Entrevista

Abertura da imprensa permitiu destapar as mentiras do passado

O antigo secretário-geral do MPLA, Marcolino Moco, fez uma avaliação positiva do desempenho do Chefe de Estado angolano, João Lourenço, no seu primeiro ano de mandato, e afirmou que as medidas estratégicas por si adoptadas "vão mudar Angola". Ao responder a um questionário da Angop sobre o primeiro ano de governação do terceiro Presidente de Angola e futuro líder do MPLA, Moco apontou a abertura dada à comunicação social como o “mais importante acto” político de João Lourenço, porque permitiu “despertar as mentiras” difundidas em outras eras, sobretudo no domínio da saúde, educação, do saneamento básico e das obras públicas. Moco destacou, ainda, o combate à impunidade dos chamados “crimes de colarinho branco”, a despartidarização da função presidencial, a preocupação com as questões da diversidade político-regional e sócio-cultural do país e a maior seriedade na execução do programa estabilização económica.

Fotografia: Edições Novembro

Como pensa que será o MPLA, depois do congresso, tendo em conta que, por mais de 30 anos, foi liderado por uma só pessoa?
É difícil adivinhar o que poderá ser o MPLA depois de José Eduardo dos Santos, mas poderei deixar, aqui, a paráfrase de um cliché bem conhecido: o MPLA será aquilo que os seus militantes quiserem, agora sob a liderança de João Lourenço. Mas, como, desde há muitos anos, todo o país nunca conseguiu libertar-se da influência inexorável do MPLA, talvez seja melhor afirmar que o MPLA será aquilo que Angola permitir e o que o génio do seu novo líder orientar.

Habitualmente, as sucessões de liderança, em África, acontecem em meio a crispação ou violência, como sucedeu no Zimbabwe. Para o Dr. Marcolino Moco, a que se deve a transição aparentemente pacífica no MPLA?

Será porque José Eduardo dos Santos, que, por razões objectivas e subjectivas, se arrastou demasiado tempo no poder, a ponto de, nos últimos tempos, não já conseguir distinguir o público e o privado, ser suficientemente inteligente e de geração posterior a Mugabe, para entender a necessidade de antecipação, numa Angola e África já bastante integradas nos novos tempos. Infelizmente, este entendimento só aconteceu quando já tínhamos batido no fundo do poço.

Um ano se passou, praticamente, desde que João Lourenço assumiu a Presidência de Angola. Que avaliação faz desse período, em termos dos pontos positivos e negativos?
Aqueles que olham apenas para efeitos de carácter imediato dirão que não mudou praticamente nada. Aliás, a abertura da comunicação social, que considero o mais importante acto de João Lourenço, ao destapar as mentiras da outra era, pode mesmo induzir à ideia de que as coisas pioraram, especialmente na saúde, na educação, no saneamento básico e nas vergonhosas aldrabices das obras públicas.
A verdade é que, além da abertura da comunicação social, com João Lourenço foram tomadas medidas de ordem estratégica, que vão mudar Angola, se não ficarem pelo caminho. Refiro-me, resumidamente, ao fim da absoluta impunidade dos chamados crimes de colarinho branco, à despartidarização da função presidencial, que não tem nada a ver com a questão da chamada bicefalia, à preocupação com as questões da diversidade político-regional e sócio-cultural do país, à maior seriedade na execução do programa de estabilização económica, a uma actividade diplomática menos snob, mais pragmática e intensa; e, tudo isso, sob um discurso sóbrio, no âmbito do qual a palavra se esforça por corresponder aos actos com aparente desencorajamento do culto à personalidade do Chefe de Estado e do Executivo.

Neste primeiro ano de governação de João Lourenço, que mais lhe marcou no no seu desempenho  como Presidente da República?
Creio que o mais marcante na acção de João Lourenço terá sido a forma corajosa como encarou a necessidade imperiosa de se desfazer do espartilho – diria mesmo do golpe – em que o seu antecessor o queria deixar amarrado, nos domínios político, económico e militar-securitário, sem o que não teria sido possível dar os passos que acima descrevemos.

Como acha que deverá ser o MPLA com a nova liderança? Os militantes do partido estão à altura de acompanhar essa mudança?
João Lourenço demonstrou que tem capacidade para transformar Angola, sem sacrificar os interesses do país aos restritos interesses do MPLA e de alguns dos seus dirigentes. Esse foi um dos maiores factores das distorções graves que foram acontecendo no país, especialmente depois do fim da guerra civil.
Quero acreditar que os sinais dados não o foram apenas por uma questão táctico-operativa para consolidar o seu poder pessoal, para tudo regressar ao mesmo. Isso seria fatal para o país e para o próprio papel que a História lhe depositou nas mãos.
Se os militantes do partido estão à altura de o acompanhar? Em todo o lado, em África e Angola, em particular, por muito tempo, ainda, a liderança constituirá sempre um factor decisivo sobre o papel das militâncias partidárias e das sociedades. Se bem que os militantes do MPLA devam entender que a sociedade angolana amadurece a cada dia que passa e não continuará a aceitar que seja amarrada a interesses mesquinhos de quem quer que seja.

PERFIL
Marcolino Moco: Nasceu no município de Ekunha, aldeia de Chitué, província do Huambo.
 
Percurso

Secretário-geral do MPLA, ministro da Juventude e Desportos, Primeiro-Ministro do Governo da República de Angola e Secretário Executivo da CPLP em dois mandatos.

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