Entrevista

"A luta para eliminar a doença do sono continua"

Walter António

Apenas três províncias estão livres da doença do sono, uma enfermidade que começou a ser diagnosticada no país em 1901. O ano de 1949 foi o “período negro”, altura em que foram diagnosticados mais de cinco mil casos.

Josenando Théophile director do Centro de Diagnóstico e Tratamento da tripanossomíase
Fotografia: Domingos Cadência

Mas, um ano antes da proclamação da Independência, apenas três casos tinham sido notificados. O conflito armado, que provocou a destruição da rede sanitária nas províncias endémicas, é o principal motivo do seu ressurgimento. Quem o diz é o director do Instituto de Combate e Controlo da Tripanossomíase, Josenando Théophile, que, em entrevista ao Jornal de Angola, falou dos passos que estão a ser dados pelo Ministério da Saúde para a sua erradicação.

Jornal de Angola - Em que áreas de Luanda se encontra a mosca tsé-tsé, vector da doença?


Josenando Théophile -
A mosca tsé-tsé anda em sítios onde há vegetação ou nas florestas com humidade e sombra. A tripanossomíase, nome científico da doença do sono, é uma enfermidade das zonas rurais. O habitat natural é nas galerias florestais e nas matas fechadas, onde há temperaturas que oscilam entre os 19 e os 25 graus. Mas também há uma espécie que anda nas savanas. Em Angola, temos três espécies. Em Luanda, aparece na Funda, município do Cacuaco, ao longo do Rio Kifangondo, em Calomboloca, ao longo do Rio Kwanza e na Quissama.

JA - A tripanossomíase é uma doença negligenciada?

JT - Existe a tripanossomíase humana africana e a animal, transmitida pela mosca tsé-tsé e que constitui, ainda hoje, um problema de saúde pública. É, também, uma doença tropical negligenciada e endémica em 36 países da África Subsariana. Em Angola, existe há mais de um século e os primeiros casos foram detectados em 1901. Tem cura, mas é preciso que o diagnóstico e tratamento sejam feitos precocemente. Para o tratamento há dois fármacos: a Pentamidina e o Nect, sendo o último uma combinação de Nifurtimox e DFMO.

JA - Quais são as formas de transmissão e de prevenção?

JT -
Uma pessoa doente chama-se “fonte de infecção” ou “reservatório da doença”. A mosca tsé-tsé alimenta-se de sangue humano e animal. As moscas do tipo palpalis fuscipem quanzensis têm preferência pelo cheiro humano, enquanto as do tipo morsitans centralis preferem sobretudo o cheiro dos animais. Há pessoas nas quais a doença pode evoluir depois de cinco ou seis anos, dependendo do organismo e da resistência à bactéria. Mas, também, há aquelas que, depois de serem picadas, recebem, em menos de quatro meses, os sintomas da doença.

JA - Quais são os sintomas?

JT - Confundem-se com os do paludismo. Os primeiros sinais são: dor de cabeça, dores musculares, febre, cansaço e falta de apetite. A grande diferença é que a doença do sono evolui para a sonolência.

JA - Onde é que os doentes são tratados?

JT -
O Executivo criou o Instituto de Combate e Controlo das Tripanossomíasses. As províncias endémicas, como as de Luanda, Zaire, Uíge, Bengo, Kwanza-Norte, Malange e Kwanza-Sul, dispõem de centros de diagnóstico e tratamento, que pode durar entre 15 dias e 24 meses.

JA - Como é feita a prevenção?


JT -
Através da fumigação e da colocação de armadilhas para a detecção da mosca em rios, ao longo das estradas, em plantações de café e feijão. Os motoristas e a população em geral devem ter cuidado quando saem, por exemplo, de Luanda para o Dondo, passando por Maria Teresa, porque na área há muitas moscas tsé-tsé. Caso a pessoa seja picada, e se estiver com febre ou dor de cabeça, deve dirigir-se aos nossos serviços, porque se a doença for diagnosticada cedo, o tratamento é sempre mais eficaz. Se uma viatura circular a uma velocidade de 40 a 60 quilómetros por hora, a mosca é atraída e segue o veículo pensando tratar-se de um animal.

JA -  A tsé-tsé está presente nas 18 províncias?

JT - Não. Há três províncias onde não está presente: Huambo, Namibe e Cunene. A mosca não aparece nestas províncias porque a vegetação e a temperatura não favorecem. Por exemplo, o mosquito causador da malária não existe na Europa devido à temperatura lá existente.

JA - Os casos notificados estão espalhados por todo o país?

JT-
Tínhamos muitos casos da doença do sono em 1949, ano em que foram diagnosticados mais de cinco mil novos casos. Em 1974, na véspera da Independência, o país tinha registado apenas três casos. Em 1997, estavam notificados mais de oito mil casos, um número que foi baixando, significativamente, devido ao empenho do Executivo no combate à doença. Em 2010, foram notificados menos de 200 casos e, no ano passado, 69. Todos os doentes diagnosticados são tratados. A doença tem uma mortalidade que oscila entre os três e os dez por cento. Quando atinge o sistema nervoso central, o caso é mais complicado. Em 2012, dos 69 casos notificados, houve o registo de três óbitos. Actualmente, estão notificados em Angola 136 casos. 

JA - Há perspectivas de ser criada uma vacina?

JT-
Neste momento não, pelo simples facto de o parasita trypanossoma ter uma grande capacidade de mutação genética. Portanto, ainda é um sonho a produção de uma vacina contra a doença do sono. Por altura da realização de uma campanha pan-africana para a erradicação da mosca tsé-tsé e da trypanossomíase, que decorreu em Dakar, entre os dias 25 e 28 de Novembro, uma instituição científica internacional garantiu que, em pouco tempo, vai encontrar uma vacina contra a trypanossomíase animal.

JA - Qualquer médico consegue diagnosticá-la?


JT-
Não. Para isso, temos de enriquecer os currículos de todas as faculdades de medicina do país e as escolas de enfermagem.

JA - Uma grávida com a doença transmite-a ao filho?


JT - Sim, é transmitida através da placenta.

JA - Quanto gasta o Executivo por ano no combate à doença?


JT - Angola é o único país africano que combate a doença do sono com meios financeiros próprios. Os outros países esperam pela ajuda internacional. Há dois anos que beneficiamos de 500 milhões de kwanzas. Deste valor, 60 por cento são gastos no pagamento de salários e os restantes 40 por cento são aplicados na aquisição de equipamentos e serviços, na reposição do material e reagentes, no funcionamento administrativo e logístico, na formação e na segurança epidemiológica.

JA - É suficiente?

JT - Ainda não cobre as necessidades que temos. Precisamos de mais. Convém recordar que a doença do sono é de uma gravidade comparável com a raiva, tétano e meningite. A Organização Mundial da Saúde reconheceu que Angola está no caminho certo para a eliminação da doença, pelo que, todos os que vivem nas áreas endémicas devem participar nos esforços para a sua eliminação.

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