Entrevista

"A mulher angolana tem uma vida heróica"

José Ribeiro e Artur Queiroz|

Maria Eugénia Neto faz hoje 80 anos. Vai festejar mais logo com a família, amigos e camaradas. O seu aniversário coincide com o Dia Internacional da Mulher. Uma equipa do Jornal de Angola foi visitá-la e desejar-lhe longa vida e muitas felicidades.

Maria Eugénia Neto diz que os angolanos devem evitar o conformismo e trabalhar mais
Fotografia: Kindala Manuel

Maria Eugénia Neto pôs pedras nos alicerces de Angola e com Agostinho Neto percorreu o caminho das estrelas até ao dia memorável da Independência Nacional. Quando aderiu à causa da libertação de Angola “o MPLA ainda era um esboço que o meu marido tornou realidade, sobretudo na intensificação da luta armada”. Considera que a Mulher Angolana tem “um percurso de heroísmo” mas nos tempos que correm “todas têm que apostar na sua formação”. Está satisfeita com a presença da Mulher em todos os sectores da vida nacional mas exige mais: “não podemos cair no conformismo, devemos ir ainda mais longe, ainda que esteja mais preocupada com a qualidade das mulheres que estão na vida pública do que com a quantidade”.

Jornal de Angola - O Memorial Agostinho Neto continua no centro das suas atenções?

Maria Eugénia Neto -
É uma homenagem muito bonita ao Presidente Neto. Acho que o resultado final nos deve orgulhar. Mas mais uma vez quero dizer que não é um local para confraternizar com comidas e bebidas. Assim está muito bem. Até aquela escultura do elefante está bem enquadrada.

JA - De quem foi a ideia de colocar lá um elefante?

MEN -
A sugestão foi minha porque o elefante é o grande símbolo da Terra e toda a poesia de Agostinho Neto é telúrica. Ele escreveu muita poesia lírica, mas todos esses poemas se perderam. A luta pela libertação de Angola é que o levou a escrever poesia de combate. Mas se formos ver bem, mesmo esses poemas têm lirismo. Agostinho Neto começou a participar na libertação com a poesia e depois entregou toda a sua vida à luta. Por isso escolhi o elefante. Até escrevi um poema que está junto da escultura onde o elefante pede terra e respeito pelo Ambiente.

JA - As filhas do Presidente Samora Machel gostaram de visitar o mausoléu?

MEN –
Gostaram. Uma delas disse-me que o mausoléu é uma universidade onde se aprende muito. Fiquei feliz com a visita delas. Quando o Presidente Samora Machel morreu, eu perdi o único amigo que tinha em África. Há entre nós laços muitos estreitos. Com elas confirmei que é muito difícil ser familiar de quem já não está no poder.

JA - Como viveu os primeiros anos após a proclamação da Independência Nacional?

MEN -
Sempre ao lado do meu marido e dos angolanos. Eu vi todo aquele esforço que Agostinho Neto fez para agarrar o perímetro do país. Toda aquela luta pela unidade nacional. Depois apareceu aquela garotada do Nito Alves. Queriam matar o líder da Nação. Hoje são homens e não reconhecem os seus erros do passado, estão cheios de raiva, não amadureceram. Diziam que Neto não era suficientemente revolucionário mas eles hoje só pensam em dinheiro.

JA - Como vê a Angola dos anos de paz?

MEN -
Progredimos muito mas nem tudo está certo. Aqui em Luanda estão a nascer todos estes arranha-céus que até me tiram o ar. A cidade está a ficar descaracterizada, não sei onde andam os arquitectos. Um dia destes fui a um bairro do Cazenga inaugurar os sistemas de água e luz. Quando saímos da estrada principal entrámos num aglomerado de casas sem qualquer ordenamento. Até as pessoas que me levaram se perderam. Estamos a fazer labirintos nos bairros e as pessoas não têm boas condições de vida. É preciso ver a realidade. Mas temos boas estradas, muitas escolas e centros de saúde. A evolução nos anos de paz está à vista.

JA - Como vê a evolução da comunicação social?

MEN -
Vou ser sincera. Não leio os jornais da imprensa privada. São caríssimos. Só leio o Jornal de Angola mas vocês têm que criticar mais o que está mal, até para ajudarem quem está no governo a não errar ou a corrigir os erros. Devemos sempre criticar o que está mal.

JA - Qual foi o grande momento que viveu depois da Independência Nacional?

MEN -
Vivi muitos momentos importantes, belíssimos, mas também vivi situações de grande amargura. Para mim, aquele dia da Independência Nacional está acima de tudo nas boas recordações. Foi o culminar de todos os sacrifícios que vivi ao lado do meu marido e de todos os outros combatentes da liberdade. Ver o MPLA vitorioso foi algo de inesquecível. Devemos tudo ao Presidente Neto. Ele não se limitou a conduzir a luta de libertação do Povo Angolano. Ajudou a libertar o Zimbabwe, a Namíbia e a derrubar o apartheid. Neto libertou África porque a sua luta foi acima de tudo para libertar o Homem. Ele pensava no mundo.

