Entrevista

A rainha africana do xadrez

Domiana N´Jila|

Esperança Caxita ganhou pela segunda vez o título africano de xadrez em juniores femininos e elevou o nome de Angola ao máximo nível na modalidade do xadrez continental.

Esperança Caxita mostra com orgulho o último troféu continental conquistado na Lunda Sul
Fotografia: Jornal de Angola

A bicampeã africana e mestra internacional, nasceu na Lunda Norte, a 14 de Abril de 1999. É estudante do sétimo ano do ensino secundário. Vive com os pais e mais cinco irmãos em Luanda, no Bairro Popular. Jogadora de xadrez há quatro anos, conta como tudo começou.

Jornal de Angola - Como começou a jogar xadrez?

Esperança Caxita
- Comecei a jogar xadrez por brincadeira. Ia a passar junto à escola Macovi Sport Club, no Bairro Popular, com uma sobrinha, e decidimos entrar. Fomos informadas das modalidades que a escola tinha e gostei do xadrez. Inscrevemo-nos e desde então nunca mais parei de jogar.

JA - Como foi o primeiro contacto com as peças e o tabuleiro?

EC - No começo não foi fácil, mas com a ajuda do meu professor José João, que ensinou-me o ABC do xadrez, continuei a treinar com muita força de vontade e cheguei ao ponto de ser bicampeã africana de xadrez em juniores femininos.

JA - Que grandes títulos ganhou em Angola?

EC - Durante o meu percurso no xadrez já ganhei três títulos nacionais nas categorias juvenis, juniores e seniores.

JA - Foi fácil arrebatar esses títulos nacionais?

EC - Foi muito difícil, porque tive de trabalhar arduamente. Não conhecia o mundo do xadrez, era novata. Então tive que me concentrar muito e quando via as outras jogadoras a ganhar, sentia-me motivada a continuar. Consegui ganhar alguns títulos nos campeonatos nacionais.

JA - Dos dois títulos continentais que ganhou qual deles foi o mais difícil de conquistar?

EC - Os dois foram difíceis de conquistar. O primeiro, porque foi a minha primeira participação no campeonato africano de juniores e eu não sabia como funcionava. Pensava que era difícil ganhar, mas foi mais fácil do que este segundo título. Neste trabalhamos a dobrar, porque sabíamos que as outras participantes estavam bem preparadas e dispostas a tirar-me o troféu. Tive sempre a ajuda dos meus professores.

JA - A Esperança Caxita tem 16 anos e só tem a sétima classe, porquê?

EC- Porque tive problemas de documentação, por isso comecei a estudar tarde. Fui registada à nascença mas tinha muita dificuldade para tratar do Bilhete  de Identidade.

JA - A Escola Macovi Sport Club oferece condições de trabalho?

EC - Não. Aqui oferecem-nos as condições básicas mas é a nossa força de vontade e o apoio moral que recebemos dos professores, que nos ajuda a vencer. A escola carece de apoios. Está destruída e não temos protecção, por isso pedimos aos patrocinadores para ajudarem esta escola, de onde saem crianças que dão orgulho à Nação Angolana.

JA - Que dificuldades enfrenta a escola Macovi Sport Club?

EC - Temos dificuldades de transporte, material de treino, a vedação das instalações está a desaparecer, o que permite a entrada de pessoas estranhas na escola. Quando temos de sair para participar em campeonatos, há dificuldades financeiras, por isso peço que os patrocinadores ajudem. O seu apoio é muito importante para continuarmos a trabalhar e a dar orgulho ao país.

JA - O que está a faltar  para o xadrez angolano atingir os patamares ainda mais elevados?

EC - Mais dedicação por parte dos jogadores. Precisamos de mais escolas e mais treinadores estrangeiros e nacionais, porque cada um traz experiências que ajudam os atletas a crescer.

JA - Qual o significado que teve o encontro com o Presidente da República?

EC - Foi muito bom e deu-me incentivo para continuar a jogar visto que ele foi um grande jogador de futebol e sabe o que é fazer desporto. Agradeci-lhe, porque me disse que ficou muito feliz por termos ganho os três lugares da prova africana de xadrez. O Presidente da República pediu que continuemos a trabalhar para elevar mais alto o nome de Angola.

JA - Macovi Sport Club o que significa para si?

EC - A Escola Macovi Sport Club é de grande importância para mim, pois foi lá que aprendi a jogar xadrez. E conheci as pessoas que me ajudaram a ser campeã africana e são hoje amigos. Pessoas com quem convivo e partilho a minha vida. Espero que num futuro próximo, a escola cresça porque surgiu da necessidade de desenvolver o desporto nas comunidades, contra a delinquência juvenil aqui no Bairro Popular.

JA - Quem é a campe de xadrez Esperança Caxita?

EC - A Esperança Caxita é uma menina que gosta de jogar xadrez, simpática, gosta de estar com as colegas e amigas. É uma menina como outra qualquer, somente trabalha um pouco mais, pois dedica-se aos estudos e ao xadrez.

JA - Projecto para o futuro?

EC - Pretendo continuar a trabalhar e espero que o ano de 2015 seja ainda melhor e que a nossa escola tenha as condições normais, para podermos continuar a bater recordes e que Deus continue a ajudar a minha família. Espero também que os nossos professores continuem a apoiar-nos pois não é fácil pelas condições precárias de trabalho que temos.

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