionais e estrangeiros. O envio de gestores para o exterior, para actualização ou aperfeiçoar os conhecimentos sobre terapia manual, também é uma possibilidade.

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