Entrevista

Adriano Mixinge fala da literatura

Jomo Fortunato| Lisboa

Adido cultural da Embaixada de Angola em Espanha, Adriano Mixinge tem desenvolvido um trabalho que vai da poesia à crítica de arte, passando pelo ensaio e narrativa ficcional.

Adriano Mixinge disse que as artes plásticas e a criação poética estão relacionadas por os poderem provocar o desfrute do sublime
Fotografia: DR

Nesta entrevista ao Jornal de Angola, o autor falou da generalidade da sua obra, da diplomacia cultural e, enquanto crítico, do julgamento do poder expressivo das obras de arte.

Jornal de Angola - Terá sido a teorização e o seu conhecimento sobre história de arte que motivaram  o exercício da narrativa ficcional, ou seja, como se desdobra no território da crítica de arte, e da escrita literária?

Adriano Mixinge -
Comecei a adquirir conhecimentos sobre teoria e história de arte aos dezoito anos na Universidade, mas o meu interesse e fascinação pela poesia vem desde os oito anos, altura em que gostava de recitar poemas. Aos onze anos, em 1979, li e entreguei ao escritor sul-africano Alex La Guma, a mensagem da O.P.A. (Organização de Pioneiros Angolanos) à VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos, em Luanda. A minha relação com a poesia e a literatura, que continuou na minha adolescência, em Cuba, é muito anterior à relação com a teoria e história de arte. Tudo começou com a leitura, que me levou à literatura propriamente dita. Actualmente, tanto na minha condição de leitor ou como de “escritor e intelectual na forja”, a literatura e a arte têm sido as minhas fiéis companheiras.

JA - Enquanto criações artísticas, encontra similitudes entre  as artes plásticas e a criação poética?

AM -
Desde que li, aos dezanove anos, “Mwana Pwo”, de Pepetela, adquiri uma obsessão pela literatura e as artes visuais e plásticas. As artes plásticas e a criação poética estão intimamente relacionadas, basta recordar aquele conto chinês de um pintor que estava preso e pediu que o deixassem pintar uma paisagem. Fê-lo tão bem que, depois de terminada a pintura, conseguiu fugir da prisão através da tela pintada. Tanto as artes plásticas como as criações poéticas podem provocar-nos o desfrute do sublime, que nos liberta, que nos apaixona e é isso que dá sentido à arte e à vida.

JA - Quais foram os propósitos editoriais do seu livro “Made in Angola, arte contemporânea, artistas e debates”, acha que conseguiu instaurar o debate com esta colecção de textos?

AM -
Este livro foi publicado em 2009, pela L’harmattan, em Paris. Os meus propósitos foram, por um lado, publicar fora dos circuitos de edição angolanos, evitando comprometer quem quer que fosse, uma vez que constam do livro textos que foram polémicos e, portanto, publicar sem censura nenhuma as ideias fundamentais do meu trabalho como curador e historiador de arte. Por outro lado, seduziu-me a ideia de ter um livro editado por encomendas, quer dizer, é um livro que os editores comprometem-se a tê-lo sempre disponível: basta alguém encomendar, fazem uma impressão limitada do número de exemplares solicitados. “Made in Angola: arte contemporânea, artistas e debates” não foi um livro para instaurar debates, a obra resume debates e encontros profissionais.

JA - Qual é o seu conceito de diplomacia cultural,  ou seja, enquanto adido a  afirmação de Angola  no mundo  tem sido pragmática e funcional?

AM -
Reutilizo o conceito de diplomacia cultural das instituições que trabalham no âmbito das relações bilaterais entre Estados, que visa o diálogo entre os artistas, cidadãos, instituições e sociedades através da arte e da cultura. Sejamos francos: apesar dos esforços realizados pelo Ministério da Cultura, das relações exteriores e das finanças ainda temos um longo caminho a percorrer. Não somos pragmáticos nem funcionais, por causa da falta de uma verdadeira visão e medidas práticas e regulamentares do Estado, que, de facto, arregimente os meios humanos, económicos e financeiros adequados para o efeito.

JA - O júri do  Prémio Sagrada Esperança, decidiu premiar, este ano, a sua  obra , “O ocaso dos pirilampos”. O que o leitor pode encontrar neste seu livro, e porquê da  metáfora do título?

AM -
"O Ocaso dos pirilampos" é resultado de um trabalho aturado de quatro anos: a escrita e reescrita de três formatos de textos mais ou menos acabados, com diferentes perspectivas que, inicialmente, tiveram até mesmo títulos diferentes: foi depurando criteriosamente àqueles textos que tinha-os intitulado de "O Batuqueiro" e "Os Finórios", que decidi subdividi-los em “O Ocaso dos Pirilampos” e um novo romance, sem título definitivo, em que estou a trabalhar. Temos presenciado no mundo e em Angola, a emersão de uma nova sociedade, fruto das transformações que a globalização e as novas tecnologias provocam e os localismos condicionam e ou adaptam. O mundo vê-se a braços com uma mistura de decadência com regeneração criativa, com o esvaziamento dos poderes absolutos e a irrupção dos micro-poderes da cidadania, de tensões entre interesses individuais e as responsabilidades colectivas. “O Ocaso dos Pirilampos” retrata o lado mais escuro destas transformações, o lado do descalabro e da decadência, na perspectiva da exacerbação do individualismo. O próximo romance será o da exaltação de diferentes micro-poderes.

JA - Sem pretender estabelecer uma hierarquia de valores, do tipo melhor e pior, a nova geração de artistas plásticos surge de facto numa linha de continuidade da produção artística das gerações anteriores, ou existem hiatos neste processo?

AM -
Desde a década de noventa do século XX, que o sistema geral das artes plásticas em Angola tem dado mostras de estar a espreguiçar-se constantemente, tanto por força da inexistência de um dinamismo interno, como por influência de eventos internacionais, ou, também, pelo labor de investigadores e curadores de arte estrangeiros. Verificamos o surgimento e consolidação de um coleccionismo público e empresarial, pouco sistematizado e paternalista, que pretende impor o patriotismo como um valor de mercado, enquanto este é, apenas, um valor social, afectivo e simbólico. Temos visto artistas plásticos de todas as gerações a fazerem um importante trabalho para consolidar algumas estruturas, e algumas fundações a contribuir para o surgimento de estruturas cooperativas e empresariais. Outra das novidades é o surgimento de novos comissários de exposições, enquanto a nossa grande debilidade é a inexistência de uma crítica de arte rigorosa.

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