JA - Qual era a inspiração do Presidente Neto?

MEN -
O Homem livre. O mundo livre. Participar na luta contra o fascismo em Portugal fez bem a Agostinho Neto. Permitiu-lhe ver a luta numa dimensão universal. Mas sempre com os seus olhos de poeta. Só assim foi possível aquele dia único em que proclamou a Independência Nacional. Estava tudo por fazer e queríamos fazer tudo rapidamente. Fui eu que inaugurei as brigadas de limpeza em Luanda. Andei a recolher lixo nas ruas com as minhas camaradas. Mas dois anos depois veio o fraccionismo e o sonho passou a pesadelo.

JA - Qual foi o papel da mulher angolana no percurso até à Independência Nacional?

MEN -
A mulher angolana é heróica. Antes e depois da Independência Nacional. Na luta armada, na reconstrução do país e na paz. Vejam as nossas zungueiras. Vão ao Oriente, ao Brasil, ao fim do mundo, tratar dos seus negócios. Andam pelas ruas a vender, com um filho às costas e às vezes outro na barriga. São verdadeiras heroínas. Durante a luta armada eram carregadoras, cuidavam da família, davam carinho aos guerrilheiros. Eu escrevi sobre esse heroísmo, num jornal da Tanzânia.

JA - O que escreveu?

MEN -
Relatei o papel da mulher angolana na luta armada de libertação nacional. Falei de um exemplo concreto. A minha camarada Maria Paím conduzia um camião entre a Tanzânia e a Frente Leste. Fazia mais de três mil quilómetros, enfrentando imensos perigos. Uma heroína como tantas outras. Um jornalista argelino fez essa viagem até à IV Região. Ficou admirado com a nossa organização. Os combatentes disseram-lhe: vão dizer ao camarada Neto como vivemos aqui. Precisamos de mais armas. A nossa juventude foi heróica.

JA - Como vê hoje o papel da mulher jovem?

MEN -
Uma parte das nossas jovens está alienada, só pensa no dinheiro. Mas não podemos querer isso para as nossas mulheres. É preciso regressar ao equilíbrio da família, estudar muito. As nossas jovens têm de ter uma vida digna sem precisarem de se vender a ninguém, nem aos maridos. Quero denunciar uma realidade: há quem se sirva do poder económico que tem  para prostituir as nossas mulheres. A luta pela emancipação da mulher tem que estar sempre na linha da frente. A mulher é que transmite a vida e a cultura.

JA - Como vê os conflitos no mundo?

MEN -
O mundo precisa de mudar de rumo. Quando a mulher se puser em marcha e tomar conta dos destinos da Humanidade, isto nunca mais vai ficar igual. Tem que haver uma revolução muito grande. Quem vai para a política tem que ser responsável perante o seu povo. As mulheres sabem fazer isso muito bem. Estou preocupada com o Mundo Árabe. Parece-me que os árabes estão a imitar os cristãos das Cruzadas na Idade Média. Quando as mulheres daquela região conquistarem os seus direitos, tudo será diferente. Não podemos regressar ao feudalismo. No Médio Oriente faltam líderes revolucionários, por isso, as pessoas são instrumentalizadas pelo Ocidente naquelas manifestações.

JA - A mulher em África tem mais liberdade?

MEN -
Sempre teve mais autonomia do que as mulheres noutras regiões do mundo e particularmente na Europa. Sempre foi mais livre em relação ao seu corpo e as mulheres africanas desde tempos imemoriais que são responsáveis pelas suas famílias. Vejam aqui em Angola. O nosso país estava amarrado e as nossas mulheres comerciantes foram pelo mundo fora e lançaram-se na importação e exportação.

JA - A mulher angolana tem o lugar que merece na sociedade?

MEN -
Estamos a caminhar bem. Mas para mim conta mais a qualidade do que a quantidade. As mulheres angolanas têm que apostar mais na sua formação. Adquiriram consciência social como mães e chefes de família. Têm um papel cada vez mais visível na economia e na política. Mas acho que ainda estamos um pouco para trás na cidadania. A mulher angolana tem que ser uma cidadã mais activa.

JA - O que falta fazer e considera prioritário?

MEN -
Estamos a fazer tudo o que é necessário, mas os angolanos precisam de ter isto no pensamento: o que temos certo é o MPLA e só com o MPLA é possível fazer a unidade nacional. Estou muito optimista, vamos conseguir.

JA - Como vê as relações com Portugal?

MEN -
As relações entre Angola e Portugal têm que ser boas. Penso que quanto a isto estamos todos de acordo. Acho estranhas as grandes amizades que agora existem com o CDS e a direita portuguesa. Espero que tudo corra bem. Mas Angola tem outros grandes e bons amigos em Portugal.

JA - Qual é a sua actividade diária?

MEN -
Trabalho muito na Fundação António Agostinho Neto. Mas também trabalho aqui em casa. Fiquei viúva aos 45 anos e tive que me sacrificar para formar três filhos. Continuo a lutar pelo bem-estar da minha família. Agora vou fazer obras aqui em casa, está tudo muito degradado. A vida é uma luta permanente.

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