Entrevista

África deve apostar na formação da mulher

Yara Simão |

A luta em prol da igualdade, do empoderamento e de uma vida melhor, continua na agenda das mulheres africanas que a cada dia se afirmam nos lugares de decisão dos seus países, mas o número ainda é reduzido.

Maria Cristina Asangono Nguema considera a mulher africana uma grande batalhadora mas defende mais formação para a sua emancipação
Fotografia: José Soares

É preciso apostar mais na educação e formação das mulheres, afirma a embaixatriz da Guiné Equatorial em Angola, Maria Cristina Asangono Nguema. Nesta entrevista concedida ao Jornal de Angola, a embaixatriz deixa uma pergunta: “como vamos falar de redução da pobreza numa sociedade com um número elevado de crianças e mulheres analfabetas que mal sabem ler e escrever e que só se dedicam à venda ambulante nas ruas das nossas cidades?”


Jornal de Angola - Como caracteriza a mulher africana e como encara o futuro dela no continente?

Maria Nguema - A mulher africana em princípio é lutadora e já vem desencadeando esta luta há muitos anos. A mulher africana sempre buscou maneiras de levantar a cabeça e exigir os seus direitos. Ela é mãe, irmã e esposa e é comum em África ver que todas as tarefas sejam da sua responsabilidade. Por isso é necessário considerá-la batalhadora, porque apesar desta carga toda tem tempo para exercer funções sociais, políticas e económicas.
Jornal de Angola - O que assistimos resulta da falta de formação ou de maturidade da mulher?

Maria Nguema - A mulher tem de ser educada. A mulher não pode ser independente sem ter formação. Uma mulher formada conhece os seus direitos e obrigações e não se deixa intimidar pelos homens, lutando dia após dia para conseguir uma posição social confortável e ir adiante. Mas para que ela seja emancipada, deve abraçar em primeiro lugar a formação. Chamamos a atenção aos homens que não respeitam as mulheres que elas têm de ser vistas como irmãs, pois ninguém gostaria de ver a sua filha ou irmã ser discriminada. Essa luta não deve ser apenas das mulheres. É também dos homens. Só assim é que África vai desenvolver-se com mulheres emancipadas e formadas.


Jornal de Angola - Os governos devem apoiar mais no processo de educação das mulheres?

Maria Nguema- No meu modo de pensar a educação e alfabetização são as primeiras acções a empreender. A educação permite que meninos e meninas, bem como a mulher africana tenham oportunidades no futuro. Como falar de redução da pobreza numa sociedade com um número elevado de crianças e mulheres analfabetas que mal sabem ler e escrever e que só se dedicam à venda ambulante nas ruas das nossas cidades?


Jornal de Angola - O que as mulheres precisam de saber e dominar além de ler e escrever?

Maria Nguema- As mulheres não nasceram só para saberem ler e escrever e serem vendedoras ambulantes. Na maioria das cidades africanas registam-se muitas crianças e mulheres ambulantes, alegando necessidade de sustento doméstico. Elas precisam de se dedicar a outras coisas mais decentes e dignas. Elas precisam de ser instruídas. E mulher instruída tem capacidade de entender o que é ou não essencial, que pode transformar a sua vida quotidiana numa perspectiva melhor. A planificação familiar e a educação são elementos essenciais para a redução da pobreza. Já não deve ser moda a ideia de famílias numerosas, porque ela hoje tem consequências negativas, entre as quais, a pobreza extrema. 


Jornal de Angola - Para um continente africano desenvolvido, o segredo está na promoção de uma educação com valores e visão de futuro?

Maria Nguema- O nível da mulher africana educada ou formada já é alto. Mas, posso afirmar que não é a maioria. O número é mais ou menos considerável. Pena é que até aqui não conseguimos acabar com o analfabetismo da mulher. Por isso, muitas optam por coisas fáceis. Existem mulheres que ficam apenas a cuidar do marido. Entendo que não é este o seu papel, pois mulher alguma nasceu para ser empregada do marido. A mulher é companheira para juntamente com o marido trabalharem na educação dos filhos.


Jornal de Angola - O que as mulheres pensam fazer para ajudar os governos a combater os conflitos no continente?

Maria Nguema- Se a mulher não está a ocupar maioritariamente os lugares de decisão, quem somos nós para vencer essa situação? O que fazemos é lutar dia após dia, em casa e onde cada uma de nós se encontra e trabalha, para influenciar o fim dos conflitos. Lutar como mãe para educar os filhos e fazê-los compreender que não é bom incitar conflitos. Lutamos como esposas para dizer aos nossos esposos que não é opção a ter em conta conseguir a vida através de conflitos. Lutamos na vida social, criando organizações ou associações para ajudar com as nossas ideias na resolução de várias situações de conflitos em África.


Jornal de Angola - Os objectivos do milénio a favor das mulheres foram todos concretizados?

Maria Nguema- Gritar e elevar a voz é o que as mulheres têm de fazer para que os objectivos sejam concretizados, principalmente os programas, muitos dos quais não foram concluídos.


Jornal de Angola - As pessoas que mais sofrem com os conflitos políticos na Nigéria e Burundi são as mulheres?

Maria Nguema- Por que não? A mulher, como pessoa vulnerável de qualquer sociedade, particularmente a africana, quando há conflitos é a que mais sofre, porque não tem força física para poder defender-se. Além disso, são maltratadas, violadas e usadas como empregadas para alimentar os homens que estão a fazer a guerra. Temos que lutar contra essas guerras, apelando aos nossos governos sobre a necessidade de viver bem a qualquer preço. Que viver bem é viver em paz, é ver o país, o continente a progredir, porque as guerras só nos fazem mal a nós mesmos. Os que morrem são nossos filhos, mulheres e irmãos.


Jornal de Angola - O número de mulheres nos lugares de decisão é cada vez maior?

Maria Nguema- Quantos governos africanos estão formados por mulheres? Estamos a buscar  maneira de elevá-las. Há muita tarefa por cumprir. Temos países jovens aonde se deve dar oportunidade às mulheres para que elas possam dar as suas opiniões para o fim dos conflitos. São os nossos filhos, nossas irmãs, esposos que estão a morrer. Em África, as mulheres já estão a ocupar postos elevados, até na Presidência, mas em referência ao número de mulheres ainda não satisfaz. Ainda falta muito. Somos a maioria no continente, por que não ser também nos lugares de decisão? Temos que insistir para que seja mais que o número actual.


Jornal de Angola - As mulheres africana são unidas?

Maria Nguema- Para todas as mulheres africanas, é importante que saibam que todas somos uma, somos todas africanas e precisamos de ser unidas para que o nosso continente seja unido e desenvolvido. Vamos continuar a lutar para garantir o nosso espaço, o nosso continente precisa de nós para crescer e desenvolver, são os nossos filhos que vão herdar as nossas raízes e, por isso, precisamos de trabalhar para que eles encontrem uma África melhor e saibam dar continuidade ao nosso legado ou tradições de crescimento e desenvolvimento sem guerras ou conflitos.


Jornal de Angola - As africanas sonham com o fim da pobreza no continente?

Maria Nguema- As mulheres em África dão voz de alarme para que as estratégias de luta contra a pobreza sejam reais e efectivas. As tarefas dos nossos governos para a resolução dos problemas locais, todos os esforços devem ser em conjunto.


Jornal de Angola - O que tem causado a pobreza em África?

Maria Nguema- A nossa pobreza obedece a vários factores que influenciam negativamente o nosso modo de vida. Podemos apontar a crise económica, a falta de uma educação básica e generalizada, o desemprego, o sistema público de de saúde e outros problemas que de forma indirecta afectam os africanos.


Jornal de Angola - Grandes esforços estão a ser feitos para combater a pobreza?

Maria Nguema- Apesar dos esforços que os nossos governos estão a fazer, a crise económica faz com que a pobreza seja mais extensa, mais intensa, afectando especialmente a massa feminina, os meninos e meninas do nosso continente, por serem a classe mais vulnerável. Estou segura de que nós podemos empreender todas as acções de luta contra a pobreza de uma só vez. Esperamos que haja um programa de acções prioritárias a empreender.


Jornal de Angola - O que o vosso Governo tem feito para melhorar o nível de vida das mulheres?

Maria Nguema- O nosso Governo tem projectos de desenvolvimento económico para um horizonte até 2020. Criou outras estratégias de combate à pobreza, através de um vasto programa de alfabetização da população adulta. Foi aprovada uma lei sobre o ensino primário obrigatório e gratuito para todas as crianças. O departamento de promoção da mulher dedica-se a questões de promoção e igualdade de género e autonomia da mulher guineense no campo económico e laboral.


Jornal de Angola - O esforço das mulheres angolanas tem servido de incentivo para as irmãs africanas?

Maria Nguema- O exemplo que colhemos é a persistência. Angola saiu de uma larga guerra e o tempo que levam de paz é pouco, mas o número de mulheres formadas é alto. O papel da mulher nota-se nos postos de decisão. Temos visto cada vez mais o seu esforço e aconselho que puxem as outras também, para que não haja disparidade, umas superiores a outras, mas que andem ao mesmo nível. Somos todas irmãs e precisamos de nos ajudar.

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